sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Linha de passe


Dos meus três melhores melhores amigos, um já morreu, os outros dois fazem aniversário em fevereiro. Alexandre fez 48 na quinta, 11 e Jadim 52 no sábado, 13. Há motivo de sobras para comemorar a amizade e o afeto que tenho pelos dois. Amigos desde onde já nem me lembro de mim, desde o longínquo jardim de infância, de contar muitas histórias comuns, viagens comuns, idéias, músicas e letras.
Há em toda grande amizade que dura mais de 40 anos, períodos de maior aproximação e outros menos convividos. Com os dois, não foi diferente. Mas o que mais marcou o afeto que nos dedicamos, foi que nunca nos afastamos, mesmo quando não estávamos juntos. Quer dizer, sempre existiu no íntimo de cada um, a presença do outro, ainda que longe. Pensar neles é como sentir que há mais dois além de mim em tudo que eu venha a precisar.
...........................................
Atualizando: vi (com S), com atraso de quase dois anos, o ótimo Linha de Passe, da dupla Walter Salles e Daniela Thomas. Tudo que já foi dito sobre o trabalho de Sandra Corveloni é merecido. O filme todo é um moto contínuo muito bem arregimentado por Salles e Daniela.

Traduzir-se


"Uma parte de mim pesa e pondera.
Outra parte delira."

Ferreira Gullar.
...................................................
A parte de mim que pesa e pondera, usualmente a parte mais constante, é um sujeito entediado ortodoxo. Prefiro a parte que delira. Infelizmente não sou eu quem define de que lado estou.
..................................................
O entediado ortodoxo acha que só vai à praia por causa das filhas. E aí quando o lugar calmo, de águas mansas, longe da euforia carnavalesca, não está agradando nem um pouco às filhas, o entediado ortodoxo se fecha num vazio azedo e se pergunta o que está fazendo ali.
...................................................
O entediado ortodoxo não percebe que há uma mulher à sua espera, coisa rara nesses últimos anos de carnaval, alguém que está ali pra cuidar dele e pouco faz pra enaltecer esse momento.
...................................................
O entediado ortodoxo dificilmente antevê que, expremendo bem, as filhas acabam gostando, porque a convivência é saudável e o lugar é lindo, e não há como não gostar dali.
....................................................
O entediado ortodoxo não enxerga bem o calor dos amigos, a constituição de uma familia master, as brincadeiras de Babu, o mascote da familia, a preocupação de cada um com o bem estar do outro, enfim, uma oportunidade quase única de estar entre gente de bem, que está ali apenas para dar e receber afeto.
.....................................................
O entediado ortodoxo ainda não percebeu que o dono da pousada é um contista de cordel e tem histórias na manga pra contar de fazer esquecer que o ar condicionado é meio precário, que só se trocam as toalhas a cada 3 dias e que a piscina da pousada nunca está limpa (entediados ortodoxos adoram piscina porque não há areia para sujar os pés).
.....................................................
Mas Cumuru é um convite ao delírio. Pra comer, tem o Caldeirão da Isabel e a Batataria, onde se pode comer, respectivamente um ótimo budião com molho de camarões e uma suculenta batata recheada. E ainda inventaram de combinar com Dona Edileuza, a cozinheira da pousada, fazer uma lagosta, que ficou assim, na categoria de comer ajoelhado.
......................................................
Mas as praias é que são a maior atração. Começamos pela praia de Cumuru, em frente à pousada, de águas mornas e maré baixa, de forma que se podia caminhar muitos metros sem cobrir o joelho.
.......................................................
Dia seguinte, fomos à praia do Moreira, isolada, sem a logística do pão e da água, mas de um encanto natural acolhedor. Ficamos nós e um pessoal de Vila Velha só, conversando e tomando cerveja como se fôssemos velhos conhecidos a dividir os tira-gostos e a bebida.
........................................................
Depois, à Baía do Caí, já um lugar mais estruturado, mas igualmente isolado e bonito.
........................................................
No terceiro dia, pegamos um barco e fomos a Corumbau, a praia mais estonteante de todas. O passeio todo foi muito bonito.
.........................................................
O entediado ortodoxo chegou ontem de noite estenuado depois de 12 horas de viagem ininterruptas e pode exercitar sem cerimônias seu velho azedume: brigou com a mãe e com a filha, depois dormiu profundamente, entendendo que a gente se acostuma a tudo, até a ser um entediado ortodoxo.
.............................................................
De manhã, fiz a barba de 7 dias, levei a S10 pra lavar e peguei pela primeira vez num jornal e descobri que o Fluminense perdeu a disputa pela semi-final, Pena Branca morreu (mais um) e de resto, nada de novo.
.............................................................
Tentei dar andamento a um projeto de trabalho que ficou mau combinado, liguei pro terapeuta pra transferir a sessão pras 19h de segunda, porque 18 tem reunião da vascular. Cheguei, estou vivo!!!
..............................................................
Sobre Pena Branca, Artur Dapieve escreveu uma crônica muito bonita no Globo de hoje. Nem parece o Dapieve roqueiro incorrigível. Parece mais um crítico da boa música caipira.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Tudo que você deve saber antes de vir a Cumuruxatiba

As estradas são muito ruins.
As estradas, cara (!!!), são mesmo muito ruins!
O celular pega muito mal. O meu, claro, nem mal.
Não há conexão de rede, a não ser nessa lan house escaldante, com fila de espera.
Qualquer acesso à praia (leia-se qualquer estrada), é muito ruim.
..........................................
Depois de vencer os 790 km que separam Miracema de Prado, você tem que optar pelo litoral ou pela serra (ambas estradas de chão) para chegar a Cumuru (para os íntimos). Entre Cumuru e a Pousada Urupê, há uma estrada precária que passa por um aterro muito mal feito, pontes inacabadas, vielas intrasponíveis e tatatá.
...........................................
Estou sentindo falta de escrever. Mas escrever aqui, é luxo. Hoje cedo, peguei me perguntando aonde estou, será que é aqui nesse fim de Mundo que eu quereria estar mesmo. Bom, há de ter suas compensações, mas essas só começo a escrever, quando voltar.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Paixão e telefone

Detesto telefone. Minha mãe, por favor, aprenda isso, detesto telefone!!!
Pra matar a saudade, não serve, são só palavras do outro lado da linha. Pra trabalhar, só serve pra empresa. Funciona como a coleira do cão.
Da minha infância e adolescência, lembro de algumas vezes ter ouvido meu pai esbravejar por causa da conta de telefone. Significa que nem sempre detestei telefone.
...........................................................
A primeira grande paixão da minha vida aconteceu por volta do início dos anos 80 e da escola médica. Tive umas quatro ou cinco grandes paixões nesses 48. Todas intensas, desmesuradas, irracionais, platônicas. Todas começavam comigo. A primeira não foi diferente. Apaixonei-me pela menina de voz mansa, olhos claros, sotaque estranho e diferente de tudo que eu já tinha visto. Ela nem me notou.
O cenário era o seguinte: final do primeiro ano de medicina no Catete, um calor bem mais ameno do que esse, idas intermináveis à Miracema e conversas intermináveis ao telefone. Meu pai era sócio da Usina Santa Rosa. Eu ia à Usina pegar cachaça e ....telefonar! Ficava horas falando com Rio, Brasília. Onde quer que fôssemos (eu e ela), lá estava eu telefonando. O amor dilacerava torrente ao telefone.
..............................................................
Ontem ficamos eu e Laura zumbizando até meia noite a procurar o estudo semiótioco das canções, do Tatit, que Lau quer ler. Está escondido em alguma caixa, estante, armário ou qualquer buraco da casa que possa suportar um livro. Fuçamos tudo, mas não achamos.
Quando deu meia noite, Laura tira da cartola um - Pai, vou dar um telefonema muito importante, preciso ficar só! A essa hora??? Cruz credo!!!!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Edu, Cristóvão, Laura e um fim de semana perdido


"Sim, distraído, quem sabe? Alguém provisório, talvez; alguém que , aos 28 anos, ainda não começou a viver. A rigor, exceto por um leque de ansiedades felizes, ele não tem nada, e não é ainda exatamente nada."
Cristóvão Tezza.

Um ótimo começo para O filho eterno. De início, Cristóvão parece querer dar cunho ficcional à sua própria história, mas isso é só o início, pode ser que mude com a leitura.
........................................................
Preciso muito escrever bobagens. Depois de passar três dias na clausura do Hotel Alpina em planejamento estratégico, acho que perdi o condão de escrever bobagens. Prometo não fazer um único comentário sobre esse episódio, exceto que devo ter engordado uns tantos quilos, a custa de uma oferta interminável de brunchs, cofees, etc, além das refeições normais. No mais, tenho que acrescentar, sou homem de mais fazer e menos planejar. Domingo parecia tão esgotado que não saía uma palavra decente da cabeça.
.........................................................
O que me fez muito bem nesse domingo foi saber que Laura estava aqui pertinho. A presença dela, ainda que pouco tenhamos conversado, preencheu espaços que certamente poderiam ser ocupados por vazio e solidão.
..........................................................
Disco novo de Edu Lobo na praça já é motivo pra comemorar sem ter ouvido. Notável compositor, Edu tem sido um ótimo intérprete de si mesmo ao longo do tempo. O que mais gosto é o Edu e Tom, Tom e Edu. Interpretações antológicas para a Canção do amanhecer, É preciso dizer adeus, Luisa, Chovendo na roseira, Vento bravo, tudo muito bem arranjado e sem soar repetitivo.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Apenas atualizando

"Sei tudo sobre concreto. Sobre asfalto. Nada sei sobre flores."
Philip Roth, Indignação.

Terminei de ler Indignação. Dos livros que li de Roth, é o mais pessimista. Nem por isso, deixa de ser sublime. É o melhor livro que leio desde O animal agonizante, do mesmpo Philip Roth. Cristóvão Tezza me aguarda na estante.
Conheci Cristóvão na mesa de autógrafos FLIP de 2006. Tinha lido (e gostado de) Trapo, antes de conhecê-lo. Deixei O filho eterno ser bastante incensado e agora peguei pra ler.
As crises de ausência, o calor insuportável, a mialgia e o esgotamento vêm me perseguindo incansavelmente e até a escrita anda devagar.
Na quarta, eu e Laura fomos ver o Casuarina no Teatro Ginástico. Bons vocais de João Cavalcanti e Gabriel Azevedo, boa cozinha, especialmente o bandolim de João Fernando, mas o repertório muito óbvio prejudica um pouco o andamento. O grupo se sai melhor nas inéditas ou pouco óbvias como na canção que regravaram de Sidney Miller (É isso aí).
Vi Sherlock Holmes e Se beber, não case. A mistura de Guy Ritchie e Conan Doyle dá pro gasto, mas Guy ainda ficou devendo um filme a altura de Jogos, trapaças e dois canos fumegantes. Quanto à Se beber, não case, é uma comédia patética,. Quatro amigos (um retardado, um corno manso, um playboy e um mauricinho) vão para a despedida de solteiro do mauricinho em Las Vegas. Você já deve ter visto essa fórmula contada zilhões de vezes de outras maneiras. Já não dá pra rir muito.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Perder, partir, continuar



" Farto de tudo, clamo a paz da morte
Ao ver quem de valor penar em vida
os mais inúteis com riqueza e sorte
e a fé mais pura triste ao ser traída
honras a quem vale nada
a virtude prostituída
a perfeição caluniada
a força, enfraquecida
E o déspota calar a voz da arte
E o néscio, feito um sábio, decidindo .

Farto de tudo, penso.
Parto sem dor
Mas, ao partir, deixo só o meu amor. "

Shakespeare, Macbeth

Estou vendo Som e fúria, a série dirigida por Fernando Meireles, com um ano de atraso, porque não há a mínima possibilidade de acompanhar qualquer coisa que seja na rede globo, em especial aquelas que começam depois das 23h, cujos horários são desorganizados, mas o intervalos continuam extensos. Detesto intervalos.
Pois bem, lá pelas tantas, Dante, o personagem de Felipe Camargo recita esse trecho de Shakespeare. Fui ver na tradução da Bárbara se estava correto. Também ando farto. Principalmente de perder.
..............................................................
Nesses últimos dias, perdemos o pianista Helvius Vilela e o escritor John Fante.
Helvius tocou em alguns discos antológicos da Nana, discos que sei de cor a ordem das faixas, a letra das canções, que fizeram parte de mim e ainda fazem porque nunca se esgotam.
Quanto à Fante, tenho que confessar que lembro muito pouco de Pergunte ao Pó, que li ali por volta dos meus 20 anos, e vou ter que reler. Lembro mais de 1933 foi um ano ruim. Não lembro o suficiente pra fazer qualquer comentário, só sei que gostei dos dois.
..............................................................
Perdi meu avô, minha referência de menino, quando tinha 9. A poesia de meu avô, pelo menos a pouca que conheci, tinha os abismos de Shakespeare, Bilac, Cartola. A foto é de 52, e meu avô está acompanhado por Zezé Moreira, então técnico da Seleção Brasileira, e pelo Seu Jofre, que ainda é vivo. Caminham pelas ruas da mesma Miracema que caminhei de madrugada com S.
...............................................................
Que importância têm no final de um dia quente no centro do Rio, uma velha foto, um velho poema e um esgotamento quase perverso?

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...