quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Um dia daqueles


Veio me dizer que alguns biológicos ainda carecem de estudos fase III e ainda assim podem representar um ganho para pacientes com câncer. Também defendeu, num outro momento da discussão, que há medicamentos mais antigos que não foram testados em estudos fase III, mas que já se consagraram na terapêutica de determinada patologia e no entanto, são negados pelas operadoras porque não possuem evidência de boa qualidade metodológica. E ainda que 300 novas moléculas estão sendo testadas e brevemente estarão abastecendo as drogarias e que não se pode conter o avanço da ciência.
No íntimo, pensava em Borges dizendo pra Vinícius que a felicidade é mais importante que a alegria, por sua serenidade, e que não há nada mais ridículo do que um bêbado bobo alegre. Depois o Ipod começou a tocar o disco novo (e único) de Luisa Maíta e aprumei: a primeira impressão é de que se trata de um belo disco!
Eu não sei porque essa mania de cantora achar que gravar uma canção do Jorge Mautner, do Waly Sailormoon ou do Jards Macalé pode tornar o disco vanguarda. Nina Becker repete a cena com Lágrimas Negras em Vermelho. Desnecessário.
Hoje fiz duas palestras sem power point e me senti absolutamente a vontade e bem só com uma colinha básica para não faltar nenhum assunto. Minha meta para os próximos 10 ou 15 anos é abandonar de vez as apresentações com slides. Elas costumam idiotizar o andamento da discussão.
O dia hoje foi longo e encontrei a cantareira tarde e sem filas. Se não fosse tão cansativo, preferia deixar pra pegar a barca das 20 todo dia. É tudo mais calmo, as moças são mais serenas e a Baía parece limpa.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Sal de frutas

Hoje seguindo a rigorosa dieta da maçã, fomos eu, Renatinha, Sandra Carreirinha e Ronaldo à Parmê. Passei a tarde conversando com as pizzas. Regorgitante igual um papel toalha molhado, apelei para o velho sal de frutas para ver se chegava em casa inteiro. Não há qualquer evidência científica de que o sal de frutas, assim chamado por seu rico conteúdo em sal e frutas, atue no alívio gástrico. A percepção é puramente intuitiva. E agora cá estou a escrever essas notas inúteis, porém recomendativas para pequenos obesos: fuja da Rosário na hora do almoço! É a falta do Longarino, que não permite esses excessos gordurosos na turma.
Acho que tomei muito café também. A verdade é que cheguei em casa apagado depois de um dia aceso, ao contrário de ontem.
Ontem vi o açucarado Idas e vindas do amor. É filme pra ver acompanhado, de preferência debaixo de cobertas. A solidão tem dessas contra-indicações: filmes açucarados, canções mela-cueca dos anos 70 e clássicos da poesia barroca. Fuja!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Segunda até que nem tanto

"Para apalpar as intimidades do Mundo é preciso saber:

a) que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) o modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) porque é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos
e) como pegar na voz de um peixe
etc
etc
etc"

Manoel de Barros

A fila da cantareira dava voltas e Wilson das Neves cantava no meu ouvido seu novo disco abençoado. Abençoados também cantavam, os discos novos do Strict Joy e de Victor Biglione. Victor faz com Marcos Nimrichter, uma versão perfeita do Trocando em miúdos.
Segunda farta de trabalhos, mas pude conduzi-los à minha maneira, o que nem sempre é possível. Nenhuma reunião pra interromper e resolvi metade da semana. E ainda deu tempo pra fazer dois recreios de 15 minutos e ler a literatura poética que meu amigo Nei me manda. Mais um dia desses e dá até pra pensar em férias mesmo.
Cheguei em casa, Cléo Pires me esperava. Nem acreditei! Abençoada Cléo! Belas curvas abençoadas.
Ainda dei de cara com comentários de Letícia, Renatinha, Silvia, o blog está bombando.
Na hora do almoço, procurei em vários sebos uma edição do Senhor dos Anéis pra Luisa. É um livro que só aparece em número absurdo nas prateleiras sebosas quando você não precisa dele. Está certo, Luisa merece um novo.
Fiquei triste a maior parte do dia, mas depois achei melhor computar o saldo das boas horas passadas com Leticia, Sandra e Ronaldo e anoiteci melhor.

domingo, 8 de agosto de 2010

Meu pai

A gente aprendeu a acordar e a tomar a benção bem cedinho, porque meu pai invariavelmente acordava muito cedo pro trabalho. Ainda hoje acorda. Os anos duros não lhe deram boa vida e o novo tempo acabou se revelando ainda mais duro.
A apereza dos anos não tirou-lhe a força. Sempre manteve uma rotina invejável de trabalho pesado. Ainda hoje é assim. Ainda hoje, o invejo.
Invejo o fato dele chegar em casa todo dia na hora do almoço e encontrar sempre a mesa posta, o arroz fresquinho, o acolhimento familiar. Almoço normalmente em restaurantes a quilo, minha familia é minha equipe de trabalho e o almoço acaba quase sempre sendo parte do trabalho.
Nunca consegui estabelecer nenhum ritmo pra minha vida. Não sei exatamente onde moro, nem sei pra onde vou, muito menos a que tempo. Sempre essa coisa anárquica de querer estar em todos e em nenhum lugar ao mesmo tempo. Mas meu pai esteve sempre ali.
Está ali hoje vendo seu faroeste noturno. E que ninguém lhe aborreça na hora do faroeste! Ainda fala com saudade dos velhos cantores que amava. Do luto que passou quando Francisco Alves morreu.
Meu pai nunca fez concessões musicais. Cresceu ouvindo o dó de peito. Chico Alves, Carlos Galhardo, Nelson Gonçaves, Silvio Caldas eram a rádio lá de casa. Aprendi a gostar deles e das raízes da nossa música pelo discos de 78 rpm do meu pai. Quebrei alguns. Fiquei de castigo muitas vezes. Adorava fuçar sua discoteca e sua eletrola telefunken. Espero que seu coração musical não silencie nunca.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Recordações de um velho flipeiro

E então, como faço todo ano há sete anos, pela segunda vez com as meninas e dessa vez com um dia de atraso, cheguei ontem a Paraty para a FLIP.
Só não estive aqui em 2003, na primeira. Em 2003 eu ainda estava tentando sobreviver. Uma parte amputada de mim no fatídico ano de 2002 ainda teimava em supurar, me perdi de mim. Em 2003, não fui a nada.
Portanto minha primeira FLIP foi a segunda. Vim com Letícia e ficamos aqui mesmo na Pousada das Acácias, na Estrada Paraty-Cunha. Acho que foi a melhor. Pra nós, foi a FLIP da Alice Ruiz, a de Sérgio Santanna, a de José Miguel Wisnick. Foi a FLIP do Casarão do Cunha, onde fizemos uma Oficina de Haicai com Alice Ruiz. De manhã, ficávamos na rede do chalé lendo um para o outro, os contos do Vôo da Madrugada. Éramos felizes para nós e isso já era suficiente.
Em 2005, voltei com Leticia e ficamos numa Pousada mais próxima a Paraty. Ainda existia o Casarão do Cunha e fomos ver Hermínio Belo e Paulo César Pinheiro. 2005 foi também a FLIP de Fabiana Cozza e de Marcelino Freire. E Amós Oz. Foi a Flip que descobrimos que Maria Martha morava em Paraty (foi Fabiana que contou). Foi a primeira vez que fomos ao Margarida Café ver Maria Martha. Foi quando nos apaixonamos por ela.
Em 2006, vieram conosco, Mário e Marila. Foi a FLIP da Maria Valéria Resende. Tínhamos acabado de ler O vôo da guará vermelha e queríamos conhecer de perto a autora. Ela nos apresentou a uma leva de escritores pernambucanos. Foi quando começamos a frequentar o Che Bar. Fomos ver Fabiana no Che Bar.2007 foi o meu ano solitário. Nunca gostei de andar sozinho, mas nesse ano superei o desgosto. Fui ao Festival de Jazz de Ouro Preto e à FLIP. Foi o ano que conheci Camila. Literariamente, foi a mais intensa. Fiquei na Pousada do Cafu, ao lado da Praça da Matriz. Foi a FLIP do Chacal e seus poemas americanos. E de Augusto Boal. O homenageado era Nelson Rodrigues e Boal participou de uma mesa inesquecível, respondendo a uma crônica antiga de Nelson. Dois textos para ficar na história da FLIP. Também foi a FLIP de Jim Dodge e sua Fup. O Che Bar estourava de noite. Vi Marina de la Riva, Thaís Gulin, bebi todas as bohemias pretas na noites ácidas do Che Bar.
Em 2008, voltei com Letícia novamente na Pousada do Cafu. Já não estávamos juntos, era só a boa companhia de sempre. Maria Martha já era uma velha amiga. Já chegávamos e ela já sabia que mudaria seu repertório de sucessos indefectiveis e teria que tocar Vanzolini e Gudin pra nós.
Ano passado, vim pela primeira vez com Laura e Luisa. Voltei à Pousada das Acácias. Foi uma festa ver as meninas encontrando esse ambiente familiar e literário de Paraty dessa época. Foi a FLIP do Manoel de Barros e de Antônio Lobo Antunes. Fomos ver a pré-estréia de Só 10% é mentira. Foi a FLIP de Domingos de Oliveira e Carlito Azevedo.E então, aqui estou de novo. Na esperança de que outras histórias me acolham bem.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Saudade da vida

"Não tenho medo da morte
O que eu tenho é saudade da vida."

Vinícius de Moraes.

Finalmente meu Ipod resolveu fazer uma sequência perfeita depois de algum tempo titubeando. Pra começar, apostei pouco nesse Banguê, de Ilana Volcov e me dei mal: é um discaço! A começar pela belíssima gravação de Encontro de Paulinho da Viola. Ilana faz com maestria o que Fabiana Cozza já tinha feito no Samba é meu dom: grava o samba com um acordeon dando voltas em torno do arranjo. Um achado! Já conhecia vagamente a cantora do disco do Gudin e do Barbatuques, agora gamei de vez.
O disco de Roberta Sá com o Trio Madeira Brasil cantando Roque Ferreira já veio com a promessa de disco do ano e não compromete: tudo feito com muito bom gosto e bem escolhido. Só pode ser doente do pé aquele que não gostar desses sambas de roda, xulas, maxixes, maracatus e cirandas.
O lado B de Dominguinhos e Yamandu Costa é ainda melhor que o lado A. E aqui sim, uma Felicidade de fazer Lupicínio ressuscitar e sair dançando de alegria.
Pato Fu (Música de brinquedo), Mariene de Castro (Santo de Casa) e Davi Amarante (back2basics) completam minha seleção atual com ótimos discos.
Meu Ipod está muito bem. Eu, nem tanto. Mas quando a música entra macia nos ouvidos, já é alguma coisa.
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Renatinha me indicou esse inglês A invenção da mentira. Um dos melhores que vi esse ano, com Rick Gervais em mais uma atuação de primeira grandeza.

domingo, 1 de agosto de 2010

Felicidade


Amanheci como sempre: olhando as paredes e me perguntado o que vai ser desse domingo. Procurei um filme nas caixas e achei que era bom dar uma guinada na mesmice cinematográfica que vem me acompanhando: peguei Felicidade de Todd Solondz. Nada poderia ter realçado mais ainda meu pessimismo. Solondz faz um filme corajoso e realista, uma espécie de Beleza Americana apodrecido. A comovente e avassaladora destruição do sonho americano. Atuações impecáveis, mas vale destacar o pai da família interpretado por Ben Gazarra, que consegue dar luz a um papel pequeno, um sujeito que chega num ponto da vida e simplesmente desiste. Belo filme!
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Não é comum gravadoras brasileiras se interessarem por discos de tango, exceto uma ou outra coletânea caça níqueis de Gardel ou Piazzolla. Achei portanto louvável que a Biscoito Fino começasse a investir. Dois discos de tangos lançados pela gravadora recentemente estão na agulha do shuffle: Cristian Zarate Sexteto (Tango Evolucion) e Marcelo Costas (A Música de Astor Piazzolla). São bons discos mas não trazem nada de novo que os tornem encantadores. Não é a mesma emoção que senti quando ouvi o Mucha Mierda da Orquestra Fernandes Fierro ou o disco que os irmãos Assad fizeram com temas de Piazzolla. Mas já é um começo.

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...