segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Fado Amália


"Lá porque tens cinco pedras
Num anel de estimação
Agora falas comigo
Com cinco pedras na mão!


Enquanto nesses brilhantes

Tens soberba e tens vaidade,
Eu tenho as pedras da rua
Pra passear à vontade!


Pobre de mim, não sabia

Que o teu olhar sedutor
Não errava a pontaria
Como a pedra do pastor


Mas não passas sorridente

Ah, lá de ar satisfeito
Pois hei de chamar-te "a pedra"
Pelo mal que me tens feito!


E hás de ficar convencido

Da afirmação consagrada:
Quem tem telhados de vidro
Não deve andar à pedrada"
Linhares Barbosa

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Por 800, leva o meu

Discos do Deolinda costumam grudar, já tinha acontecido assim com Dois selos e um carimbo e agora devagar com Mundo pequenino. É uma espécie de fado novo, menos Amália, mais Ana Bacalhau. Hoje fiquei na sala ouvindo muitas vezes cada canção, devo ter irritado os vizinhos. Não adianta, gruda no ouvido.
Há tempos não viajo mais de barca. Agora arranjei um novo transporte para ouvir música: os aviões da Gol (música e amendoim!). Vim de Brasília hoje exaurido depois de muitos atrasos (e olha que eu estava de TAM!), mas não deixei de botar o Itreco nos ouvidos. Ele mandou Nina Wirti, Moacyr Luz, Milton Nascimento (estou reouvindo o disco com o Belmondo, outra maravilha para ouvidos), e, naturalmente, Deolinda. É uma onda: você vai ouvindo a música seguinte depois de tanto ter escutado a anterior e a seguinte acaba grudando e logo se passa para a seguinte.
Leio na Veja Rio que Soledad Villamil está no CCBB nesse fim de semana por dez pratas. O desligado aqui se perdeu da programação do CCBB e agora certamente não vai encontrar mais ingressos. Ainda que encontrasse, esse não é lá um fim de semana para ir a shows. Vou deixar pra Buenos Aires.
Na revista de domingo d'Globo, leio sobre a procura pelo livro Roberto Carlos em detalhes, que nos sebos pode chegar a 800. O meu está no plástico ainda, foi comprado na época em que estava liberada a venda. Por 800, leva.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A Rosa de Hamilton e Laginha

Pode ser que os puristas desconfiem, mas para meu ouvido simplista, Mundo de Pixinguinha é o mais brasileiro dos discos de Hamilton de Holanda. Rasguei a semana ouvindo Seu Lourenço no vinho, a Canção da Odalisca, e evidente, as mais conhecidas. A que mais me agradou inicialmente foi Rosa, costurada pelo piano de Mário Laginha e pelo bandolim de Hamilton. Não é preciso fazer muito para que Rosa fique admirável (até Marisa Monte e Ryuichi Sakamoto conseguiram), mas Hamilton e Laginha extrapolaram. De deixar o dedo nervoso estragar o touch do Itreco de tanto que volta.
Tem me ocorrido prestar mais atenção em Maria João e Mario Laginha. Noutro dia, Monica Salmaso cantou uma canção deles no Rival (pés no chão) cheia de querelas do Brasil, fiquei maravilhado.
.
Agora em Vitória, 3 ou 4 dias depois de escrever esse primeiro parágrafo, acordo no terceiro hotel diferente em 3 noites e já não consigo precisar as incontáveis vezes que voltei Zambujo cantando Lábios que beijei. O cancioneiro brasileiro é um rosário interminável de salvação para a alma. Ontem no avião, consegui terminar o disco de Gonzaga Leal. Gonzaga se aproxima muito do conceito de pescador de pérolas Consegue extrair canções esquecidas nos discos. "Você disse não lembrar" já tinha chamado a minha atenção no disco de Adriana Calcanhoto, e Gonzaga só veio confirmar as minhas melhores expectativas com a música. Ainda não consegui gostar do esperado dueto com Cida Moreira, mas vou dar mais algumas chances.

Tento desistir a todo custo dos jogos do Fluminense. Nada me deprime mais do que ver o time tão apatetado. Já não há clima para a permanência de Luxemburgo, por mais conservador que nós torcedores sejamos. Não adianta nada disso, estou sempre em frente à tv, angustiado.

De volta a São Paulo, debaixo de chuva torrente e atraso de vôo, algumas semanas já se passaram desde que comecei a escrever essas notas inúteis. No meio das nuvens, aconteceu! Aconteceu que até as nuvens, nada tinha chamado a atenção no disco novo da Deolinda, Mundo pequenino. Ainda. No meio da viagem, aconteceu Não ouviste nada. É verdade. Agora ouvi!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Se a vida lhe oferecer um amendoim torrado...


Minha primeira refeição hoje foi o amendoim da gol. São Paulo tem sido um pesadelo toda semana. Não é pela cidade, nem pelo trabalho, nem pelo cansaço acumulado, e ainda nem mesmo pelo amendoim. O que mais me assusta são as companhias aéreas. Não tenho influência sobre a empresa que viajo. Imagino que seja feita uma cotação, etc, etc. Fato é que ultimamente tenho viajado muito de gol. A gol é disparada a pior de todas. Dificulta a antecipação de voos, oferece um amendoim de lanche e a cara de "conforme-se" dos seus aeros (moças e velhas). Quando cai óleo na pista do Santos Dumont (como hoje) eu tremo, não pelo medo de derrapar, mas porque a malha aérea atrasa muitos vôos.

Não quero deixar passar um breve comentário sobre o episódio onze da terceira temporada de Boardwalk Empire, aquele em que Aphonsus Capone chega para ajudar Nuck. É tão perfeitamente memorável quanto o quinto da primeira temporada. Perfeito. Como meu pai, fiquei ali embevecido esfregando a mão o tempo todo.

Hoje acordei com Gonzaga Leal, De mim. Comprei o disco no Arlequim e estou ouvindo homeopaticamente para alongar o prazer de ouvir canções tão bem costuradas. Hoje acordei com Arco do tempo, de Paulo César Pinheiro. Os ouvidos agradeceram.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Meu mocó de saudade e esperanças

A moça olhou de cima e mandou:
- O Sr é o décimo segundo da lista de espera por vaga na creche. Aguarde nosso telefonema!
O menino não fez um ano ainda e já tem que brigar por vaga! É a vida! Certamente não terá os privilégios do menino que fui. O menino que fui é um homem do interior, acostumado a pais, tios, avós e amigos por perto. Hoje em dia, a solidão já nasce com o sujeito.
Nesse meio tempo, já fui a São Paulo algumas vezes e nada trouxe de lá. Assisti Rosa, Marisa e Vitor, botei pra tocar a segunda trilha de Boardwalk Empire e o novo de Sérgio Santos (Rimanceiro), trabalhei muito mais do que deveria e tenho tentado parar pra escrever qualquer coisa de inútil, mas está difícil.
O "mas está difícil" levou uma semana para ser escrito. Antigamente adorava escrever, mas detestava botar as cartas no correio. Já hoje que não há mais necessidade de correio, não tenho mais tempo pra escrever.
Comecemos então por Rosas Passos no Rival. Um luxo! Eu já tive o privilégio de assistir Itamar Assumpção desconstruir uma canção do Djavan (Boa noite) e transformá-la numa pequena obra prima. Pois Rosa deu vida a um repertório inteiro que já tinha sido descartado da minha biblioteca. E cantou Dunas lindamente no bis.
Passamos o último final de semana num hotel fazenda em Piraí, cujo único diferencial era o fato de não pegar telefone algum, o que convenhamos, já é um grande benefício agregado. Chegamos a tempo de ir ao Vivo Rio assistir Marisa Monte. Fui pela Manu, já tinha visto a cantora em outras oportunidades melhores. Cercada de uma banda de primeira, Marisa repassou seu próprio repertório, a maioria das canções com Arnaldo Antunes, a maioria manjada, tirando as do disco novo, muito fraquinho. Mesmo assim eu gostei, inclusive já incluí Depois na minha seleção de canções românticas (parece mesmo uma velha canção do Taiguara).
Gostei muito de Vitor Ramil. Tirando o fato de ter sido numa terça de noite (ou seja, entre uma terça dia quente e uma quarta dia mais quente ainda!), e uma versão ruim de uma canção ruim do Dylan, o show foi perfeito. Colaboraram a presença de Luisa, o velho e ressuscitado Tereza Rachel e um barzinho árabe próximo ao teatro que me serviu um kibe muito semelhante ao do Seu Abdo. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Já viu Frances Ha?

"Todos os problemas do homem vêm de sua incapacidade de sentar-se silenciosamente em uma sala."  

Já comecei o dia com música alta no ouvido. Pra quem viaja de São Paulo para o Rio cedo, trabalha e viaja novamente do Rio para Fortaleza de tarde, só a canção salva.
Corro o risco de fazer um texto picado e desconexo, pois me ocorre escrever uma frase a cada dia. Essa aí de cima foi escrita em 26 de setembro. A que abre o texto, ouvi num episódio da quarta temporada de Bordwalk Empire que vi não sei quando. É possível que esse texto mesmo não se esgote nessa data.
Mas em São Paulo, tudo é possível. Nos corredores silenciosos do Caesar, nos faróis desordenados da Paulista, no trabalho trabalho trabalho, tudo é possível.
Em Fortaleza, experimentei um camarão no alho num pé sujo de comer ajoelhado. Esqueci o nome do pé sujo, mas não esquecerei do sabor. No mais, tive ganas de voltar o quanto antes pois não gostei daquele bafo quente da Praia do Futuro. Os olhos do mar me assustaram.
Tenho ouvido Marcos Nimrchter (Querência) e Bobby Mc Ferrin (Spirit you all), mas não dá pra falar muito desses ainda. Ainda é de Marcos, a Santa Morena (Jacob) mais bonita que já ouvi, num duo com o acordeonista espanhol Cuco Perez no teatro da UFF, no encontro de Niterói com Espanha em 2006. Faz muito tempo isso, mas os ouvidos não esquecem.
Voltei pro hotel agora há pouco, passei antes no ching ling pra comprar um cabo de carregar o Iphone.
Em São Paulo, tudo é desmesurado, oblíquo e  urgente.
.............................................................................
Ainda não??? Então, vá!!!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos

1) Meu pai tinha prazer em consertar caminhões e fuscas. Passou a vida inteira consertando um jeep 57, que era dele desde 1957. Era dar uma lata velha e ele ficava logo procurando peça, acertando motor, reparando lataria. No final, era uma festa ver aquela geringonça funcionando. Foi com esse espírito que peguei o Iphone 3 da Laura. Primeiro, foi preciso trocar o motor, depois ajeitar a bateria e finalmente dar uma guaribada no visual. Rodei todos os expertises do camelódromo, ajeitei motor com um, bateria com outro, botei um TIM pré-pago nele. Está, digamos assim, uma boa m., mas funciona! 
2) O jeep do meu pai ainda está lá esquecido estacionado no velho galpão da Usina Santa Rosa. Dia 31 fiz 52 e antes de ontem, foi batizado do Lucas. Não houve um só momento nesses dois dias em que eu não pensasse no quanto eles me faltam.
3) Nunca fui de mandar flores. Em raras ocasiões muito especiais, paixões avassaladoras e alguns embargos infringentes, ao longo desses 52, enviei flores. Receber flores, então, nunca cogitei! Pois em 31 de agosto, ganhei rosas de Laura. Foi a coisa mais delicada e verdadeira que me ocorreu no dia.
4) De tudo que me aconteceu de bom nesses dois dias (meu aniversário e batizado do Lucas) , o melhor foi poder estar com minha família e desfrutar do afeto e da consideração das crianças. O  coração brasileiro e prestamista paga todas as outras coisas.

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...