terça-feira, 26 de junho de 2012

O menino

"Querida Tão Triste

Compreendo, apesar das ligações indivizíveis e inumeráveis, que chegou o momento em que devemos agradecer a intimidade dos últimos meses e dizer adeus. Todas as vantagens serão suas. Creio que nunca nos entendemos verdadeiramente; aceito minha culpa, a responsabilidade e o fracasso. Tento desculpar-me, só para nós, é claro - invocando a dificuldade que impõe o navegar entre duas águas durante x páginas. Aceito também, como merecidos, os momentos felizes. Seja como for, perdão. Nunca olhei sua cara de frente, nunca mostrei a minha."

Juan Carlos Onetti, Tão triste como ela.

Hoje me ocorreu, em meio a tantos cansaços, esse conto de Onetti. O uruguaio sempre acha um jeito de comover. Andei pelas ruas do centro procurando sentidos, velhos discos que dessem sentido a tudo isso. Mas hoje nada encontrei.
Vontade de voltar para minha cidade, andar pelas suas madrugadas desertas sem qualquer pensamento responsável. Vontade de rever o menino que fui. 
Mas já vai muito longe o menino. Inalcançável menino. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Voltei

"Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,
o perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno."

Ferreira Gullar, Poema Sujo

Voltei.
Estava ali sentado no tempo esperando que as coisas se resolvessem a contento.
Estava ali, não era eu, era meio que o outro.
Não acho que tenha voltado pra ficar de vez. Pode ser que eu suma de novo por outros tempos indefinidos.
Mas agora deu vontade de voltar.
Não foi um amigo em especial que reclamou da ausência.
Não foi o amor que deixou que o espaço permitisse um atalho para a escrita.
Nem a vontade de escrever sobre discos, livros ou filmes.

Voltei porque precisava.
Não sei, tenho estado avesso a escrever bobagens.
Quando não escrevo bobagens, tendo a ficar mais sério.
Sério, desapareço.
Desapareci.

Mas eis que nessa tarde chuvisquenta de quarta, eis-me de volta.
Não espere um texto bombástico
Nem reza, nem ladainha.
Sou apenas eu, de volta.

Alguns episódios cortaram meu coração cansado nesse meio tempo.
Mas o que é a vida além de dois ou três minutos ocasionais de paz?
Muito clichê?

Pois bem, voltei.
Precisava voltar.
Já estava passando da hora.....

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Sem você

Sem você,
O Paço perde o sentido.
É só a história do Império.
Não é a Nossa história.

Perde o sentido a dieta
A perda de peso
Caminhar pelo Morro de São Sebastião
Por você.

Sem a fala dos olhos,
Pra que falar?
Pra que ouvir?
O que dizer?

O Bar Luiz, o Café da Rosário, a Manon
Ficaram desertos sem você
Perdeu a graça
O café com leite escuro

Deixou de existir a canção
A poesia de hoje
A linha, o linho
A vontade de mandar flores.

De comprar um presente
De roubar um beijo
De ganhar um abraço
De entregar corpo e alma

Tudo ficou recortado
Tudo ficou dividido
Tudo perdeu a cor.

domingo, 15 de abril de 2012

Preparando o salto

"Não vejo nada que não tenha desabado
Nem mesmo entendo como estou de pé
Olhando um outro num espelho estilhaçado
Que reconheço mas não sei quem é

Não ouço passos de ninguém entre os escombros
Nem mesmo insetos revirando o pó
Um vento seco me arrepia, encolho os ombros
Mas na verdade estou queimando só

Depois do fogo restam só fumaça e brasas
E eu tiro as cinzas do meu peito nu
Daqui a pouco meus dois braços serão asas
E eu me levanto renascido e cru

E mesmo aquela velha sombra ressecada
Que imita tantos quanto eu fui e sou
Ficou nos cacos do espelho aprisionada
De pés cortados não vai onde eu vou

Antes de nascerem as plumas
Com minhas unhas quero me arranhar
Pra ter riscado na pele
Um mapa tosco pra poder voltar

Vou passar
Como um santo mudo
Mirando o alto
Rindo
Preparando o salto
Deixando pra trás … tudo"

Siba

quinta-feira, 29 de março de 2012

Sorri seus dentes de chumbo


Meu domingo começou com Sentidos do amor, o filme inglês em que os personagens de Ewan Mcgregor e Eva Green experimentam uma perda epidêmica e paulatina dos sentidos, um ensaio sobre a cegueira ampliado (1A).
Saí de casa meio dia pra trabalhar, comi um double cheese no Bobs e dei de cara com a porta do trabalho fechada. Peguei um táxi e fui para o Unibanco Arteplex assistir Shame, mais "solidãoélarva" impossível (2A).
Depois fui pro Odeon assistir ao documentário sobre a vida de Raul Seixas. Cresci ouvindo Gita, Krig ah!, bandolo e principalmente, Novo Aeon, os três tocaram muito na vitrolinha Philips. Foi bom voltar a ter contato com essas canções, e o filme é bastante didático (2A).
Por fim, fui ao CCBB assistir Chico César interpreta Torquato Neto. Gostei demais dele cantando (e trazendo de volta), três canções que não são de Torquato: Adeus segunda feira cinzenta (Zé Ramalho), Tudo outra vez (Belchior) e Dor Elegante (Itamar e Leminski). Além de ótimo compositor, Chico é um leitor refinado de canções alheias, De Torquato, gostei da versão triste de voz, violão e sanfona de Pra dizer Adeus.
Mas a cereja do bolo ainda estava por vir no final da noite. Assisti ao argentino Medianeras (3A), meio documentário, meio ficção, mistura Buenos Aires sem glamour, com internet e pra variar, com solidão.

domingo, 18 de março de 2012

Todos que somos eu, meus braços, minhas pernas, meus sentimentos e minha vontade

"Se queres ser feliz
Como me dices
No analices
No analices"

Só quem leu o "Amanhecer em Copacabana" de Antônio Maria vai entender esse título. Mais ou menos assim que me sinto na maior parte do tempo. Algo parece ter estacionado e não sai mais do lugar. Só o tempo é que, invariavelmente, passa.
Tento aproveitar o que posso. Ainda na sexta, fui com Luisa assistir a Banda Isca de Polícia, que acompanhou Itamar Assumpção por muitos anos. Um privilégio! Como cantam Suzana Sales e Vange Miliet! E Arrigo Barnabé recitando o Relógio do Rosário, do Drummond, e cantando, só ao piano, a Noite Torta do Itamar foi tudo de bom. Tudo de bom ver gente da idade de Luisa ou um pouco mais, lotando a platéia no CCBB para celebrar o compositor. E ouvir canções que já tinha esquecido e outras que nem tinha dado qualquer atenção. Itamar não acaba nunca. Cada dia se descobre algo novo da sua genialidade.
Vi Mônica Salmaso no Espaço Cultural Furnas repetir as canções do cd Alma Lírica Brasileira com Nelson Ayres e Teco Cardoso. A excelência, por vezes, é enjoativa, mas Mônica ainda tem muito crédito. Que venha logo o disco com Guinga
E vi, um dia desses no Arlequim, uma cantora nova chamada Gabi Buarque. Tem personalidade, compõe bem e canta melhor ainda. Melhor mesmo foi a participação improvisada de Áurea Martins, cantando com Gabi, o Medo de amar do Vinícius. De arrepiar.
E ontem participei do casamento de um dos meus dois ou três melhores amigos. A essa altura da vida, já não esperava mais por casamentos. Mas Jadim e Teresa vieram me desmentir e fizeram uma bela comemoração. Que continuem felizes como sempre foram.
Hoje, voltei de Miracema ouvindo velhas canções de afeto. Outras que já nem me lembrava como no show, tocaram fundo o coração cansado. Nada poderia ter sudo mais reconfortante do que ouvi-las.
Minha alma quer salvação e às vezes encontra aconchego numa conversa qualquer com velhos amigos, numa velha canção de afeto ou num poema de Drummond. E, naturalmente, em Luisa Braga Lima.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Fim

"Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro."

Mário de Sá Carneiro

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...