segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Cheiro de chuva

Estranho esse centro fechado, pouca gente circulando, a cantareira calma. O dia do comerciário levou o Cláudio da Escuta Som, o Maurício do Alfarábi, a Sílvia do Beringela e outros menos cotados para o descanso e deixou o velho centro vazio.
Estranhei, óbvio. Pareceu-me inadequado estar aqui só a trabalho. O dia todo foi muito lento, o trabalho não rendeu mais do que o usual. A empresa, em conformidade com a total incompletude do ambiente, resolveu dispensar os funcionários às 16 e 30.
Cheguei a pensar que pra mim talvez ficasse inviável trabalhar aqui sem esses complementos da hora do almoço.
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Outros fenômenos tornaram a segunda lenta: o início do horário de verão, quando se perde uma hora de sono, e o clima desigual da noite niteroiense: começa abafado, depois congela.
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No início da noite, uma chuva torrente e prematura veio como uma bênção. Fiquei na janela ouvindo aqueles pingos urgentes. Esse cheiro de chuva percorre minha vida inteira como um sentimento misturado de paixão e medo.

sábado, 17 de outubro de 2009

Ortega a perigo

Finalmente um sábado solitário no pardieiro. Pensei em sair pra assistir Bastardos Inglórios, mas preferi deixar pra amanhã. Ou depois de amanhã. "Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã". Hoje vai ser só da vagabundagem. Vou parar pra ver os e-mails do Ortega, meu fiel servidor de finas putarias. Ando atrasado com ele. Acho que o Ortega está se regenerando. Ultimamente, entre uma pelada e outra, manda-me mensagens indefectíveis de auto-ajuda. Não existe nada mais inútil do que uma mensagem de auto-ajuda. Principalmente aquelas em que o sujeito sugere que façam uma corrente e envie pelo menos para 10. Pena de morte para esses mensageiros!
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Danei a ajeitar discos e livros, tirar o pó das estantes, mudar as coisas de lugar pra ver se sobra algum espaço. Difícil.
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O bom fim de noite dessa última semana foi recheado de filmes não tão bons. Tenho dormido tarde. Comecei com Shrink, the doctor is out, ótimo, Kevin Spacey perfeito no papel de um psiquiatra suicida. Depois vi Os falsários, filme alemão que ganhou o Oscar de estrangeiro em 2008. Gostei também. Muito bom o desempenho do ator Karl Markovics. Bela idéia a escolha dos tangos para a trilha do filme. E daí Reféns do medo, um filme sobre serial killers dirigido por Dario Argento. Curioso foi ver Emmanuelle Seigner, a deusa de Lua de fel. Envelheceu, mas ainda dá um caldo! E finalmente, a comédia Maldita sorte, que no máximo deu pra passar o tempo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Pequeno caos de quinta

Já disse, detesto bancos, por isso mesmo mantenho uma única conta há muitos anos. De vez em quando, complica. Tipo cancelam seu cartão sem motivo, não lêem o código de barra da conta, não cospem folhas de cheque e por aí vai. Hoje travaram meu cartão. Com o banco em greve, a agência longe daqui, sem poder tirar dinheiro ou pagar conta, fiquei a ponto de sofrer do moral.
Meu estômago ferrado do almoço de ontem, arde e regurgita.
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Dias como esse me esgotam. Fiquei o dia por conta de um estudo diagnóstico. Uma coisa fascinante poder trabalhar nisso. Ao mesmo tempo, esgota. Somado ao banco e ao estômago rugindo, restou o surto.
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Surtei, é verdade. Rosecrilda viu. Não foi um surto como os de antes em que eu errava a estrada e dava cabeçadas no teto do carro, foi só um surtinho. Um acúmulo de dor, cansaço, sofrimento pela incompetência alheia, e o estômago revirado.
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Durante o surto, acho que devo mudar o Mundo. Ligo pra todas as pessoas que não têm nada com isso, mudo planos, empalideço. Custa um pouco, mas aprumo. Quando aprumo, tenho que desfazer tudo que refiz e voltar ao mesmo lugar de antes.
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A velhice, a terapia, os inibidores de recaptação da serotonina e a falta absoluta de esperança na humanidade aplacaram meus impulsos, mas ainda há aqueles dias.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Idéias geniais

Que idéia genial juntar Joel Nascimento e Hamilton de Holanda pra fazer um duo de bandolins! Já está cotada para ser a idéia do ano. O disco não se restringe ao choro. Passa pelo clássico, pela valsa, por Gardel, enfim, uma boa mostra da genialidade dos dois.
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O cirurgião Ben Hur Ferraz Neto, um dos maiores nomes do transplante de fígado do país, também tem idéias geniais. A primeira é recomendar a instalação de caixas pretas em todos os centros cirúrgicos do país, com o objetivo de criar um banco de informações de imagens, sons e dados de milhares de cirurgias. Fundamental na compreensão e na prevenção do erro médico.
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A outra idéia é que o médico seja remunerado apenas na consulta de retorno. A primeira consulta teria duração de no mínimo uma hora e seria usada para compreensão da doença e avaliação da capacidade efetiva de oferecer ajuda. Está na entrevista da Veja dessa semana e já vale a revista.
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Sou contra feriado às segundas. Feriado devia ser sinônimo de sexta. Cheguei na empresa hoje de manhã e um maremoto de reuniões incessantes tomou conta do meu dia. No fim do dia, estava tão esgotado e vazio que mal conseguia avançar num raciocínio lógico. Além disso, Renatinha pareceu-me triste. Quando Renatinha está triste, o dia costuma perder um pouco do sentido.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Trato do homem

Até admiro quem goste, mas devo dizer: não gosto de animais domesticados. Nada me entedia mais do que um cavalo trotão, um cão latindo e um gato quizilento (quem chamou os gatos de quizilentos, foi Drummond, não eu!). Em Odete Lima, criava os indomesticáveis gansos para substituir os cães. Hoje cedo antes de pegar a estrada, fiquei a ver a procissão improvisada (a oficial é só de noite) de Nossa Senhora de Aparecida passar em frente à casa dos meus pais.
Primeiro vieram os cavalos. Depois motos buzinantes, depois bicicletas, depois gente, e finalmente os carros. Dois dos carros tocavam música breganeja numa altura que faria corar Aparecida de vergonha.
Um dos cavalos estava com gastroenterite e começou a fazer suas necessidades em frente a casa de minha mãe. Vim sentindo cheiro de bosta fresca, impregnado nas minhas narinas melequentas de rinite até a Serra do Capim. Clarice definiu os cavalos como os mais nus dos animais. Se visse aquele alazão se borrando todo hoje, ia ficar mais convicta ainda.
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Sou do tempo em que o que mais enfeitava a mulher ainda era o trato do homem, como diria Vanzolini. Fiquei espantado de saber que um amigo meu está se separando por iniciativa da mulher! Como assim?????

domingo, 11 de outubro de 2009

Sou que nem Guriatã que morre cantando

A vantagem de estar só em Miracema é o cheiro de limpeza do quarto.
Em Niterói, a conectividade com o resto do mundo.
Em Miracema, estar perto e longe de quem amo.
Em Niterói, longe e perto.

Quando estou só, sinto uma falta imensa do meu trabalho. Meu pai, 73, se realiza quando pega o trator e vai arar a terra. No meu trabalho, nunca estou só. No máximo, sozinho.

A vantagem de estar só nos dois lugares é que posso ouvir Beirut ou Tantinho da Mangueira sem ter que dar explicações.

Já explicamos muito. Vivemos explicando isso e aquilo. Meu bom gosto musical tem graves defeitos e eu gosto de todos eles. Deixa eu quieto com meu ouvido!

Afinal, eu não implico com essas coisas que a mídia impõe e pisa em cima de nós. Sou capaz de passar uma semana na Enseada Azul ouvindo Cesar Marciano e Zé Mennotti e ficar quieto.

Maria Bethânia gravou mais duas obras primas. Ouço com calma. A primeira canção que me chamou atenção foi Guriatã, uma guarânia de Roque Ferreira. Roque Ferreira pensa ecleticamente como eu. É um baiano que compõe inclusive guarânias. E daí?

Quando estou só, vejo filmes. Vi, por exemplo ontem, Beijo roubado e hoje, Sete vidas. O que me atraiu em Beijo roubado foi o fato do roteiro ter sido escrito por Lawrence Block. Acredito que Block seja responsável por tudo de razoável que tem no filme. Norah Jones ainda se procura como cantora, como quer ser atriz? Sete vidas é um filme tristíssimo. Will Smith está fazendo escola de filmes tristes. É possível passar 4 horas sozinho vendo esses dois filmes sem ter a sensação de ter perdido 4 horas de vida.

É domingo de tarde em Miracema, Luisa e Laura estão ensaiando (!!!!!!), Chicó com a mãe. Restou-me Bolívia e Brasil. E a Bolívia acaba de marcar o primeiro gol!

sábado, 10 de outubro de 2009

Meu pé de jaboticaba



Hoje de manhã encontrei o menino que eu fui. Na Rua Direita, a principal da cidade, passou um velho com seu carrinho de mão lotado de jaboticabas. Jaboticaba foi a fruta da minha infância e até hoje gosto muito.. A prática da venda de jaboticaba em carrinho de mão é antiga na cidade. Comprei dois litros. Muito pouco pro menino que subia em árvores e ficava uma tarde inteira chupando. Perto da exposição agro-pecuária, tinha uma chácara que meu tio arrendou pra plantar cana. Logo na chegada, cinco pés de jaboticabas consecutivos davam boas vindas. Quando era época, aquilo ficava tudo pretinho.
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Hoje não subo mais em árvores. Tudo mudou e os valores intangíveis foram sendo extorquidos de mim como um enterro qualquer. Não há remédio que faça voltar o frescor dos tempos idos.
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Tive minha primeira aula de cavaquinho com Jadim. Aprendi duas posições e a batida. Diferente do violão, o cavaco é um instrumento de ritmo e é uma pena que eu tenha aproveitado tão mal minhas aulas de pandeiro. Mais do que a aula, uma boa conversa de amigos, solidários nas suas tristezas.
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Mas hoje não foi exatamente um dia triste. Fiquei um pouco desnorteado de manhã, mas aprumei. O dia terminou com uma vitória do Fluminense e uma lamparina acesa no breu que se tornou a campanha do time.

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...