sábado, 24 de dezembro de 2011

O amor bateu na porta


"Ela é tão bonita,
que, na certa, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então, de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
ainda que mais não seja
porque sou poeta
e ansiava o futuro
Ressuscita-me,
lutando contra a miséria do cotidiano
ressuscita-me por isso.
Ressuscita-me!
Quero acabar de viver o que me cabe minha vida
Para que não mais existam
amores servis. "

Maiakóvski, O amor, misturei a versão de Caetano com uma outra tradução pra você entender melhor


Miracema está um inferno! Disseram que o Sol só viria em fevereiro, quem disse (?), foram os meteorologistas (?). Niterói já estava assim na quinta. O jeito é ficar dentro do carro ou dentro do quarto, com o ar ligado pra não asfixiar. Não gosto desse tempo quente.
Bom, hoje é véspera do natal. De véspera de natal, só me emociona aquela canção do João Donato, que na realidade se chama Depois do Natal. É um canto triste, de fim de caso. Felizmente não se aplica ao meu natal esse ano, mas ainda dói um pouco ouvir a Nana cantar.
No mais, o natal pra mim sempre foi uma data comercial e estúpida como qualquer data comercial. Mas eu costumo embarcar e compro presentes para os mais próximos (livros e discos invariavelmente), desejo feliz natal e anoiteço.
.................................................
Se disserem pra você que a vida começa aos 40, dê de ombros. É piada de mau gosto. Aos 40, começa a acelerar a cascata degenerativa e a responsabilidade só aumenta. Mas aos 50, com tudo isso e em particular, a vida tem me pregado peças muito agradáveis. A última foi o amor.
Conhecer de novo, um novo amor, aos 50, é algo de sublime, é coisa de Deus. Viver de novo aquele turbilhão de emoções enfileiradas, aquela vontade de estar junto o tempo todo, aquela coisa de frio, de boca seca, de campeonato anual de beijo demorado, molhado, escancarado, é muito bom.
É desse jeito que desejo aos meus dois ou três leitores, um ótimo natal. Que ele brilhe tão intenso quanto o meu amor.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Para inveja dos tristes

Nuestro juramento

No puedo verte triste porque me mata
tu carita de pena, mi dulce amor
me duele tanto el llanto que tu derramas
que se llena de angustia mi corazón.

Yo sufro lo indecible si tu entristeces,
no quiero que la duda te haga llorar
hemos jurado amarnos hasta la muerte
y si los muertos aman,
después de muertos amarnos más.

Si yo muero primero, es tu promesa,
sobre de mi cadaver dejar caer
todo el llanto que brote de tu tristeza
y que todos se enteren de tu querer.

Si tu mueres primero, yo te prometo,
escribiré la historia de nuestro amor
0con toda el alma llena de sentimiento
la escribiré con sangre,
con tinta sangre del corazón.

Vicente Fernandez

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Cinco discos de 2011


"I wish I was in Carrickfergus, only for nights in Ballygrand
I would swim over the deepest ocean, the deepest ocean for my love to find
But the sea is wide and I cannot swim over and neither have I wings to fly
If I could find me a handsome boatman to ferry me over to my love and die
My childhood days bring back sad reflections of happy times I spent so long ago
My boyhood friends and my own relations have all passed on now like melting snow
But I'll spend my days in endless roaming, soft is the grass, my bed is free
Ah to be back in Carrickfergus on that long road down to the sea
And in Kilkenny it is reported there are marble stones as black as ink
With gold and silver I would support her, but I'll sing no more now till I get a drink
I'm drunk today and I'm seldom sober, a handsome rover from town to town
Ah, but I'm sick now, my days are numbered so come all ye young men and lay me down"
......................................................................................................................
Chegou a hora das indefectíveis escolhas. Todo ano é assim. Aqui no desconversa adotei o critério de escolher cinco. Pra 2011, ficou muito pouco, mas não fugirei da ingrata.
Os indicadores para escolha dos melhores discos são: tempo de permanência no Itreco, número de canções migradas para as canções de afeto e a sensibilidade do escriba. Nessa lista aí embaixo, bateram na trave os discos de Amélia Rabelo (A delicadeza que vem desses sons), Fabiana Cozza, Adriana Calcanhoto (O micróbio do samba), Água de moringa (Obrigado, Joel) e Tabare Leyton (La factoria del tango). Qualquer um desses poderia figurar entre os cinco. A escolha foi dura. Enfim, aí vão:
.................................................................
Indivisível, Zé Miguel Wisnik - esse duplo atravessou o ano surpreendendo. Cada dia uma canção virava clássico. quase todas viraram canções de afeto. Refinadíssimas composições com Guinga, Luiz Tatit, Chico Buarque, Arthur Nestróvski e Wisnik cantando bonito.
..................................................................
Chico, Chico Buarque
- um disco enxuto, cheio de altos. Pra mim não tem essa de Velho Chico, que as belas composições passaram. Procure ouvir com calma.
.................................................................
Poesia Musicada, Dori Caymmi - as canções praieiras de Dori, letradas por Paulo César Pinheiro. Pra quem já tinha feito Mundo de dentro ano passado, esse só veio ratificar a excelência do trabalho.
.................................................................
Dois selos e um carimbo, Deolinda - se há algum movimento de renovação do fado, esse deve passar pela música do Deolinda. O grupo faz um fado leve, despojado das dores do fado tradicional. Ignaras vedetas e Um contra o outro são dois achados que não saíram do Itreco em 2011.
..................................................................
Boardwalk Empire, Trilha Sonora - Cada vez que via um capítulo da série, ficava babando com a música. Canções gravadas nos anos 20 por Billie, Sarah, Ella e outros bambas, ganharam versões irresistíveis. E a regravação de Carrickfergus por Loudon Wainwright Jr. já vale o disco.
...................................................................
Monte sua discoteca desconversa: seguem os discos de 2008, 2009, 2010.

Dois miados de gato

"- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
Lã vermelha, leito fofo.
Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira
- Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.
Não, não estou para mais - não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com este enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me!
Deixem-me sossegar...
Noite sempre pelo meu quarto.
As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor
- Pelo menos era o sossego completo...
História! Era a melhor das vidas...
Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
- Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...
De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário!
Bom edrédon, bom fogo
- E não penses no resto.
É já bastante, com franqueza...
Desistamos.
A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim co'a breca!
Levem-me para aenfermaria!
- Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.
Justo.
Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível - por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda
- E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica.
O menino dorme.
Tudo o mais acabou."

Mário de Sá Carneiro, Caranguejola, Paris, Novembro de 2015
Comecei a escrever esse texto do vôo 3904 das 16:30 de ontem que me trouxe de volta ao Rio. Nesses tempos corridos, a mesinha do banco da frente pode ser uma boa alternativa para a palavra escrita. Nesse momento, Martha Wainwright invade meus ouvidos com uma versão desconcertante de All by myself, não aquela baba velha, mas o fox clássico dos anos 20.
Nesse fim de ano, apareceu muita coisa boa no Itreco. A que mais me supreendeu foi Fôlego. de Filipe Catto. Ouvi Gardênia Branca na cantareira e voltei umas dez vezes: é um legítimo tango de zona. Amo os tangos e os bolerões de zona. Filipe canta com uma dor cortante. Já passaram pelo aleatório, com ótimos fluidos auditivos, Adoração (que ouvi no rádio por acaso dia desses) e 2 perdidos do Arnaldo Antunes. Um disco confessional, lupiscínico, lembra o primeiro da Angela Ro Ro, que furou na vitrola em outros tempos.
Devagar, o duplo letrado de André Memahri também vai chegando aos ouvidos. É um duplo difícil, precisa de mais apuro auditivo. Diferente de Filipe, mais fácil de gostar.
Ouço ainda o concerto de Keith Jarret no Rio (sublime!) e um novo de Gianluigi Trovesi e Gianni Cóscia, que achei dando sopa na rede, também muito bom.
...........................................................
Sinto-me bem escrevendo às 4 da madrugada de um acordar nãoseiporque. Acordei pensando em nós, nas surpresas que a vida manda quando menos se espera. Quando já se acostumou ao fogo lento e a se contentar com pouco. Com você, nada é pouco. Tudo é sublime!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Roteirinho para entender a segunda canção de afeto

"Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas."

Fernando Pessoa

Começa com o "Campo de Flores" recitado pelo Paulo Autran, aquela que fala que Deus ou o diabo me deram um amor no tempo de madureza. Eu já tinha lido , mas com Paulo, tenho que admitir, é mais bonito. Além disso, nunca é demais ficar ouvindo Drummond muitas vezes, só faz bem para a alma.
Segue-se a canção "É o amor outra vez", do disco Mundo de dentro, de Dori Caymmi. É a nossa história musicada. Possivelmente eu devo ter me enfronhado na alma do Paulo Cesar Pinheiro para escrever essa letra pra você.
A terceira tem uma história longa e uma relação direta com duas primeiras grandes paixões: o primeiro grande amor e Nana Caymmi. "Mudança dos ventos", de Ivan e Vitor foi um divisor de águas no amadurecimento do meu gosto pela música. Além disso, embalou meu primeiro grande amor. Leitora desse blog, ela vai se achar aqui. Essa história é recorrente, não precisa contar de novo. É alguém que me ensinou a não economizar "eu te amos" quando se ama. E a canção tem a força dos grandes amores.
E daí para "De todas as maneiras", do Chico, aquela que fala solta as unhas do meu coração, ele está apressado, entendeu? Gravei com Bethânia, mas tem outras igualmente interessantes.
E aí "A tua boca", do Itamar Assumpção, postei a letra aqui em baixo, não é preciso mais nada.
"Vem ver", do disco novo de Adriana Calcanhoto, é um samba revelação: por você, faria tudo.
A sétima é um canto triste: "Chuva", gravado por Mariza. Simboliza todos os desesperos do amor impossível.
A oitava é "Lenha" do Zeca Baleiro. Escolhi a gravação da Rita Ribeiro, porque acho a mais cortante, mas também há outras.
E aí aparece o angolano Bonga com "Mona ki ngi xica". Conheci essa música no filme Amores possíveis de 2001. Ela embala uma das cenas mais fortes, entre Carolina Ferraz e Murilo Benício. É pra viajar entre lençóis.
Nessa linha, gravei também "Féte au village", dos ceguinhos do Mali, Amadou e Mariam. Outra viagem.
Uma outra versão de "A linha e o linho" do Gil pra você não esquecer do nosso projeto de vida.
Por fim, o "Texto para uma separação" de e com Elisa Lucinda. Irracional como todas as paixões.



domingo, 18 de dezembro de 2011

Muitas noites numa noite

Eu era moleque da Rua das Flores. Ao lado da minha casa, ficavam na sequência: a casa da minha bisavó (Marieta), a quitanda do Seu Said, a casa da Dona Odete e o Clube Operário. No Clube Operário, reinava o Botequim do Amado, sua pastelaria de vento, sua sinuca de bico, seu jeito de amigo. Não foi difícil ficar amigo. Mais tarde, amigo e frequentador. Mais tarde, sede do Bloco Carnavalesco Reminiscentes do Chapéu Coco, que reinou no carnaval miracemense no final dos anos 70. Mais tarde, padrinho dos meus três casamentos: um na igreja e dois de fé. Acabo de saber que me deixou de vez. Tento acreditar que vai ser a mesma coisa sem ele, mas é difícil. O mundo, o meu em particular, acaba de perder um amigo universal.
Desrespeitosamente, não fui ao velório, mesmo estando em Miracema. Preferi lembrar dele como da última vez que o vi no seu último botequim, próximo ao Campo de Aviação há cerca de dois anos. Depois as coisas foram atropelando o dia e acabei não indo mesmo: Chicó e Luisa até as 4, a casa do Jadim às 4 e 30, overdose de pasteis da Dona Ricarda às 5.
De noite fomos à Pádua pra ver os meninos tocar. Entre um choro e outro, um desespero e outro, fiquei ali dividindo a noite com meus amigos, mas dividido do que dividindo.
Em casa não foi diferente, com Chicó cubando o tempo todo no meu cangote.
A noite passava estranha como sentir dor num pé amputado.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Mofando na Serra dos Órgãos


A tua boca me dá água na boca
Ai que vontade de grudar uma na outra
E sugar bem devagar gota por gota
Veia-flor beijando a flor ou borboleta


A tua boca me dá água na boca
Ai que vontade de rasgar a nossa roupa
Vamos pra qualquer lugar praquela gruta
Pra qualquer quarto de hotel praquela moita

A tua boca me dá água na boca
Ai que vontade de gritar é uma bomba
Acho que vai rebentar desgraça pouca
Azar eu vou me matar na sua boca

Itamar Assumpção, Tua boca


A morte de Jimmy Darmody no último episódio da segunda temporada de Boardwalk Empire fez um estrago na série que será difícil recuperar. A relação antagônica entre Jimmy e Nuck era para mim, o ponto alto da história. E Michael Pitt construiu um Jimmy fascinante: controverso, amargo, vítima de mãe incestuosa e manipuladora. Boardwalk vai ficar órfão do seu melhor personagem.
Não é, por exemplo, como a morte de Rita (Julie Benz) em Dexter na quarta temporada. É possível que tenha ficado um amargo sentimento pela morte de Rita, mas é algo esperado na história de um serial killer.
..................................
Ontem levei praticamente o dia inteiro e parte da noite pra chegar em Miracema. Um caminhão tombado na chegada de Teresópolis, muita chuva em todo o trecho e meu record negativo: oito horas e meia de viagem. Perdi a conversa no Bunda de Fora e o samba na Capivara, mas cheguei vivo.

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...