segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Dá licença





Voltamos aos nossos sarais em Miracema. Eis o que aconteceu de muito bom nesses últimos tempos difíceis. A turma afinou com a acústica da cozinha e voltaram aqueles tempos em que a felicidade só precisava de música. E ela veio de todas as formas. Na maior parte do tempo foram sambas, incluindo a indefectível jam de Adoniram Barbosa, mas houve também as canções antigas do Fagner, os choros autorais do Moreira, e até os velhos Festivais de Miracema. Alexandre pedia a toda hora uma canção antiga do Bessa que ninguém lembrava mais, mas cantamos assim mesmo. 
E teve boa conversa, conversa de botas batidas, boa comida, boa cerveja, era bom estar ali de novo. Bebi sem medo e acordei muito bem. 
Em tempos duros, é muito bom saber que se pode contar com esses quartetos, quintetos, sextetos de amigos, que eventualmente se reunem para conversar e tocar música.
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De resto houve cinema. E já adianto que o filme do ano é "Um dia de chuva em Nova York", o novo de Woody Allen. Vi duas vezes, a segunda com Luisa. Muito prazeiroso ir ao cinema com Luisa. E vi também os ótimos O paraíso deve ser aqui, O caso Richard Jewell, Parasita, e, naturalmente, Minha mãe é uma peça 3 e Frozen 2. 
A maioria na Reserva Cultural em Niterói. A reserva é uma achado. Tem uma ótima livraria, excelentes cinemas e a melhor pizza de Niterói. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Os fantasmas inquilinos





A única coisa que me interessou de fato nesse Rock in Rio foi Carolina Deslandes. Já soube que a portuguesa teve uma apresentação modesta, com poucos ouvidos. Que pena! Se pudesse, estaria lá só pra ver ela cantando Adeus amor Adeus. 
Comprei esse disco (Casa) na FNAC do Free Shop de Lisboa. Inicialmente não dei nada por ele, mas depois ouvi com calma, Jadim ouviu com calma e recomendou, e não sai mais da SpotFran. Toca toda hora e tem duas músicas incluídas nas canções de afeto.
Hoje estou ouvindo e reouvindo Voz de Mágoa. Nada pode dar mais paz do que um disco do Dori. Experimenta.
E segunda, saí de uma reunião tumultuada e entrei no cinema para ver Coringa. É o filme do ano. Eu sei, eu sei, não dá pra comparar a Gothan de antigamente com o Brasil de hoje, mas pense bem. O que não faltam aqui são ratos. Especialmente em Brasília. E Joaquin Phoenix faz seu melhor trabalho, digno de todos os prêmios.
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Sempre termino minha noite vendo uma seriezinha chata, principalmente quando estou em São Paulo. Vejo, inclusive, séries ruins, com Vis a Vis ou Manifesto. São melhores para atrair o sono. E às vezes, revejo séries. Já revi todas as temporadas de Epitáfios, Deadwood, alguns episódios isolados de Familia Soprano, Boardwalk Empire (principalmente o quinto da primeira temporada), Seinfield, etc.
E há uma série na Amazon que merece uma atenção especial. Chama-se Goliath e já está na terceira temporada. O excelente Billy Bob Thorton está criando um Doctor House do direito. 
Também ouço pouco sobre ela. 
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Luisa me indicou e estou lendo e gostando muito de de Os fantasmas inquilinos, do poeta português Daniel Jonas. Tem coisa do tipo: "No dia em que fui imenso/ o medo e a dúvida me contrataram/ e de essa hora em diante fui travando/ o coração de mim que era gigante". Bonito.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Zé Luiz Mazziotti



Conheci Zé Luiz Mazziotti  no início dos anos 80 num show em homenagem a Sidney Miller na Sala FUNARTE, junto com Alaíde Costa e Zezé Gonzaga. Lançado em disco algum tempo depois, furou na vitrola. Ainda sei de cor a canção O Bonde. Nunca saiu em cd.
Na Rua São João em São Paulo, ao lado da Baratos Afins, tinha uma loja de discos especializada em música brasileira. O dono era especialista em transformar vinis em cd. Fazia arte gráfica, tudo muito bem feito. Levei o disco lá e ele fez o cd para mim. Está la na cabeceira.
Depois vieram dois discos, um da Continental e outro da Pointer, também não lançados em cd. São deles as melhores interpretações de Violão Vadio e Súplica que conheço. 
Também não consigo me esquecer de uma dueto com Nana Caymmi em Pare de me arranhar.
Em 2003, fui à FNAC Barra para o lançamento do disco em que o cantor interpreta as canções de Chico Buarque. Mais uma obra prima. Esse eu tenho com autógrafo.
De voz mansa e delicada, boa de ouvir, Zé Luiz Mazziotti sempre esteve presente, mesmo que sumisse de vez em quando.
Agora ele aparece de novo com esse disco A Roma, gravado na Itália. Pode-se notar de primeira, a excelência na escolha, a mesma voz delicada, acompanhando-se ao violão. Simples assim. 
E que bom poder ouvir Boca da noite (Toquinho e Vanzolini) e Sem companhia (Ivor Lancelotti e Paulo Pinheiro) interpretadas pelo Zé. Agregam muito às originais.       
Consegue-se emocionar até nas manjadas Anos Dourados e Dança da solidão.
No meu tempo sem tempo, Zé Luiz Mazziotti lança mais um disco imprescindível. Obrigado.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Fragmentos

"Eurico Alves, poeta baiano,
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito.
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant'Ana.

Sou poeta da cidade. Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar o gás carbônico das salas de cinema.
Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata. Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.
Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores das madrugadas.

Eurico Alves, poeta baiano, Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça."

Manuel Bandeira


É quase o mesmo de sempre: noites de insônia, um domingo perdido, a alma fragmentada. É assim quando tem evento de trabalho no fim de semana. Mesmo que seja num hotel paradisíaco. Mesmo que você esteja por um pouco do tempo com a família. Quando a família vai. Ou pelo menos, parte dela.
A maior vantagem de ir para um hotel all inclusive é quando você chega no check-out e o atendente fala Está tudo certo. Não há armadilhas como copo de água por 9 ou lata de cerveja por 20. Você simplesmente entrega o cartão e vai embora.
O maior problema é que os all inclusive relaxam muito na comida, que é farta, porém muito mal preparada. Uma lagosta linda sem sal e fria. Que saudade do Canyon Coqueirinho!
O resto é isso. Apertar a mão de B, falar com A, etc, etc, e voltar cansado.

Voltei a tempo de assistir a magra e sortuda vitória do Fluminense sobre o Corinthians. Como disse o Alan, melhor do jogo, foi um ufa. Nem eu nem Chicote acreditávamos que o jogo havia terminado.
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E hoje cheguei aqui ouvindo as canções catalãs de Joan Manoel Serrat. Trabalho tentando fluir depois de noites de cansaço. O Itreco ligado, sinal de paz.
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Meu pai certamente viajou muito mais com os filhos do que eu tenho viajado. Eram viagens mais modestas, mas nunca deixamos de ir.
Íamos, eventualmente a São Lourenço. Tínhamos por lá, uma tia avó. E primos jovens como nós. O gosto da água nunca foi embora. Meu pai guardava no porta luvas, um pequeno copo de plástico retangular. Lembrança de São Lourenço.
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Não sei porque nos tornamos filhos tão complicados.
Nos tempos de São Lourenço  e Guarapari, não havia depressão, e só nos entristecia deixar as meninas em Miracema. 


terça-feira, 10 de setembro de 2019

Coisas do Mundo




"Ai meu Deus do céu, eu fui feliz
Bebendo com você
No Bar Luiz, e hoje quem diz
Que havia um riso permanente em nossa boca"

Aldir Blanc e Moacyr Luz, Encontros Cariocas 


Dentro da Barca, li a reportagem sobre o adeus do Bar Luiz. A flor da pele ficou exposta e o olho começou a marejar. Gosto quando mareja, o que é raro. Quando meu irmão morreu, chorei muito. Fez me bem. Mas não consegui chorar quando meus pais morreram. Ficou retido. Pois bem, hoje chorei na  barca. Deixei correr, não foi um choro convulso.


Tenho recordações viscerais daquele bar. Foi ali que nasceu o amor. Numa noite de comemoração de fim de ano entre colegas da empresa, o que não estava escrito em nenhum caderno, aconteceu. E veio aquele amor e a vida pareceu reascender. Já estava caminhando há tempos para a categoria casmurro, só conseguia enxergar trabalho, filhos e alguma canção.
O amor, apesar de estar comigo no dia a dia do trabalho, nunca deu sinais. Começou no Bar Luiz, com a turma, e no Arlequim, só nós dois.

E voltamos muitas vezes para beber e celebrar a vida. E tanta coisa foi aprendida entre uma ida e outra, que parecia o aprendizado de uma vida inteira. Era lá que esquecíamos as desavenças, que aliviávamos os olhos, que transformávamos as dúvidas em chopp preto.

Foi ali também que tomei um porre de chopp esperando Mário e Marila para assistir Paulinho da Viola no João Caetano. Foi a primeira vez que assisti Paulinho, Lá pelas tantas, gritei a plenos pulmões, cheio de alcool do Bar Luiz: Coisas do mundo, minha nega. A platéia riu junto com Paulinho, que logo em seguida cantou a obra prima.

Em tempos mais magros do que esses, ir ao Bar Luiz era uma ostentação. E íamos, eu e Ronaldo, comer aquele kassler com salada de batatas e conversar sobre a vida. Hoje nosso point é o Damasco. Mas continuamos conversando sobre a vida. 

Hoje quando vou à Casa do Choro, olho a Rua da Carioca e só vejo escuridão e loja fechada. Mas nunca deixo de olhar para o outro lado da rua e procurar o Bar Luiz.
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João Gilberto cantando Sampa. Chorei de novo. Não há nada mais delicado.




segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O desempregado com filhos

"Ele estava desempregado há muito tempo.
Tinha filhos e do trabalho restavam cadilhos. E da fome sobravam rastilhos.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há mais tempo do que sabia, e mesmo se não queria, tinha filhos, aceitou.
Logo ali no cepo a deixou.
A mão, a mão, a mão.
Outra vez despedido de novo procurou emprego.
Só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão, aquela que te resta, a segunda mão.
Ele estava desempregado, tinha filhos, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
E quando um dia lhe disseram; só tens emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há mais tempo do que podia, tinha filhos, aceitou, e baixando a cabeça, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão."
Gonçalo Tavares

Pode ser ouvido aqui: https://www.youtube.com/watch?v=nArCyiaits8
Na falta de uma inspiração para escrever bobagens (ando muito reflexivo e cansado, sem conseguir transportar para o blog qualquer bobagem que seja), copio os poemas que li e gostei de ler nesses últimos anos sem desconversa.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Inventário


"Quarto:
–          uma cama de casal box
–          roupa de cama ( 2 lençóis-casal, 1 edredom, 3 jogos de fronhas)
–          duas cadeiras de plástico
–          um cabideiro
–          um criado-mudo
–          um guarda-roupa duas portas
–          um colchão solteiro
–          ventilador de teto
–          uma escrivaninha desmontada
Corredor:
–          dez prateleiras brancas
–          duas lâmpadas com suporte
–          uma estante com cinco prateleiras contendo 314 livros
Banheiro:
–          box de vidro
–          um chuveiro elétrico
–          um armário de parede-espelho
–          um lustre
Sala:
–          dois quadros
–          uma escrivaninha
–          uma mesa de centro
–          um sofá dois lugares
–           uma estante
–          um aparelho de som
–          um aparelho de telefone
–          uma televisão marca Gradiente
–          um mimeógrafo
–          um interfone “Max-com”
–          um lustre de teto
–          um modem-Wi-Fi, quatro controles-remotos, uma fechadura com chave-tetra.
Cozinha:
–          um guarda-comida de parede
–          um liquidificador
–          uma geladeira
–          um fogão quatro-bocas com botijão e mangueira
–          pia inox com armário
–          copos, panelas, louças e talheres. Duas lâmpadas florescentes com suporte. Um relógio de parede.
–          filtro de água
Área de serviço:
–          um ferro de passar roupas, tábua de passar roupas.
–          uma escada
–          uma máquina de lavar roupas, um tanque, um armário, varais,
Constam:
–          Todas as tomadas e interruptores funcionando.
–          Um coração despedaçado"
Marcelo Mirisola

Prá gravar aqui e não esquecer mais.

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...