Toda dia eu abro minha geladeira e encontro aquela geléia de amoras preparada carinhosamente pela Teresa. Eu penso numa torrada, penso num chá, penso num queijo minas para comer com aquela amora. Mas só penso. A amora fica ali do mesmo jeito e eu, como fugindo dela, devoro tudo que não é saudável: bolos, doces, chocolates, bombons, alimentos diversos que quando não matam, são precursores do Alzheimer, obstruem dos vasos, destroem coronárias. engordam. Os doces são uma espécie de fuga. Do cansaço , das dores, do burnout, dos aeroportos.
sexta-feira, 21 de outubro de 2022
Amora
sábado, 8 de outubro de 2022
O jequitibá branco do Trianon
Decidir ter um filho depois dos 50 anos é um projeto de vida, do qual deve-se assumir o peso duro da responsabilidade e a obrigação de manter intacta a relação, mesmo que seja ruim.
Fracassei em tudo. Mas onde o peso do fracasso dói mais é a falta absurda que meu filho faz na minha rotina. É onde me sinto mais fragilizado, onde menos me entendo, onde a dor lombar é uma pilhéria.
Fui para Gramado a trabalho, isto é, nada de turismo. Mas tomei um chocolate na Casa da Bruxa, jantei no Malbec e almocei no Di Paolo com amigos queridos. No mais, trabalhei. Atento ao desastre político que sou, à minha total incapacidade de mediar conflitos, à preocupação costumeira de que uma única frase possa sair deslocada e colocar tudo a perder.
Falo pouco, meço palavras, piso em ovos. Mas a convenção exige que você converse, que você troque, que você se empenhe ao máximo para se sair bem. Participei o quanto pude. Mas não fui ao show da Paula Toller no último dia por pura pena de mim mesmo. Da minha dor, do meu cansaço, da necessidade de acordar cedo no dia seguinte para viajar. Era muito fácil ir, mas tudo para mim é complicado.
Consegui, no entanto, assistir a quase todos os shows do festival de chorinho e sanfona de Rosal. Pisei nas dores para ouvir de frente Henrique Cazes, Silvério Pontes e Nilze Carvalho tocando Jacob, Pixinguinha e Sivuca, além obviamente do quarteto que às vezes toca lá em casa comigo. Foram muito bem os meninos e o Moreira está cada vez mais refinado como compositor.
Fora tudo isso, duas coisas muito boas aconteceram esses dias.
Depois de muitos anos, retornei ao Maracanã com meu filho. Muito por insistência dele. Era véspera do seu aniversário e comemoramos entusiasmados assistindo à goleada do Fluminense em cima do Juventude. Aniversário dele, mas o presente foi meu. Foi um momento ímpar na nossa vida.
E a outra coisa é Vão, o novo disco de Zé Miguel Wisnik. Eu trabalho muito perto do Parque Trianon em São Paulo. Passo por ali todo dia quando estou lá, mas nunca dei muita bola para aquele jequitibá. Até ouvir a canção maravilhosa que Wisnik e Carlos Rennó fizeram para a árvore, que tem centenas de anos e viu passar muita coisa, inclusive eu. Tão óbvio, tão lírico, fez tão bem a esse coração velho e cansado.
terça-feira, 9 de agosto de 2022
After life
Rick Gervais esbanja talento em After Life. As três temporadas na Netflix valem cada minuto de atenção. A maioria dos personagens é bizarra. Todos convergem para o mesmo caminho: os diálogos por vezes ácidos e por outras acolhedores com Toni, o personagem de Rick, um deprimido que perdeu a esposa para o câncer e não consegue se encontrar mais.
Por fim, essa edição mixuruca da Saga do Cavalo Indomado da minha escritora predileta: Maria Alice Barroso. No meio de tantas edições caprichadas de outros autores, veio esse livro de bolso, muito semelhante aos livrinhos de faroeste que meu pai lia. Maria Alice merece muito mais do que isso.
terça-feira, 12 de julho de 2022
De volta ao tango
Todos dizem que eu falo demais
Essas fotos do telefone que não me largam.
Estão agregadas a um timeline que já não faz mais sentido, mas não arredam o pé. Incomodam e, por vezes, tenho que escondê-las para que ninguém as veja.
Vêm em álbuns aleatórios, transitam por Milão, Bariloche, Cascais, Amsterdam. Já não são parte de mim. E no entanto ali estou, com aquele sorriso de fotografia. Estaria feliz?
Ninguém morreu. Estão todos vivos, mas já não existem em comum. Não são inimigos. Não são mais nada.
As fotos desafiam o tempo. Já não há graça nenhuma naquele jardim, naquela ponte, naquele luar.
E no meio de tantas fotos inúteis, amontoam-se também filhos e amigos. Essas me encantam. De vez em quando por sorte, o aleatório manda recordações dos saraus lá de casa, de Paraty, de Rosal, lugares mais simples onde a felicidade foi legítima, e continua a ser.
Contrastam com essas outras, mal resolvidas, de noites perdidas, sombras ruins. Estão ali, e vão estar sempre. Não há como rasga-las sem quebrar o telefone. As fotos não são testemunhas de nada. O tempo está morto para elas.
segunda-feira, 4 de julho de 2022
Sua próxima leitura está aqui
Sempre tive um espírito irriquieto para ler, e não é incomum que esteja lendo vários livros ao mesmo tempo. É defeito, eu sei, não vou corrigir agora depois dos 60. Fato é que para manter essa pegada, você não pode se desligar do livro. Por exemplo, A morte do pai (Kar Ove Knausgard) estava estacionado na página 100 até ontem. Tive dificuldade de retomar a leitura e quase volto ao início. Perdi alguns pontos, mas retomei da cem mesmo. O livro é ótimo. Visceral, de uma honestidade contundente.
Três livros de crônica estão sendo degustados à prestação para não acabarem logo. No máximo, duas crônicas por dia. Os sabiás da crônica (Rubem Braga, Vinícius, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Stanislaw e José Carlos Oliveira), Vento vadio (Antônio Maria) e As coisas da vida (Antônio Lobo Antunes). Maria é meu favorito, embora concorde que é muito difícil nominar. Digamos que tenho um carinho diferenciado pelas crônicas de Antônio Maria. Por isso, Vento Vadio é tratado como pérola rara na biblioteca.
Adquiri recente a última edição da antologia poética do Drummond. Não difere em nada da primeira que eu comprei, em 1984 (fotos acimas), mas é espantosamente nova. Tirando os clássicos já decorados (O caso do vestido, A mesa, José), tudo parece renovado, como se estivesse sendo lido pela primeira vez.
Estou com inveja dos paulistas, que têm a bienal às mãos. Há uma estação dedicada a Portugal, que me interessaria muito. Os livros de Antonio Lobo Antunes que ainda não saíram no Brasil, sabe-se lá porque, devem estar lá. A última porta antes da noite, que faltou comprar em janeiro, pode estar lá.
Esse desespero de estar longe dos livros que quero é maior do que o monte que leio ao mesmo tempo. Respondendo à Estante virtual, minha próxima leitura é diversa, mas principalmente a parte que está longe de mim.
domingo, 26 de junho de 2022
Meu pobre bicho de contas
"Foi uma noite de delícias fartíssimas. É horrivelmente vergonhoso pensar que dos 450 mil habitantes de Recife, só um punhadinho possa gozar tanta riqueza de sentimento, tanta vibração de beleza. Àquela hora, meia noite, a imensa poupulação trabalhadora dormia extenuada para acordar cedo hoje e trabalhar faminta....Mesmo se não houvesse tantas misérias tão graves, tão angustiosas, tão básicas, bastaria esse fato em demais triste de nem todo Mundo ter o direito de ouvir uma artista como Bidu para justificar uma revolução. Que não será a arte quando ela não for mais um odioso privilégio de classe? Que riqueza musical espantosa não se estraga para sempre no seio da massa, e como é absolutamente necessário que todo mundo ouça artistas como Bidu. No Teatro Santa Isabel, há uma placa de bronze com uma frase de Nabuco: "aqui vencemos a abolição". Mas não vi nenhum negro no recital. Os negros e os brancos pobres - o enorme povo - não entra ali. Para ele estão fechadas as portas de todos os altos bens da vida humana. Velho Nabuco, há muitas abolições a fazer ainda."
Rubem Braga, setembro de 1935.
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Da quimio e da radio, herdei alguns males que provavelmente não me livrarei nunca: a limitação da voz, o gosto azedo na boca após as refeições, e um edema de orofaringe que dificulta a passagem do alimento. Mas já posso cantar um fado, o que é uma grande vantagem. Depois de muita insistência e paciência do Moreira, saiu um fado corrido, não muito corrido, mas ficou bonito. Parecendo fado mesmo.
Bonito para mim obviamente, que só toco e canto para mim, com uma concessão exclusiva e especial para Laura e Luisa. Verdade é que ando me ouvindo com mais prazer. E recorro mais vezes ao violão para me ouvir.
Fora isso, tenho ouvido uma canção chamada The Captain, de Kasey Chambers, de quem nunca havia ouvido falar, mas ouvi no fim de um episódio da terceira temporada dos Sopranos e ficou grudada no ouvido. Milagres que só o Shazam oferece.
É muito bom isso de descobrir uma canção. Os ouvidos exultam e parece que toda felicidade está ali e que ainda há esperança. Foi assim que eu descobri Coruja muda (Siba), Arrasta (Francisco el Hombre e Céu), Solidão (Sara Correia). E é assim que vai se desenhando mais uma canção de afeto. Que bom que elas nunca morrem.
É quase o mesmo prazer de descobrir um texto novo. Uma crônica do Braga ou do Maria. Por absoluta falta de tempo, estou dando um tempo para o livro de Karl Ove, mas estou usando pequenos intervalos para ler as crônicas do livro Os sabiás da crônica. Por enquanto, estou no Braga. E tirando o Almoço mineiro, que já li e ouvi diversas vezes, tudo é novo para mim.
Perto do coração
Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...
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Meus domingos continuam vazios e frios. Apesar de estar com meus filhos, eu continuo me sentindo sozinho por inteiro. A doença só veio piora...
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O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos p...



