quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Alumbramento

"Mais sensato adágio não pode haver do que aquele que adverte que não se diga que dessa água não se beberá, pois ele próprio, já com a junta dos dedos doloridas, mal podia acreditar que tinha feito o pedido de visita e que ia dever favor àquele trampolineiro mal disfarçado."
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Meus dois ou três leitores já devem ter se apercebido de que já comecei a ler O albatroz azul, João Ubaldo.Chegaram, antes de ontem Ubaldo, Saramago e Galera. Ubaldo pede urgência em suas leituras. Eu obedeço.
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Ontem tive um alumbramento que tinha passado desapercebido. Nana Caymmi soprou nos meus ouvidos Violão, o clássico de Sueli Costa e Paulo César Pinheiro, já (bem) gravado por Fátima Guedes. Com Nana, a música passa a ser leveza, cristal. Quando ela vira aquele "não era um tronco qualquer", dá uma sensação de tudo tem um sentido na vida.
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Hoje não estou para cafés. Não me venham com conversa mole. Já falei dos meus amores. Necessito viver um período de árvore (como Manoel). Hoje só a solidão, o abismo e o desespero me fazem companhia.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Destino Bocaiuva

"Não, eu não podia me enganar assim
Com uma criança qualquer
Que veio ao mundo bem depois de mim
Eu não reclamo o que ela fez
Só condeno a mim mesmo
Por ter me enganado outra vez"

Adriano Serafim


Clementina costuma acender o candieiro quando canta. Tem um texto do Fernando Faro para seu disco de duetos, que você lê e ouve direitinho o bater dos tambores para seu canto. Ingenuidade foi regravada por metade da MPB recentemente.
Fiz as pazes com meu Ipod e a primeira coisa que me veio hoje foi a interpretação de João Bosco para a canção do bissexto Adriano Serafim. João Bosco fez a melhor das regravações. Vai exercitando cada vez mais o seu lado Clementina, já explorado em Benguelê e outros cantos da nação nagô.
Depois vieram Buika e Chucho Valdez, outra idéia esplêndida, o novo do Chico Saraiva (com Adriana Ferriani), um frevo diabo de Siba, que fez a enfumaçada e calma Praça Araribóia parecer um salão de festa para um ouvido e o esplêndido Destino Bocaiuva, com Guinga e Paulo Sérgio Santos. Definitivamente, meu Ipod se regenerou.
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Acordei às cinco e pulei da cama para o computador para que os pensamentos ruins não me pegassem. Foi um fim de semana confuso em Miracema. Algumas centelhas de passado perseguiram-me até a lojinha de doces da Rua das Flores. Surtei até ficar com dó de mim. Mas já vou indo muito bem.
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Ando em paz com minhas filhas. Entendemo-nos por gestos, pequenos afetos recíprocos. Mas essa coisa de sair de noite para ensaio, boate e apresentação leva o resto dos meus cabelos. Ao mesmo tempo, nada é mais bonito do que vê-las florindo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A dignidade do suicídio

"Era uma vez uma cidade grande, onde instaurou-se a dignidade do suicídio. Clínicas especializadas distribuíam cápsulas transparentes que os candidatos tomavam para, depois de embalados, atingirem o passamento sonhado. As cápsulas chamavam-se "obliviantes" e nelas desapareciam os obliviados, a quem todos se referiam com reverência. Mas era preciso merecer a morte obliviosa, pois nem todos tinham o direito de morrer." (Ana Hatherly)

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Minha tia esteve na minha casa quinta-feira e estendeu o lençol da cama. Cheguei em casa e fui o menino de novo. A cama arrumada pela minha tia vem com um adicional de conforto e muitos anos de dedicação e apreço. É, por assim dizer, uma cama mais fofa do que a que eu mesmo arrumo, atropeladamente. Minha tia vem estendendo o lençol para a família há muitos anos. Tem sempre algo pra dar. Carinho, afeto, esperança, geladeira, ventilador de teto, cortina. Anda doente, mesmo assim nunca desiste.
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Meu Ipod está brigado comigo. Acho que fiz uma seleção inadequada. Jane Duboc e Vitor Biglione fazem uma Ella Fitzgerald apenas correta, Maciel Melo esqueceu o ótimo compositor e poeta das janelas e das retinas pra fazer discos mediocres, ainda não consegui gostar do ieieiê do Arnaldo Antunes e não entendo esse incenso todo para o Cidadão Instigado. Gosto quando ele me manda as milongas de Daniel Melingo ou Fred Hersh tocando Tom Jobim, mas isso tem vindo muito pouco.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Cenários

"A primeira coca-cola foi, me lembro bem agora,
Nas asas da Panair
A maior das maravilhas foi voando sobre o Mundo
Nas asas da Panair"

Meu primeiro vôo foi nos anos 80, acho que pela VASP, acho que pra Salvador. Não adianta, esqueci meu momento inesquecível e nem foi um latin lover.
Por isso mesmo, meu primeiro vôo pela Ocean Air fica aqui registrado para não esquecer nunca. Foi hoje, vindo de São Paulo.
Não foi a primeira vez que viajei num fokker. Não foi a primeira vez que trepidei num fokker. Brrrrrrrrr!!!!!!!!!!!!!!!!!
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O vôo serviu pra terminar de ler "O dia em que o rabino foi embora", Harry Kemelman. O livro inteiro é o cenário da história que é contada e concluida no último capítulo.
É mais ou menos assim que é a vida. O cenário de uma história que acaba nunca dando em nada.
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O que é, afinal, a vida? Não mais do que ter ótimos filhos, bons discos, trabalhar onde se gosta. E nunca dar em nada. Mais nada!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Cheiro de chuva

Estranho esse centro fechado, pouca gente circulando, a cantareira calma. O dia do comerciário levou o Cláudio da Escuta Som, o Maurício do Alfarábi, a Sílvia do Beringela e outros menos cotados para o descanso e deixou o velho centro vazio.
Estranhei, óbvio. Pareceu-me inadequado estar aqui só a trabalho. O dia todo foi muito lento, o trabalho não rendeu mais do que o usual. A empresa, em conformidade com a total incompletude do ambiente, resolveu dispensar os funcionários às 16 e 30.
Cheguei a pensar que pra mim talvez ficasse inviável trabalhar aqui sem esses complementos da hora do almoço.
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Outros fenômenos tornaram a segunda lenta: o início do horário de verão, quando se perde uma hora de sono, e o clima desigual da noite niteroiense: começa abafado, depois congela.
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No início da noite, uma chuva torrente e prematura veio como uma bênção. Fiquei na janela ouvindo aqueles pingos urgentes. Esse cheiro de chuva percorre minha vida inteira como um sentimento misturado de paixão e medo.

sábado, 17 de outubro de 2009

Ortega a perigo

Finalmente um sábado solitário no pardieiro. Pensei em sair pra assistir Bastardos Inglórios, mas preferi deixar pra amanhã. Ou depois de amanhã. "Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã". Hoje vai ser só da vagabundagem. Vou parar pra ver os e-mails do Ortega, meu fiel servidor de finas putarias. Ando atrasado com ele. Acho que o Ortega está se regenerando. Ultimamente, entre uma pelada e outra, manda-me mensagens indefectíveis de auto-ajuda. Não existe nada mais inútil do que uma mensagem de auto-ajuda. Principalmente aquelas em que o sujeito sugere que façam uma corrente e envie pelo menos para 10. Pena de morte para esses mensageiros!
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Danei a ajeitar discos e livros, tirar o pó das estantes, mudar as coisas de lugar pra ver se sobra algum espaço. Difícil.
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O bom fim de noite dessa última semana foi recheado de filmes não tão bons. Tenho dormido tarde. Comecei com Shrink, the doctor is out, ótimo, Kevin Spacey perfeito no papel de um psiquiatra suicida. Depois vi Os falsários, filme alemão que ganhou o Oscar de estrangeiro em 2008. Gostei também. Muito bom o desempenho do ator Karl Markovics. Bela idéia a escolha dos tangos para a trilha do filme. E daí Reféns do medo, um filme sobre serial killers dirigido por Dario Argento. Curioso foi ver Emmanuelle Seigner, a deusa de Lua de fel. Envelheceu, mas ainda dá um caldo! E finalmente, a comédia Maldita sorte, que no máximo deu pra passar o tempo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Pequeno caos de quinta

Já disse, detesto bancos, por isso mesmo mantenho uma única conta há muitos anos. De vez em quando, complica. Tipo cancelam seu cartão sem motivo, não lêem o código de barra da conta, não cospem folhas de cheque e por aí vai. Hoje travaram meu cartão. Com o banco em greve, a agência longe daqui, sem poder tirar dinheiro ou pagar conta, fiquei a ponto de sofrer do moral.
Meu estômago ferrado do almoço de ontem, arde e regurgita.
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Dias como esse me esgotam. Fiquei o dia por conta de um estudo diagnóstico. Uma coisa fascinante poder trabalhar nisso. Ao mesmo tempo, esgota. Somado ao banco e ao estômago rugindo, restou o surto.
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Surtei, é verdade. Rosecrilda viu. Não foi um surto como os de antes em que eu errava a estrada e dava cabeçadas no teto do carro, foi só um surtinho. Um acúmulo de dor, cansaço, sofrimento pela incompetência alheia, e o estômago revirado.
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Durante o surto, acho que devo mudar o Mundo. Ligo pra todas as pessoas que não têm nada com isso, mudo planos, empalideço. Custa um pouco, mas aprumo. Quando aprumo, tenho que desfazer tudo que refiz e voltar ao mesmo lugar de antes.
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A velhice, a terapia, os inibidores de recaptação da serotonina e a falta absoluta de esperança na humanidade aplacaram meus impulsos, mas ainda há aqueles dias.

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...