quinta-feira, 27 de junho de 2013

La nave del olvido ou ficamos ali ouvindo Chavela

Éramos nós dois, como se o Mundo fosse só dois, e aquele fim de tarde tijucano sem razão de ser. 
Lembro que abri um vinho tinto e liguei o itreco no aleatório, esperando por um fado ou uma canção de afeto que embalasse a conversa fresca. Ficamos ali embevecidos de boa conversa e canções de afeto.
De repente, a certa altura do vinho tinto, a vitrola mandou Chavela Vargas. Paramos pra escutar. Comecei a pensar no quanto seria incômodo para quem não conhece, a voz tristonha e arranhada de Chavela, mas o cair da tarde e o vinho contribuíram para compor um cenário maravilhosamente adequado para a mexicana.
Aprendi naquele instante, que Chavela pode operar milagres em corações propensos ao amor e ao entendimento mutuo.Os olhos dela brilharam mais, a delicada cumplicidade da relação ficou mais clara, o tato mais sensível, e tudo ficou mais leve.
Momentos como esse devem ser perpetuados em poemas, versos, estrofes, canções, pois são muito raros e muito pessoais. Acontecem poucas vezes na vida de dois. Na vida atribulada de trabalho, filho, responsabilidade, rotina e cansaço.
Toda vez que lembro, sinto vontade de escrever. E agora que tive um deja vu solitário nesse fim de tarde em Maceió, liguei de novo o Itreco e veio de novo, Chavela. E mais uma vez senti falta daquele nosso fim de tarde tão especial.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Há no meu coração uma flor em botão que abrirás se quiseres

Comecei esse blog no final de 2007. Nunca houve pretensão alguma, convivo bem com a mediocridade, apenas a ideia de escrever o que vomito. E compartilhar um pouco desse meu estranho gosto por música e poesia.
Explico melhor: escrevo pra mim. Gosto de escrever pra mim desde menino. Muitas vezes, surpreendo-me lendo meus textos antigos.
Só não gosto quando obrigo-me a escrever sobre qualquer coisa que tenha acontecido na minha vida que de fato mereça um texto. Meus piores textos são as homenagens. É quando eu mais caio na armadilha do lugar comum, do clichê.
Mas agora que o Lucas veio, senti necessidade de escrever alguma coisa que marcasse a vinda dele. Na sequência estúpida da morte dos meus pais no início de maio do ano passado, o Lucas foi concebido. Uma coincidência feliz que viesse alguém quando outro estivesse partindo. Nada vindo de Deus ou do diabo, apenas uma coincidência feliz. Veio sem qualquer planejamento, veio a reboque de uma paixão avassaladora, veio porque tudo clamava sua vinda, veio porque era preciso vir.
E eu que já tinha pelo menos três motivos para continuar vivo e atento, agora tenho o Lucas também.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Azedo

Retorno de um dia extenuante São Paulo no vôo 6012 da AVIANCA lendo a Veja (sim, Camila, ainda assino a Veja). Começo por Fernanda Torres (sempre começo a Veja da última página e vou voltando). Gostava de ler as crônicas de Fernanda no início, pelo frescor das palavras, depois parei de ler. Ontem resolvi dar uma olhada. Fernanda informa que Depardieu se debandou para a Bélgica (quem ainda não sabe disso?), e das dificuldades da HBO com as gravações de Roma na Itália, cuja segunda (e última) temporada foi transmitida em 2007 (!?). Achei tudo meio datado, acho que Fernanda cansou. Eu também cansei, Fernanda, fique tranquila.
A revista dedica uma reportagem de muitas páginas para falar dos...sertanejos. Acompanhou a turnê de Fernando (que também é de Sorocaba) e Sorocaba (que também se chama Fernando) e outros Zezés e chega a sugerir que há qualidade no cancioneiro brega.
Esperava qualquer coisa sobre a nova trova cubana, ou uma página que fosse sobre o disco de Gonzaga Leal interpretando Capiba (só encontrável na livrariacultura.com, estou aguardando), mas desses nem um a. 
Deixo a revista de lado para comer uma pizza Margherita acompanhada de sorvete de maracujá. A AVIANCA atualmente é a melhor das pontes: sai na hora certa, trata todo Mundo bem e ainda serve pizza. 
Os aeroportos me adoeceram. Li um dia desses que eles se tornaram grandes rodoviárias. Nada mais verdadeiro. Fico ali aquelas horas de espera inúteis tentando ler ou ouvir alguma coisa. Vontade de estar em Miracema, com meu punhado de livros, a comidinha da Diô e Luisa o tempo todo pra conversar. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Para não perder o costume

"Foi só uma gota e ninguém deu valor."
Paulo César Pinheiro

Cinco discos mais ouvidos em 2012: Siba (Avante), Caetano Veloso (Abraçaço), Antonio Zambujo (O quinto), Tropicália lixo lógico (Tom Zé) e Valsas e retratos (Isaías e Quintal Brasileiro) .

Cinco canções mais escutadas em 2012: Fado Saramago (Ivan Lins e José Saramago), Preparando o salto (Siba), Estou triste (Caetano Veloso), A casa fechada (João Monge e José Marques) e Armei a rede (Assis Valente e Arsenio Otoni).

Cinco filmes que mais gostei em 2012: As canções (Eduardo Coutinho), Medianeras (Gustavo Taretto), A música segundo Tom Jobim (Nelson Pereira dos Santos) , Eu receberia as piores noticias de seus lindos lábios (Beto Brant) e Os homens que não amavam as mulheres (David Fincher).

Cinco acontecimentos culturais de 2012: a caixa de cds "A dama da Canção", com a obra de Nana Caymmi, Kelsey Grammer na segunda temporada de Boss, Fátima Guedes no Rival, Isca de Polícia no CCBB e Drummond na FLIP.

Outros cinco de 2012: a intensidade de tudo, os muitos anos que passaram em um único, 30 quilos a menos, duas perdas, cinco anos de desconversa. 

sábado, 24 de novembro de 2012

Saudade


"Todo mundo que lida com vidas humanas, sabe que os seres humanos não são simples, são pelo menos duas ou três coisas."
Salman Rushdie

Saudade do violão do Lilito desfilando o repertório do disco da Amélia Rabelo. A delicadeza que vem daqueles sons. Da polenta quentinha da Diô saindo na hora da fome. E a bananinha cozida, o feijão manteiga, o arroz fresquinho. Longe dessa comida plástica dos centros do Rio e São Paulo.
A saudade resolveu ficar no Rio, decidiu não romper a estrada longa que separa o velho do menino, estrada de muitas estradas, de muitas noites e de algumas saudades doídas.
Saudade muito doída de Luisa, da nossa conversa besta, dessa coisa transcendental de pai e filha.
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Na última crônica que li do Veríssimo ele falava das armadilhas do campeonato de pontos corridos, que já determinou o campeão e o rebaixado algumas rodadas antes. Também defendeu uma espécie de liga dos intocáveis, times que não podem ser rebaixados nunca. Acho justo.
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De José Castello no Prosa de hoje: "não é fácil falar de sentimentos sem transformá-los em pesadas placas de prensa e reduzi-los à máscara lamentável dos clichês." Faz sentido.
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Fui ver o Elefante Branco de Pablo Trapero. Gosto de Trapero, de Darin e principalmente de Martina Gusman. É uma atriz visceral. O filme é bom, mas não o melhor do diretor. Ainda gosto mais de Abutres. 

sábado, 6 de outubro de 2012

Aquela casa fechada

"Aquela casa fechada
não tem vasos na entrada
nem se vê luz duma vela
dizem que a casa está morta
já ninguém lhe bate a porta
nem se assoma na janela."



Em Cuiabá, ando preocupado com os efeitos deletérios da Lei José Riva, que proíbe o uso do cigarro e outros produtos fumígenos em vários ambientes. Até para um não fumante como eu, é ameaçador. Já fiz o roteiro das melhores peixarias e agora retorno acompanhado, no Vôo Azul 4124, da Banda João Carreiro e Capataz. Desconfio que o Capataz viaja na poltrona à frente da minha. 
Ouço Zambujo, possivelmente desconhecido da banda. O disco é, de fato, irresistível. Dói, regenera e claudica como todo o fado. Na biblioteca há algumas de Camané, muito mais sofrido que Zambujo e ainda mais distante da dupla sertaneja. Arrisco ouvir, mesmo sabendo que vai doer ainda mais. 
Queria um chuvisco na Chapada dos Guimarães, um peixe de beira rio, um sono mais prolongado, mas vai ficar pra depois. Voltar ao Rio parece-me mais atraente para o momento que qualquer souvenir turístico cuiabano.
Ontem também adormeci ouvindo fado .O dia extenuado doía-me até o cabelo. Fiquei feliz com um telefonema que recebi, mas até a felicidade doía. A dor do fado costuma aliviar a dor física.
Não há vôo direto de Cuiabá para o Rio. Espero pacientemente no Aeroporto Vira Copos em Campinas pela minha conexão. Cada vez acredito mais nesse conceito do Aldir de que a vida é um sinal que não sai do amarelo 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Nada mudou, em essência

Pra Marila.

"Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida?
Antônio Maria

1 - De tanto escrever coisas inúteis, afeiçoei-me a elas. Hoje não tenho mais tempo de escrever coisas inúteis. Sei que essa próxima meia hora em que escrevo, roubo de preparar um treino para Cuiabá, responder 53 e-mails, atender A ou B.
2- Não há amigo mais presente em minha vida atual do que o Macedo. Leva-me aos aeroportos do Rio e trás me de volta pra casa, pelo menos duas vezes por semana. É um homem feliz, apesar de ter ficado doente nos últimos anos. Tem um casamento de muitos anos, diferente "do meu fruto sem cuidado que ainda verde, apodreceu". Exorta as pequenas coisas boas da vida. Mora perto da minha casa, mas prefere elogiar o pão da padaria do outro quarteirão (Pão e etc) do que lamentar o fechamento da Panificação Palácio. Já eu...
3 - Absolutamente encantado com o disco novo de Antônio Zambujo, o Quinto, que já recomendo para as listas de melhores do ano. É o que mais aproxima o cantor do fado, dos que ouvi.
4 - Sei que Zambujo se apresentou recentemente no Rio, que Rosa Passos estará no Miranda, mas de que adianta? Meu tempo é quando?
5 - E mesmo que não fosse, assisti ao show do Gudin com uma indisfarçável melancolia, de sair no meio, de pressa e com medo de doer mais.
6 - Também é de Zambujo, a interpretação da música mais bonita que ouvi esse ano: o Fado Saramago, de Ivan Lins e José Saramago, do último disco do Ivan. 
7 - Na foto acima, a visão panorâmica do meu guarda-roupa. Se olharem minha mesa, minha pasta, meu carro, o quadro é o mesmo: vão pensar que o abandono mora aqui.
8 - Quando prescindo do Macedo e assumo eu mesmo o volante, como ontem numa ida a Cabo Frio e Araruama, sou um desastre. A cegueira noturna tem se acentuado e o Rio vira um sinal amarelo nos horários pesados.
9 - Como sempre a música tem salvado esses momentos duros. Não sai da vitrola de ouvido, o disco novo de Isaías e seus Chorões e Quintal Brasileiro. Um Lábios que beijei de chorar todas. 

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...