domingo, 10 de setembro de 2017

Crônicas de Motel 4





Planejo uma quadragésima canção de afeto, sem mesmo ter terminado a trigésima nona , que ficou parada num tempo sem canções de afeto. Tríades de Bom dia e Feriado na roça (conforme já comentado), e já temos aí umas trinta para compor a quarenta. Voltei a ouvir música no aleatório, o que tem me trazido agradáveis surpresas. Minha biblioteca chega a quase 40.000 canções, inimagináveis para mim mesmo, que pretendia que o meu Ipod Classic de 160 gigas encerrasse minha carreira de ouvinte.
Há coisas que nem a apple music nem a spotify fazem idéia da existência. Um disco que dois queridos amigos me trouxeram quando foram à Casa dos Carneiros no Recôncavo Baiano,  o único do Fernando Lona, o segundo da Clara Sandroni e por aí vai.
Nesse meio tempo voltei a escrever essas bobagens de dois ou três leitores, que ficam melhores expostas aqui do que em grupos de whatsapp ou no facebook. Continuo escrevendo para mim mesmo, não são poucas as vezes que me pego lendo minhas próprias bobagens.
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Mas esse fim de semana foi tudo muito atípico com essa visita familiar a São Paulo. Estou acostumado à São Paulo dos fast foods, de terminar o dia exausto de trabalho, de não ter qualquer perspectiva que não seja uma boa noite de sono.
No passado experimentei com Luisa. Ela veio e ficou dois dias aqui comigo, Mas foram só dois dias, e ainda assim foi muito bom. Esse foi um feriado inteiro.
Não se descansa com uma criança de quatro e outra de dez. Tudo que elas querem é correr, brincar, ir aos lugares que a gente já não vai há muito ou nuca foi.
Por exemplo o zoológico de São Paulo desse dromedário sorridente. Depois de uma fila de quase três horas num sete de setembro a 35 graus, a careca triscando, adentramos o zoo. Há mais humanidade na relação com os animais ali do que aqueles que fomos em Buenos Aires. O safari é de van mesmo, com trânsito engarrafado, pois permitem a entrada de carros de passeio. Tudo parece meio improvisado, mas se leva bem.
E assim foi todo o fim de semana, entre shoppings, brinquedos, algazarras e o joelho direito moído. Vida em comum, contada nos afetos do Lucas e da Manu.
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Depois de uma chegada tranquila cheguei a tempo de almoçar na sogra e retornar para casa tenso para ver o Fluminense ceder o empate para o Vitória no último minuto de um jogo ruim. Bem que eu mereceria um desfecho mais agradável...

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Crônicas de Motel 3

Pro Ney

Lembro da Tia Militza falando para minha mãe que o Ney era o mais bonito dos irmãos e da raiva que eu fiquei de estar ouvindo aquilo. E era mesmo. Tinha sido bem planejado, nascera em dezembro e era quatro anos mais novo do que eu. 
Passamos a infância contabilizando nossas diferenças. Eu era de casa, já gostava imenso de letra e música, lia compulsivamente as revistas em quadrinho e os outros dois, principalmente o Ney, eram da roça, dos cães, dos cavalos e dos açudes. 
Herdamos dos nossos pais a insônia, de tal modo que acordávamos quase sempre de madrugada e cada um escolhia o que fazer antes do amanhecer. Eu geralmente estudava para ficar livre dos estudos a tarde. Os outros dois acompanhavam meu avô nas caçadas de espingarda e cachorro vira lata, e quase sempre vinha uma saracura ou uma piaçoca.
O Ney herdou da minha mãe, a generosidade. Até o final da vida, quis ajudar. Ajudou com pouco, com muito, com quanto teve. Diferente de mim, que sempre me assusto quando me pedem dinheiro na rua, e só dou gorjeta para o trio de sanfona, zabumba e baixo que toca de vez em quando na Paulista.
Isso tudo me vem à cabeça porque não é incomum, mesmo depois de algum tempo, voltarem as recordações dos difíceis últimos dias do Ney. Eu estava em São Paulo quando soube de sua morte. Corri para o Rio e daí para Pádua e depois Miracema. Corri tarde demais. Corri quando já não adiantava nada. Foi um estrago pior do que a morte dos meus pais. 
Naqueles tempos, havíamos superado alguns desagravos e tentávamos recompor a família. E o Ney voltara a ser aquele menino e a cuidar da terra, do jeito que meu pai possivelmente quereria. A morte o pegou quando ele começava a recuperar a estima. 
Que coisa! Estava aqui agora e em poucos minutos não estava mais. E que falta faz aquele menino!


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Crönicas de Motel 2

Para Luis Melodia


O tudo que se tem não representa nada Eu era moleque vindo de Miracema, fui ver Melodia no Teatro da UFF. O show, marcado para as 21, começou às 24. Oitenta por cento da plateia e os músicos já tinham ido embora. Ficaram Melodia e Renato Piau. Ele chegou com uma camisa do Vasco, pediu desculpas pelo atraso e falou que iria improvisar. Foi um alumbramento de mais de duas horas de música, de sair extasiado dali. Vi muitas outras vezes, principalmente no Rival, mas nunca como aquela noite. Começou com Estácio, eu e você, os dois violões em uníssono, choravam serenamente. Nunca se esquece. Nunca morre.

Quem é cover de quem - fiquei em dúvida se Melodia chegou a conhecer a bela homenagem prestada por Itamar Assumpção no disco das Orquídeas. Pra ser sincero, cheguei a ficar com raiva de Melodia não ter se manifestado acerca da canção. Terá conhecido? Agora os dois já se foram, ficou a música. É o que fica.

Já que o tempo fez-te a graça de visitares o norte, leva notícias de mim - Por outro lado, nunca assisti a um show de Belchior. A voz ardida do cantor deve ter me levado para longe de suas apresentações, mas tenho e ouvi (muito) todos os discos. Tem um em especial, que se chama Bahiuno, que talvez só eu tenha, adoro. É tão bom quanto Paralelas ou Alucinação, mas ninguém ouviu. Eu, sim, muito. 

Olha a onça aí - Fui com o Lucas assistir o show do Riachão. O menino não para de cantar Valdinéia. Riachão é uma referência do samba da Bahia, mas o show parecia coisa do Adoniran, talvez pelo grupo paulista que acompanhava Aos 95, ainda dá conta do recado. Um luxo.

Há pessoas que você vê e diz: só no vaso sanitário aquele ali é feliz (Abel Silva) - auto explicativo.

Vem aí um disco de Maria João cantando Aldir Blanc. Não há nada que eu possa esperar com maior ansiedade. Esse e a inauguração de uma Toca da Traira perto da minha casa.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Crônicas de Motel

Para Sam Shepard


Aguardando a família em São Paulo - depois de quase seis anos na ponte aérea, consigo pela primeira vez, inverter a ordem das chegadas: dessa vez são eles que chegam. Isso poderia ser uma grande bobagem colocado assim a esmo, mas para mim tem uma importância de pedra. Essa coisa de subverter a ordem deixou meu velho coração satisfeito. Já posso imaginar o Lucas caminhando comigo pela Paulista ao entardecer. Espero que venham com essa alma leve que está permeando esse feriado.

Jogava o Flamengo, eu queria escutar - já me acostumei às segundas e às aulas de violão. Estou certo que meu professor entende que é só aquilo ali, que não haverá nada mais do que aquele pequeno momento íntimo, em que ouvimos e tocamos canções que são caras para mim e inéditas para ele. Algumas me pegaram cansado demais, mas ele percebe e alivia. É o único momento varanda da minha casa. Varanda que pensávamos ser um ótimo lugar para conversar e tomar um vinho num final de sexta.

O fim da delicadeza - no dia do meu aniversário, torci que corresse o mais breve possível e que fosse uma data normal em que eu pudesse jantar com a família com todos à mesa. Impossível estarem todos, mas foi tocante a decisão da Manu de não ir para o pai e ficar conosco para jantar. Nesses tempos difíceis, foi uma das coisas mais delicadas que me aconteceram em 31 de agosto.

Três canções - Mônica Salmos gravou o disco do ano - Caipira - mas me chamaram a atenção três canções caipiras de autores não caipiras que já deixaram muitas lágrimas no meu olho seco. Primeiro foi o Baile Perfumado do Roque Ferreira. É certamente a canção mais bonita que ouvi esse ano. Roque está com muito crédito. Seus dois discos não saem do Itreco. E essa agora. A versão de Mônica para Feriado na roça de Cartola compete deliciosamente com a do autor e a de Cida Moreira. Não se sabe de qual se gosta mais. Na próxima canção de afeto, vou botar as três emparelhadas. E Bom dia, de Nana e Gil, que já tinha gostado com Gil e Milton e também com Cida. Outro caso de emparelhar e ouvir muitas vezes.

As caravanas -um novo Chico é sempre um novo Chico e deve se esperar esses lapsos de genialidade do autor, como em Tua cantiga, dele com Peranzetta. Lembra muito das composições de Chico com Jobim. E esses versos divergentes, que incomodam do mesmo jeito que encantam. Só reclamo da preguiça. Um disco com nove faixas,  sendo duas regravações é quase um compacto duplo. Mas ainda é um Chico.
É outro caso de polícia muito sério foi a última temporada de game of thrones: 7 episódios. Muito pouco para quem está órfão de séries nesses últimos tempos.

Pirão de peixe - saiu uma edição especial do clássico Pirão de peixe com pimenta, do Sá e Guarabyra. Corra antes que acabe!

domingo, 2 de julho de 2017

Ildo Lobo


Si bô krem 'm kreb 

Si bô ka krem mesmo assim 
'M kreb si mé 
Bô é kê nha estrela guia 
Cretcheu d'nha pensar 
Bô é kê nha razão d'vivê

Ildo Lobo, Incondicional 



Raríssima manhã fria de junho no Largo da Segunda Feira, Sol opaco, abro o computador para trabalhar e saco da biblioteca as mornas e as coladeras de Ildo Lobo. Dali pra frente tudo deu certo. Tento (e juro que consigo) entender o português misturado do caboverdeano e parece que a língua fica mesmo mais bonita. Aprendo rápido que o motor da vida é o amor. Concordo.
Não há qualquer preconceito nas letras, ninguém reclama de discriminação racial, é tudo muito romântico como um Caymmi ou um Jorge de Lima.
Conheci Ildo Lobo logo depois de Cesarea e Bonga. Ainda era tempo em que se baixava gratuita e legalmente os discos e Ildo só tinha três. O primeiro que veio e ainda o que mais gosto foi o Incondicional. Lançado em 2004, mesmo ano da sua morte, deve ter chegado pra mim uns cinco anos depois. Grudou no ouvido.A voz tinha um que de Altemar Dutra ou seria apenas impressão do meu ouvido sujo. De todo modo, Nós amizade pode ser perfeitamente categorizada como bolero. Pelo menos está na minha antologia de boleros, 
junto com Chavela e Los Panchos.
Falei de Ildo com Alberto Rui no Arlequim na época, e ele se lembrou dos Tubarões, primeiro conjunto de Ildo, que ainda não conheci.Que bom que ainda existe para ser explorado!
Quando fui a Portugal, comprei os discos e trouxe para ter uma sonoridade melhor das canções. Foram essas que ouvi hoje.
Há muitas variantes numa manhã fria de sábado em junho no Largo, mas hoje foi Ildo que abençoou e fez a minha luminosa.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Disco

"Às vezes por melhor que a vida esteja
A gente, sem explicação, se isola.
Coloca sobre a mesa uma cerveja
E um disco de tristeza na vitrola.

Às vezes lembra alguém, às vezes nada.
Não sei que sentimento que provoca
É mais uma cerveja uma tragada
Enquanto na vitrola o disco toca.

É vago tudo que nos vem à mente
Estranha sensação que há nessa hora
Mas lá no coração mexe com a gente

Essa agonia custa a ir embora
Enquanto o disco gira lentamente
Sem nem saber porque a gente chora."



Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro



É só mudar o tempo e lá vem o Dori de novo com outra pequena obra prima. Dessa vez é Voz de mágoa, quase todo feito de composições de Dori e Paulo Cesar Pinheiro, Pauso duas vezes o trabalho pesado para ouvir "Disco". Parece um soneto musicado. Quem terá nascido primeiro nessa combinação de música e poesia tão delicada, que parece ter nascido incontestavelmente uma para outra? Parece a história da minha vida. Tenho essa sensação toda vez que ouço ou leio o Poema Sujo. Que história Gullar estará contando, senão a de nós todos?
Descubro sem querer na mesa do Arlequim, esse Concerto da Fronteira de Yamandu e Leandro Carvalho. É dele que vem a guarânia Mburicao, de José Assunção Flores. Pelo início, penso ser um prelúdio, uma toada, mas logo vem aquele violão ponteando a canção paraguaia, enchendo a canção de uma bolerice sutil. Muito bonito de se ouvir.
Meus olhos cansados e líquidos divisam que é hora de voltar a Buenos Aires. Sufocar, pero sufocar.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Certas canções que ouço (2)

"Acontece que me canso de ser homem.
Acontece que entro nas alfaiatarias, nos cinemas,
flácido, impenetrável, como um cisne de feltro
que navega numa água de origem e de cinza.

O odor das barbearias faz-me chorar aos gritos.
Quero só um descanso de pedras ou de lã,
quero não ver estabelecimentos nem jardins,
nem mercadorias, lunetas, ascensores.

Acontece que me canso de meus pés e minhas unhas,
de meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.

Todavia seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.

Não quero continuar a ser raiz nas trevas,
vacilante, estendido, a tiritar de sono,
descendo, nas cercas molhadas da terra,
absorvendo e pensando, a comer dia após dia.

Não quero para mim tantas desgraças.
Não quero fazer mais de raiz e de túmulo,
de subterrâneo só, de adega com defuntos,
inteiriçados, a morrer de angústia.

Por isso a segunda-feira arde como petróleo
quando me vê chegar com cara de prisão,
e uiva no seu decurso qual uma roda ferida,
e dá passos de sangue ardente rumo à noite.

E empurra-me para certos recantos, para certas casas húmidas,
para hospitais onde os ossos saem pela janela,
para certas sapatarias com odor a vinagre,
para ruas medonhas como fendas.

Há pássaros cor de enxofre e horríveis intestinos
pendurados nas portas das casas que odeio,
há dentaduras esquecidas numa cafeteira,
há espelhos
que deveriam ter chorado de vergonha e pavor,
há guarda-chuvas em toda a parte, e venenos, e umbigos.


Passeio calmamente, com olhos, com sapatos, 
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas".

Neruda, Walking around

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...