domingo, 28 de fevereiro de 2010

Sim, eu sei


Sim, eu sei, ando muito provocativo. Mas não consigo mais permanecer nesse estado vegetal, sem ao menos provocar. Ontem, sábado, achei melhor ir trabalhar. Cheguei na empresa, comecei a fuçar papéis, organizar arquivos, analisar pareceres. Depois juntei tudo isso num texto. Tudo que está ali condensa um processo inteiro em 3 páginas. Resume, ajuda, queima etapas pra quem quer conhecer. Muito poucos lerão. O ser humano em geral, eu em primeiro, tem preguiça mental de ler. Quem ler aquilo, vai se sentir provocado. Esse mesmo é o objetivo!
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Sim, eu sei, ando meio apavorado com os compromissos. É um atropelando o outro sem pedir licença e quando acaba, já tem outra reunião esperando. Reuniões de trabalho geralmente resultam em baixo nivel de aproveitamento, dificilmente você rende o mesmo que quando está sozinho em frente à máquina. Como ontem, sábado, em que fiquei de 9 às 15 produzindo trabalho. Transpirando trabalho.
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Sim, eu sei, aproveitei muito pouco o descanso. Tenho uma dificuldade enorme em apreciar o instante. Vivo quase sempre isolado de familia, amigo, vizinho, humanidade. Acostumei-me com o ócio solitário do apartamento. Investi nele. Hoje acordar e saber que Laura dorme no quarto ao lado e que a qualquer momento pode pintar um café, é uma dádiva.
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Sim, eu sei, perdi uma grande batalha que travei com os remédios. Achei que um dia pudesse detoná-los da minha vida. Mas, enfim, venceram! É preciso começar de novo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Inéditas de Itamar

Francisco José Itamar de Assumpção, o maior gênio da música brasileira surgido depois da geração de 70 para inveja dos ululantes, morto precocemente, estupidamente e lamentavelmente em 2003, escreveu no fim da vida, 11 letras especialmente para o compositor Sergio Molina musicar e chegar ao público na voz de Miriam Maria. Daí nasceu o imprescindível "Sem pensar, nem pensar", mais um petardo deixado com a irreverência, a classe e a verve de Itamar.
De 2003 pra cá, têm aparecido canções derradeiras, inéditas ou não gravadas do compositor. Alice Ruiz tinha uma fita cassete inteira delas. Zélia gravou algumas. Ney Matogrosso tem gravado e Zeca Baleiro produziu o pedaço de disco que Itamar começou a gravar com Naná Vasconcelos, diga-se de passagem, um pedaço de disco que vale por muitos discos inteiros. Conheci Itamar através do vinil Às próprias custas, que depois a Baratos Afins lançou em cd com um som horrível. Depois o Flávio me presenteou com os discos das Orquideas e daí foi crescendo uma paixão arrebatadora pela sua música. Só o vi uma vez aqui no CCBB do Rio com Arrigo Barnabé, quando ele desconstruiu uma canção do Djavan (Boa noite), que deixou a platéia em transe.
Pobre do país que tem gênios e não aprende a valorizá-los. Itamar morreu desconhecido da mídia, é possível que daqui a milênios, alguém mais do que uns cinco ou seis gatos pingados como eu, possam ouví-lo com a atenção que merece.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Lágrimas autênticas

"Ter um filho desaparecido é como ter um vazio na alma. E agora minha alma está curada e cheia de alegria"
Abel Madariaga

Abel Madariaga encontrou seu filho Francisco, roubado pela ditadura argentina, depois de 32 anos. É comovente a história dos dois, contada pelo Estadão ontem. Os Avós da Praça de Maio ajudaram a encontrá-lo. Foi o instante lacrimoso do vôo de volta de São Paulo. Ultimamente tem sido difícil lacrimejar, fruto do uso regular de inibidores da recaptação de serotonina, que segundo Lourenço Mutarelli, deixam o Mundo mais verde. Mas a notícia me deixou bastante comovido. Nem sei bem porque. Esses lances de família são sempre delicados e comoventes e deve ser fascinante encontrar um filho perdido depois de 32 anos.
É possível que tudo isso seja porque Laura agora está aqui por perto. É uma sensação muito boa ter um filho por perto. Por uma ou outra razão que não convém lembrar agora, sempre fui um pai de fim de semana. Daqui pra frente, quero ser cada vez mais, um pai de todo dia.
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Esse empate do Fluminense com o Confiança de Sergipe é um mau prenúncio. O pouco que vi do jogo deu pra perceber que o time de Sergipe é bem limitado, alvo fácil de goleadas homéricas. O time precisa se acertar ou vai ficar mais longe ainda da tal hegemonia. Mau recomeço!!!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Eu sei, mas não devia

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

Marina Colassanti
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Estou em São Paulo. Quatro horas de check-in e out, quatro horas de trabalho perdido. Que fazer ? Eu sei que a gente se acostuma.

Tenho um amigo excelente urologista, que abandonou a especialidade e se tornou oculista do DETRAN. Quem não tem uma história dessa pra contar? O governo não dá conta do que cobra bem cobrado e terceiriza serviços. Trata-se de uma dupla cobrança descarada, cujos serviços são prestados por apradinhados políticos que mal sabem fazer um exame oftalmológico. Há 3 anos atrás, fui reprovado no exame de vista. Duas vezes. Eu sei que a gente se acostuma.

Hoje de manhã fui numa empresa terceirizada (outra arapuca do governo) fazer a certificação digital da minha empresa. Paguei, agendei, precavi meu contador do meu tempo e da necessidade de levar os documentos corretos. O burocrata que me atendeu deu um jeito de achar um pentelésimo de cláusula indevida e me mandou voltar. Eu sei que a gente se acostuma.

É como se "oftalmologista" e burocrata pretendessem me dizer: aqui a gente faz a coisa certa. Lá fora, escondem dinheiro em cuecas, compram sentenças e panetones, roubam nas nossas fuças,mas aqui não. O Sr está proibido de dirigir e sua empresa vai continuar analógica. Eu sei que a gente se acostuma.

Saí do calor insuportável do Rio para encontrar... calor insuportável em São Paulo. Ainda assim andei pela Paulista atrás de qualquer motivação à venda ou dado de graça. Acabei almoçando às 18:15 (o atropelo das reuniões foi me levando no biscoito) no mesmo lugar de sempre. Um pé sujo depois da FNAC Paulista. Eu sei que a gente se acostuma.

Ainda estou no fuso horário de verão.
Esse Estanplaza Paulista é assim mais ou menos.
Saudades amargas de Cumuru e de S.
Saudades de Laura e Luisa.
Saudades de Chicó.
Eu sei que a gente se acostuma.

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NB: na Revistinha da Gol, Dani Suzuki dá a dica do café da manhã: o troço chama-se suco de luz e compõe-se de batata doce, limão, maçã, mamão com semente, abóbora, pepino, gengibre e sementes germinadas. A moça deve ser a combustão em pessoa. Eu sei que a gente se acostuma, mas no momento, eu estou ainda tentando evitar o pudim do café da manhã do hotel.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Nova Iguaçu 47º

Em Nova Iguaçu, hoje no pino de 13h, marcavam 47º no carro do Lugarinho. Só lembrava do vento manso de Cumuru e das meninas se cheirando. Quanto mais o tempo vai passando, mais vou sentindo falta daquela semana já tão distante na minha rotina rapidamente recuperada. Vão se os anéis, ficam as fotos.
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Adoro Tarantino. É meio clichê isso, mas é assim mesmo. Meu preferido é Pulp Fiction, mas também gostei muito de Cães de aluguel, Amor a queima roupa (roteiro dele e divindade de Patricia), e médio de Jackie Brown e dos dois volumes de Kill Bill. As trilhas sonoras são sempre irressistíveis, os filmes constituem-se grandes referências do cinemão. Por isso, lamentei não ter visto Bastardos Inglórios quando estreou no cinema. Agora que saiu em DVD, corri na locadora. Ainda não é o primeiro triplo A do ano, mas leva um 2,5. Ótimo elenco, excelente roteiro,bela trilha!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Trilha sonora 2


Luisa menininha (da idade do Babu na foto, um pouco mais talvez) adorava cantarolar canções de Sinhô, Noel, Caymmi, as músicas que eu ouvia (e ainda ouço) no carro e ela decorava rápido e me surpreendia de repente, sem a menor cerimônia. Eu ficava encantado com aquilo.
Anos se passaram e Luisa hoje só ouve rock, metal, progressivo e nem se lembra mais dos maxixes que cantarolava.
De forma que preparei 4 seleções pessoais para a viagem, , duas dos Beatles (pra Laura, que anda ouvindo muito o quarteto) e duas de rock (pra Luisa). Funcionou médio. Luisa não costuma abrir mão do seu Ipod por nada, e Laura dessa vez preferiu ouvir Luiz Tatit, Itamar e Adriana Calcanhoto.
Aproveitei pra mostar pra S., uma seleção de poetas brasileiros e ouvir algumas canções semi-inéditas. As que mais voltaram foram:

La comparsa, com Anat Cohen and The Anzic Orchestra, do disco Noir - a música de Lecuona, que parece ter sido escrita para o piano de Bebo Valdez, ganha contornos novos e exuberantes para a orquestra e o trompete de Anat. Noir é um disco pra ir se descobrindo aos poucos. La comparsa voltou muitas vezes em Cumuru.

Barracão é seu, com Geraldo Maia, do disco Samba do mar quebrado - clássico do repertório de Clementina ou samba bissexto de Luiz Gonzaga e Dario Souza, no disco de Geraldo, ganhou o nome de Tenho onde morar. É possível que tenham existido duas músicas com o mesmo refrão, pouco importa, a interpretação de Geraldo é sentida e gostosa como a de Clementina.

Feijão com couve, com Geraldo Maia e Silvério Pessoa, também do Samba do mar quebrado - outra bissexta parceria de Luiz Gonzaga e J. Portela, com arranjo de sanfona, violino e piano quase que recompondo o Trio Surdina.

Cartas de metrô, com Pedro Miranda - belíssimo samba de Moisés Marques do disco Pimenteira. Uma música dolente, que mostra que há bons compositores contemporâneos de samba. Moisés, Duani, Rômulo Fróes, é bom saber que existem.

A mesa, com Paulo César Pereio - o poema de Drummond ganha uma interpretação perfeita do Pereio. Eu ouvi umas 3 vezes, mesmo sabendo que ninguém aguenta prestar atenção nos 12 minutos de récita, mas aí é a minha vez de ouvir e talvez chorar um pouco.

Rosinha dos limões, com Kátia Guerreiro - eu gosto demais desse fado, que conheci (!!!) num disco do Martinho há muitos anos. Kátia conseguiu torná-lo mais moderno e suave, sem ferir suas notas.

Adoro viajar com minhas filhas. Só me sinto cansado depois que desligo o carro. Até lá, vou me embalando com nossas canções. conversas e o sono tranquilo delas. S. também se comportou muito bem como ouvinte. Foram 24 horas de bons fluidos.

Trilha sonora 1

O barco se chamava Rei Cigano, de forma que eu aguardava ansioso por um Georges Boulanger ou Django Reinhardt, mas o que veio mesmo foi um pagode sertanejo insosso e descolorido, diferente do cenário privilegiado que nos rondava. Estava tão empolgado com o mar (não com a trilha sonora, obviamente!) que facilitei um pouco e tirei a camisa e ando até hoje sofrendo as consequências terríveis da insolação.
De repente, acho que fazendo jus ao nome, começou a tocar Vida Cigana (quem gostava de música brasileira dos anos 80 ou quem já passou pelo meu indefectível repertório violístico, deve lembrar dessa canção da Tetê), em forma de... pagode sertanejo (!!!). Foi nessa hora que pedi o balde ao marinheiro.
De qualquer jeito, pra quem passou 15 anos na enseada azul sendo obrigado a ouvir o Padre Jorge Matheus, Vitor e Léo, Mastruz com bosta e outras referências iconoclastas, a náusea durou pouco.

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...