quinta-feira, 23 de março de 2023

Até breve, João





O coração não sente nada
Do que não quer enxergar
Cá no mundo da lua
Tive notícias suas

Adriana Calcanhoto


A primeira vez que ouvi Zé Renato (ao vivo) foi em 1981 no Teatro da UFF. Estava lançando Luz e Mistério, talvez o disco mais bonito da sua carreira, se é que se pode nominar um único. De voz inigualavelmente bonita, Zé Renato alternou por diferentes caminhos até chegar ao Quando a noite vem, lançado esse ano. Nesse meio tempo fez discos antológicos em homenagem a Zé Keti,  Sílvio Caldas e Paulinho da Viola, um belo disco de fados, um outro iguamente belo em dupla com Renato Braz e até mesmo um contendo canções da Jovem Guarda, Qualquer coisa na voz dele fica muito bonita, solo ou em coro (com o Boca Livre). Quando a noire vem é um disco delicado, a maioria das canções é conhecida. A opção por um repertório manjado é sempre um risco, mas como já escrevi, tudo na voz dele fica bonito. Comprei o disco. Sempre que puder comprarei no disco. Eu mesmo digitalizo e coloco no Itreco.

Hoje só compro discos na Pops Discos em São Paulo. Eles tratam muito bem tanto quando vamos na loja quanto quando encomendamos. Sempre que chegam, há festa. Como esses que chegaram hoje. Há pouca coisa disponivel. Muita coisa no streaming, pouca coisa no disco.

Meu Itunes tem 256 gigas de músicas digitalizadas por mim. São quase 55.000 músicas. Considerando o tempo médio de três minutos por música, chegamos a 165.000 minutos ou 2.750 horas ou 115 dias ininterruptos para ouvir tudo uma única vez. Não dá mais tempo. Por isso mesmo tenho colocado o Itunes no aleatório para que ele me recarregue de boas memórias. 

Foi assim na última viagem com os meninos. Primeiro veio Adriana Calcanhtto, Tive notícias, do álbum Só. Esse disco é de 2020, mas eu estava esquecido dele. Tive notícias é uma lembrança boa (e triste).

Numa viagem de 4 horas, é incomum que o aleatório repita um artista. Mas dessa vez, Soledad Villamil veio em dose dupla: Amor em entredicho e Volver volver, todas duas muito bonitas. Recordações da Buenos Aires musical de dezenas de idas. Da Argentina, também veio o tango Nocturno do Bajofondo.

Décimas por el nascimiento, Victor Jara, Ana Carolina, Época de Ouro, Flora, Ednardo (daqueles versos tristes Se eu pudesse pensar em ti sem vontade de querer chorar, sem pensar em querer morrer nem pensar em querer voltar...), uma nova versão de Terra Estrangeira com Celso Sim do disco Vão do Wisnik. Vou anotando aqui para uma futura canção de afeto e para não esquecer desse momento terno e delicado com meus meninos. 

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Hoje eu soube da morte do meu amigo João. 

Foi na esquina da Primeiro de Março com a Rosário, onde reinava o sebo de discos Escuta Som, que eu passei os melhores anos da minha fase Rio de Janeiro. Acho que pelo menos um terço da minha discoteca foi comprada ali, em intermináveis conversas com Cláudio, João e Raimundinho. O sebo acabou com a trágica morte do Cláudio em 2017, mas João permaneceu por ali. Por um tempo, vendeu discos usados na Banca de revistas do Seu Franco. Era um homem bom. Sempre que passava na Rua, vindo das Barcas, reservava um tempo para conversar e até cheguei a comprar alguns discos mais para ajudar. O João trazia a Escuta Som de volta.

Hoje soube pelo Seu Franco que o João Partiu. É a vida. Qualquer dia nos encontramos.


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