sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Poemínimos II

Duracell

Beatriz tem uma bateria interna.
De vez em quando ela liga.
E não para de rodopiar o resto do dia.

Telefone

Cheguei em casa.
O coração cheio de vodca.
O pé cheio de dor.
Esqueci seu telefone.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Poemínimos

Profiterolis

O lanche da TAM tinha profiterolis.
Não tinha sorvete de creme.
Nem tinha chantili.
Mas tinha profiterolis.
E eu reclamando da vida.
E das companhias aéreas.

Um dia de trabalho

Quatro horas entre
a Nilo Peçanha e a Alameda Santos

Seis horas trabalha trabalha
responde responde
amassa responde.

Quatro horas entre
a Alameda Santos e a Nilo Peçanha.
Ai de mim!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Confuso

Confesso que fiquei confuso. Não dividido, mas confuso.
Explico: 1) venho de pai e irmãos vascainos, embora sempre fosse torcedor do Fluminense; 2) Felipe, Diego Souza e até Dedé já vestiram a camisa tricolor, sem contar o técnico Ricardo Gomes, que fez história no time; 3) depois que o Coríntians eliminou as possibilidades do Fluminense, a coisa ficou ainda mais complicada: era a continuidade de um time carioca na disputa do título!
Verdade é que esse time do Vasco é o mais tricolor dos times que o Vasco já teve.
Fiquei confuso. Mas em momento algum, dividido!
O resultado de ontem foi um castigo para as trapalhadas da nova diretoria do Fluminense ao longo do ano. Ficamos sem técnico por uns 6 meses (3 para Abel chegar e mais 3 para se adaptar).
O time é o menos culpado. Afora os apagões contra o Bahia, o Atlético MG e o América MG, foi um time bravo. No final, até que ficamos no lucro. Já tinha comentado com Chicó (e aqui) que minha espectativa era apenas fugir do rebaixamento. Então, ficamos no lucro.
É um bom time, talvez falte um ou dois zagueiros, mas bem trabalhado, ainda poderá dar alguma alegria.
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Viajei de ônibus pra Miracema na sexta. Na classe executiva da 1001. A classe executiva da 1001 possui um lanche muito melhor do que o da gol e melhor do que o da TAM: snaks bauducco, polenguinho, suco de uva e outros itens que já não lembro, mas que podem ser considerados iguarias perto do lanche das companhias aéreas. De todo jeito, não fosse o tempo de viagem (quase 6 horas), dava pra continuar viajando de 1001 ad eternum.
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Fabiana Cozza está lançando um disco novo. Mais contida, sob a batuta carioca do Paulão Sete Cordas, é mais um ótimo disco de samba que só veio pra atrapalhar as escolhas dos melhores do ano.


domingo, 27 de novembro de 2011

A velha história de amor que sempre acaba bem


"Foi o destino quem quis
Dar-te ares de duquesa
Dois olhinhos de turquesa
E nome de imperatriz.

Olhar que voa cantando
Um coração quando passa
Dentro das veias vibrando
Com sangue da velha raça

Pra explicar-te, a frase
cai
Sem que a razão acompanhe
Se o fino encanto da mãe
Se o claro espírito do pai

Mas pensando em tua graça

Que o alto céu aprontou
Eu sei que nela perpassa
A velha verve do avô

Talvez o tempo decida

Num belo dia que verei
Tu ires fazer a vida
Com quem tem nome de rei"

Câmara Cascudo, Maria Luiza

Desde que eu sonhava que Maria ia acontecer um dia na minha vida, Luisa já estava escrita. Assim se passaram muitos anos, além dos 16 que ela completa hoje. Existe desde sempre. Na minha mais remota lembrança boa, no meu projeto de vida mais valioso.
Não digo que seja fácil, porque Luisa não é fácil. Mas de uns tempos pra cá, instaurou-se uma cumplicidade de olhos entre pai e filha, uma profusão de gestos, uma delicadeza de ninguém perceber, só nós, que seria até deselegante dizer que é difícil.
Sei como é dura a vida e como são ralos os momentos felizes, mas Luisa parece querer desmitificar meus abismos o tempo todo. Com ela, não há contra tempo.
Quando vejo um filme ou ouço uma canção que me toca, penso logo em como seria interessante ouvi-la ou vê-la pelos olhos de Luisa.
Houve um tempo em que acordar era um pesadelo, e pensar que Luisa existia, tornava o dia mais leve. Estar aqui por ela, já é um grande acontecimento.
Entre um poema do Bandeira, um texto do Braga ou uma canção da Rita Lee, Luisa brinca de me encantar a vida toda com seu jeito leve de viver.

domingo, 20 de novembro de 2011

Saudações tricolores

Falta ao Palhaço um narrador. Talvez um cordelista, um Suassuna, falta alguém que dê liga. De resto, é um ótimo filme, com atuações memoráveis de Paulo José e Selton Melo e uma participação perfeita de Moacyr Franco.
Apesar da bela companhia (Laura), o que já valeria o bom filme, o Cinemark sempre faz questão de estressar o pessoal da fila, com discussões intermináveis na nossa frente, que quase prejudicam o início da sessão. E aquele cheiro rançoso de manteiga de pipoca nublando a projeção.
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E um Fluminense arrasador em Santa Catarina coroou esse belo fim de semana solitário, reflexivo e sonolento. Está muito bem.

sábado, 19 de novembro de 2011

Discos e etc

"Eurico Alves, poeta baiano,
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant’Ana.

Sou poeta da cidade,
Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar o
[gás carbônico das salas de cinema.

Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata.
Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.

Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores
[das madrugadas

Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça."

Manuel Bandeira, Escusa.

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Três pastoras da Lapa estão lançando discos: Elisa Addor, Ana Paula da Silva e Roberta Nistra. Roberta Nistra é o que mais se aproxima dos Oguns e dos Malês, talvez por isso mesmo, o mais fácil de gostar dos três. Participações de Edu Krieger e Itiberê Zwag valorizam o canto da moça.
Pé de crioula, da catarinense Ana Paula da Silva é o mais universal. Os arranjos fáceis de Cláudio Jorge transportam o disco para a Lapa, com destaque para a regravação de Me alucina, de Candeia.
Finalmente, Elisa Addor e seu Novos tempos, que me foi gentilmente cedido por Marila, é mais um disco difícil de achar e bom de ouvir (gravadora Bolacha Discos??). Já aqui, também pilotada por Krieger, Elisa parece querer aproximar a Lapa dos Novos Baianos.
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Ainda não consegui gostar do novo de Lô Borges, Horizonte Vertical, mas prometo que vou dar mais uma chance ao disco. Parece mais uma tentativa de acender a chama do Clube de Esquina, tem um Mantra Bituca insuportável e um esforço para parecer moderno, com Fernanda Takai e Frejat.
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Também achei desnecessárias as intermináveis regravações de Jards Macalé em Jards, mas o disco tem seus encantos. O mais bonito é Mulheres, de Macalé e Zé Ramalho, que aqui ganhou uma gravação decente. E Revendo amigos é sempre bom de ouvir. De resto, prefira as originais.
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E o que dizer do novo disco brega de Marisa Monte, O que você quer saber de verdade? Eu devo ter o mesmo fraco pela canção brega que ela, porque gostei do disco. Mas Marisa parece ter se esquecido da excelência em Cor de rosa e carvão. Valeu muito o Lencinho Querido de Dalva, com o Café dos Maestros.
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Vi dois filmes meio assustadores, triiiiistes de doer: O garoto da bicicleta e Beautiful Boy. Ambos são histórias de meninos e perdas, e só o segundo trás esperança de dias melhores.
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Exausto, engatei um sono de muitas horas essa tarde, como há muito não engatava. Algumas horas de sono para ver se o pé deixava de latejar, se o estômago contorcia menos e a vida continuava. Desculpe, Bia, o máximo que aguento é dar uma olhada no jogo do Vasco e dormir de novo. Mas tudo de bom pra você assim mesmo!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Que nem a gente


Favelado não é tudo traficante
Milionário não é tudo prepotente
Maltrapilho não é tudo meliante
Elegante não é, necessariamente,
Tudo competente
Ianque não é tudo imperialista
Paulista não nasceu tudo na mooca
Sambista não é tudo carioca
Artista não é tudo comunista
Maconheiro e indecente
Todo mundo é meio assim que nem a gente:
Tudo igual mas muito diferente

Muçulmano não é tudo terrorista
Imigrante não é tudo delinqüente
Deputado não é tudo oportunista
Retirante não é, necessariamente,
Tudo indigente
Baiano não é tudo irreverente
Mineiro não é tudo come-quieto
Batuque não é tudo o som do gueto
Barbudo não é tudo comunista
Militante ou presidente
Todo mundo é meio assim que nem a gente:
Tudo igual mas muito diferente

Celso Viáfora, Que nem a gente


Fui tomado de surpresa dessas que só o cinema e a música podem trazer, e aconteceu no meio de bons e maus momentos que tive nesse feriado de terça, no finalzinho dele, para abençoar esse dia torto de viagem e cansaço: esse filme francês "Os nomes do amor" é, como há muito não tem sido, desses filmes que fazem levitar, que desmontam a gente das poltronas dos cinemas. Desses em que a gente descobre que a vida só vale o pouco que vivemos, o minguado da nossa existência. Logo me remeteu à canção de Celso Viáfora, que ano passado produziu-me sensações semelhantes quando fora descoberta.

Ontem só conseguira escrever isso:

Ledo engano: Eu separo o segundo caderno de sábado e domingo e guardo. Miracema me espera. Separo as Vejas não lidas, as Bravos, as Roling Stones, pensando que finalmente chegará o dia de lê las. Chego aqui e o que sei fazer é não mais que uma extensão do que faço lá: abro e-mails de vez em quando, respondo, vejo filmes, reabro, respondo de novo. Rezo por um dia branco, em que eu possa finalmente ler a coluna do Wisnik sem largar no meio, rir dos críticos da revista, reclamar do excesso de propagandas.

Mas agora, esse filme me fez ver as coisas de um jeito diferente. Devolveu-me alguma esperança inútil, mas é certo que devolveu. Os momentos compartilhados com meus filhos cada vez mais estreitos, as canções que saíram ontem daquele sarau abstêmio lá em casa, a devoção que alguns amigos de casa e do trabalho dividem comigo, o ouvido atento ao som do carro pra viagem passar mais rápido, a compreensão, a fé em alguma pouca humanidade, mas que seja. Valeu!

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...