domingo, 30 de outubro de 2011

Socorro, eu não estou sentindo nada


ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo

ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo

Paulo Leminski, Arte do chá

De vez em quando, é bom ser salvo por Paulo Leminski e Alice Ruiz num tempo em que tudo deve ser absolutamente político e correto. Em outros tempos, Paulo e Alice conseguiam extrair da monotonia, algo de poético. Hoje, espetar o monótono é como sair do prumo e tem sempre um que se sente desconfortável com você.
Eu voltei de Fortaleza e o Fluminense chegou para aplicar uma convincente goleada de 2 a 1. Digo goleada porque foram inúmeras as oportunidades cara a cara desperdiçadas por Marquinho, Fred e Sóbis. E também porque nesse campeonato equilibrado, qualquer um a zero já é goleada. Essa vitória deveria ser dedicada à Luiz Mendes, o comentarista da palavra fácil. Em menino, já ouvia os comentários de Luiz Mendes e só descobri que ele era botafoguense quando li a notícia de sua morte. Hoje. não é preciso nenhuma perspicácia maior pra saber que os narradores e comentaristas do Sportv, salvo raras exceções, torcem descaradamente pelos times de São Paulo. Saudades do Luiz.
E ontem matei a noite assistindo a Um conto Chinês, mais uma pérola do cinema argentino com Ricardo Darin.
Estou em casa. Em paz comigo e com Laura. Com a coluna destrambelhada, a planta do pé exultando, mas em paz.

sábado, 29 de outubro de 2011

As lições de Silviano Santiago


Sonha o rico em sua riqueza,

que mais zelos lhe oferece;

sonha o pobre que padece

sua miséria e sua pobreza;

sonha o que inicia a destreza;

sonha o que afana e pretende;

sonha o que agrava e ofende;

e no mundo, em conclusão,

todos sonham o que são,

e que é assim ninguém entende.

Eu sonho que estou aqui

destes grilhões carregado

e sonhei que em estado

mais lisonjeiro me vi.

Que é a vida?: um frenesi.

Que é a vida?: uma ilusão,

uma sombra, uma ficção;

e o maior bem é bisonho,

que toda a vida é sonho,

e os sonhos, sonhos são.

Calderon de La barca

Estive com Silviano Santiago na FLIP de 2007. Tinha acabado de ler Em liberdade, ensaio em que o autor dá uma continuidade ficcional à Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. Estava encantado com a obra e fui para a fila de autógrafo. Silviano não só autografou, mas fez questão de comentar sobre o livro e posar para uma foto comigo. Depois me falou da importância da aproximação entre o escritor e seu leitor. Hoje no lançamento do meu livro aqui na Convençao, lembrei de Silviano.
Trouxemos 400 livros para o evento, que se evaporaram em menos de uma hora, mas ninguém ficou sem seu autógrafo. Lá pelos 200, com a mão doída, me sugeriram apenas entregar. Eu nem cogitei.
A Convenção terminou há pouco com show de Elba Ramalho. Como Fagner, com altos e baixos. Uma banda competente, porém do mesmo jeito, com essa mistura de instrumentos percussivos com elétricos, sanfona com teclado, guitarra com zabumba, dando à apresentação um tom pasteurizado e muitas vezes, tedioso. Curioso que Elba tenha se enveredado pelos sons elétricos, quando seus dois últimos melhores discos foram justamente aqueles repletos de instrumentação crua (Baioque de 97 e Leão do Norte de 96). Gostei dela ter cantado Tareco e Mariola de Petrúcio Amorim, fui lá nos velhos discos de Maciel e Flávio José.
Uma libação de camarão e lagosta no Coco Bambu ontem a noite, me deixou meio banzo, com o estômago aperreado durante o dia de hoje. Evitei o vinho e a virtude e vi o show de Elba careta. Foi bom assim mesmo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Essa saudade, o cigarro, a luz acesa


Quando Você for-se embora
Moça branca como a neve
Me leve, me leve

Se acaso você não possa
Me carregar pela mão
Menina branca de neve
Me leve no coração

Se no coração não possa por acaso me levar
Moça de sonho e de neve
Me leve no seu lembrar

E se aí também não possa
Por tanta coisa que leve
Já viva em seu pensamento
Moça branca como a neve
Me leve no esquecimento

Ferreira Gullar/Fagner

Aula espetáculo de Ariano Suassuna, show de Fagner no Coliseu, Fortaleza nunca esteve tão florida. Meus olhos secos agradecem.
Não contei aqui da última vez que lacrimejaram, no meio daquele fim de semana agourento, quando assisti, com dois anos de atraso, à Piaf. Foi Marillon Cotilard no Non, je ne regrette rien do final do filme que me afrouxou. Já tinha chorado com Bibi, chorei com Marillon.
Hoje quando Fagner puxou Asa Partida, chorei também. Já havia um esboço de lágrima na Cantiga pra não morrer (letra acima), Asa Partida me levou de vez.
O show foi uma coletânea de sucessos do artista, uns bons outros ruins. Fagner acertou em cantar Paralelas (Belchior), mas fez feio na pieguice Guerreiro Menino, de Gonzaguinha. A banda boa, os arranjos nem tanto. O saldo foi positivo.
A tarde foi encantada pela aula de Ariano na convenção (clicado acima por mim). Com sua voz enjoada e pigarreante, foi levando sua antologia de casos impagáveis. A platéia delirou. Oitenta e quatro anos e ainda guarda aquelas dezenas todas.
Fortaleza tem sido uma surpresa cada vez mais agradável nesses dias. Deus conserve!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Eu sou a nata do lixo, eu sou do luxo da aldeia, eu sou do Ceará


Estou em Fortaleza para a Convenção Nacional Unimed.
Há alguns anos atrás vim a Fortaleza e não tive uma boa impressão do lugar. A cidade estava suja, havia muita prostituição em torno ao Hotel e ao longo da beira mar.
Ano passado desconfiei, mas vim. Não sei se a companhia agradável de Sandra Carreirinha e Renata acabaram dando a impressão de que eram elas aqui e não a cidade que tinha melhorado, a verdade é que parecia mesmo mudada.
Dessa vez foi uma impressão definitiva. Sem as meninas, aterrizei do Aeroporto direto para o Restaurante Coco Bambu, onde se pode comer um camarão dos deuses e um risoto de limão idem. Tive a sorte de encontrar meus amigos e almoçar com eles.
Depois caminhei pela praia até o Hotel Comfort, um hotel que pega facilmente um double A no Lima score.
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Os ares de Fortaleza me fizeram bem, mas duas outras coisas contribuiram de forma decisiva.
Na viagem vim lendo o novo de Philip Roth, Nemesis e ouvindo a Poesia Musicada, de Dori Caymmi (só achei no Arlequim do Paço por 35 mangotes, mas valeu cada mangote!). Nada como um novo Roth para restaurar de novo aquele gosto pela palavra lida. E Dori musicando e cantando Paulo Cesar Pinheiro serviu para demonstrar que 3 horas de vôo podem não ser nada quando se tem boa companhia aos ouvidos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Más escolhas


Lars Von Trien exagerou na dose. É filme pra deixar o sujeito normal, deprimido, e o deprimido, abismado. Saí no final da primeira parte (Justine). Outro dia eu vejo o resto. O sábado já ia se perpetuando como previsto. Aí vieram Melancolia e o desastre do Fluminense no Engenhão. Fui dormir preocupado que ainda tinha o domingo pela frente.
Ainda no sábado, assisti ao denso Route Irish, de Ken Loach, outro filme cheio de precipícios. Faltava uma banda de gilete e um suco de maracujá.
No domingo, vi séries enlatadas e aqui vão algum alertas:
1) Terra Nova - não há nada mais maniqueísta na televisão atualmente do que esta série. Dura de aguentar.
2) The lying game - na entre safra das boas séries, acabei adotando essa. É triste acompanhar uma história de adolescentes riquinhos, cujos pais parecem ainda mais adolescentes. Muito caricata e previsível.
3) The good wife - a série passa pelos desgastes naturais de muitas temporadas (está na quarta), mas ainda dá um caldo. Não sei se vai conseguir chegar intacta até o final.
Pra completar o domingo, o casal de Nicolas (Cage e Kidman) em Reféns. Já vi coisa melhor de Joel Schumacher do que esse pretenso thriller.
Briguei com Laura, minha tendinite plantar voltou, tive pesadelos e por pouco não quebro o tubo da televisão de raiva. Ainda bem que a urucubaca já foi.

sábado, 22 de outubro de 2011

Porque hoje é sábado


En el bulevar de los sueños rotos
vive una dama de poncho rojo,
pelo de plata y carne morena.
Mestiza ardiente de lengua libre,
gata valiente de piel de tigre
con voz de rayo de luna llena.

Por el bulevar de los sueños rotos
pasan de largo los terremotos
y hay un tequila por cada duda.
Cuando Agustín se sienta al piano
Diego Rivera, lápiz en mano,
dibuja a Frida Kahlo desnuda.

Se escapó de cárcel de amor,
de un delirio de alcohol,
de mil noches en vela.
Se dejó el corazón en Madrid
¡quien supiera reír
como llora Chavela!

Por el bulevar de los sueños rotos
desconsolados van los devotos
de San Antonio pidiendo besos
Ponme la mano aquí Macorina
rezan tus fieles por las cantinas,
Paloma Negra de los excesos.

Por el bulevar de los sueños rotos
moja una lágrima antiguas fotos
y una canción se burla del miedo.
Las amarguras no son amargas
cuando las canta Chavela Vargas
y las escribe un tal José Alfredo.

Joaquin Sabina

1) Que mal há em se juntar bons músicos no estúdio, incluindo Mário Gil e Toninho Ferragutti, nesses tempos modernos. e soltar a voz?
2) Que mal há em se escolher um repertório irrepreensível, que inclui a injustiçada Xote, um clássico perdido do repertório de Gil (c/ Rodolfo Stroeter, num disco igualmente clássico, O Sol de Oslo) e soltar a voz?

3) Que mal há em chamar Chico Buarque pra participar do disco e soltar a voz? Hoje em dia não há nada mais trivial do que convidar o velho Chico.

Pode ser receita de bolo, mas a verdade é que Rita Gullo mostrou personalidade no seu disco de estréia. Distribuido pela Tratore, é raro de se achar e bom de se ouvir.

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Porque hoje é sábado e estou em Niterói, há uma perspectiva de nadas exorbitantes. Velhos seriados, filmes em pilhas, Marisinhas aos Montes. E uma dor esquisita no flanco esquerdo.

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O filme australiano A bela adormecida, que pretende dar uma conotação adulta, realista e pornográfica ao clássico Disney, é uma boa merda. Fuja!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Longe das cercas embandeiradas que separam quintais

Séries inglesas quase sempre são mais interessantes e inteligentes. Não poderia ser diferente com The body farm. Um bando de cientistas esquisitos trabalha numa fazenda estudando cadáveres. Um detetive os contrata para desvendar os assassinatos. Nada poderia ser mais mórbido, denso e bom de ver. Tem uma canção no quinto episódio que me deu um nó. Parece uma canção italiana, sombria, meio Tom Waits. Uma bela obra que ainda não descobri quem escreveu ou quem canta. Tentei o google, mas não veio.
Não sei por que, me lembrei do Ouro de Tolo do Raul Seixas hoje descendo a Baía. Deve ter sido a festa das meninas de Miracema. Minha vida parece estar sintonizada com a do sujeito sentado no trono de um apartamento com a a boca escancarada, esperando a morte chegar. Acostumei-me às séries inglesas, aos silêncios de Laura, aos biscoitos limão e ao sono leve. Sair dessa inércia deve ser um dom do espírito.

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...