quinta-feira, 29 de março de 2012

Sorri seus dentes de chumbo


Meu domingo começou com Sentidos do amor, o filme inglês em que os personagens de Ewan Mcgregor e Eva Green experimentam uma perda epidêmica e paulatina dos sentidos, um ensaio sobre a cegueira ampliado (1A).
Saí de casa meio dia pra trabalhar, comi um double cheese no Bobs e dei de cara com a porta do trabalho fechada. Peguei um táxi e fui para o Unibanco Arteplex assistir Shame, mais "solidãoélarva" impossível (2A).
Depois fui pro Odeon assistir ao documentário sobre a vida de Raul Seixas. Cresci ouvindo Gita, Krig ah!, bandolo e principalmente, Novo Aeon, os três tocaram muito na vitrolinha Philips. Foi bom voltar a ter contato com essas canções, e o filme é bastante didático (2A).
Por fim, fui ao CCBB assistir Chico César interpreta Torquato Neto. Gostei demais dele cantando (e trazendo de volta), três canções que não são de Torquato: Adeus segunda feira cinzenta (Zé Ramalho), Tudo outra vez (Belchior) e Dor Elegante (Itamar e Leminski). Além de ótimo compositor, Chico é um leitor refinado de canções alheias, De Torquato, gostei da versão triste de voz, violão e sanfona de Pra dizer Adeus.
Mas a cereja do bolo ainda estava por vir no final da noite. Assisti ao argentino Medianeras (3A), meio documentário, meio ficção, mistura Buenos Aires sem glamour, com internet e pra variar, com solidão.

domingo, 18 de março de 2012

Todos que somos eu, meus braços, minhas pernas, meus sentimentos e minha vontade

"Se queres ser feliz
Como me dices
No analices
No analices"

Só quem leu o "Amanhecer em Copacabana" de Antônio Maria vai entender esse título. Mais ou menos assim que me sinto na maior parte do tempo. Algo parece ter estacionado e não sai mais do lugar. Só o tempo é que, invariavelmente, passa.
Tento aproveitar o que posso. Ainda na sexta, fui com Luisa assistir a Banda Isca de Polícia, que acompanhou Itamar Assumpção por muitos anos. Um privilégio! Como cantam Suzana Sales e Vange Miliet! E Arrigo Barnabé recitando o Relógio do Rosário, do Drummond, e cantando, só ao piano, a Noite Torta do Itamar foi tudo de bom. Tudo de bom ver gente da idade de Luisa ou um pouco mais, lotando a platéia no CCBB para celebrar o compositor. E ouvir canções que já tinha esquecido e outras que nem tinha dado qualquer atenção. Itamar não acaba nunca. Cada dia se descobre algo novo da sua genialidade.
Vi Mônica Salmaso no Espaço Cultural Furnas repetir as canções do cd Alma Lírica Brasileira com Nelson Ayres e Teco Cardoso. A excelência, por vezes, é enjoativa, mas Mônica ainda tem muito crédito. Que venha logo o disco com Guinga
E vi, um dia desses no Arlequim, uma cantora nova chamada Gabi Buarque. Tem personalidade, compõe bem e canta melhor ainda. Melhor mesmo foi a participação improvisada de Áurea Martins, cantando com Gabi, o Medo de amar do Vinícius. De arrepiar.
E ontem participei do casamento de um dos meus dois ou três melhores amigos. A essa altura da vida, já não esperava mais por casamentos. Mas Jadim e Teresa vieram me desmentir e fizeram uma bela comemoração. Que continuem felizes como sempre foram.
Hoje, voltei de Miracema ouvindo velhas canções de afeto. Outras que já nem me lembrava como no show, tocaram fundo o coração cansado. Nada poderia ter sudo mais reconfortante do que ouvi-las.
Minha alma quer salvação e às vezes encontra aconchego numa conversa qualquer com velhos amigos, numa velha canção de afeto ou num poema de Drummond. E, naturalmente, em Luisa Braga Lima.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Fim

"Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro."

Mário de Sá Carneiro

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Obliviantes


Preciso atualizar esse blog antes que meus três leitores me abandonem.

Antes que eu esqueça, alguns filmes que vi esse ano, além de As canções:

1) Dois coelhos - vi no Odeon antes do show do Geraldo Azevedo. Tem o ritmo acelerado dos primeiros filmes de Guy Ritchie. E tem Alessandra Negrini, estonteante como sempre. 1A
2) Precisamos falar sobre o Kevin - pra quem gosta de cinema como distração e relaxamento, fuja desse. Choca o mais incendiado dos espíritos. E tem Tilda Swinton, excepcional como a mãe do menino. 1 A.
3) O artista - é, como já se tem dito por aí, uma aula de amor ao cinema. Bons desempenhos, boa direção, é filme pra Oscar. 2A.
4) A separação - delicado, envolvente, mexendo em questões humanas doídas, o filme iraniano quase empata com As canções no quesito de melhor do ano até agora. Vi ontem, no simpático Sesc Laura Alvim. 3 A.
5) Roubo nas alturas - muito ruim. Fuja! 1 C

Livros que li:

1) Agora é que são elas, Paulo Leminski - tirado do limbo pelo editor, não chega a ser uma obra prima por tudo que Paulo escreveu e traduziu, mas é muito bom de ler.
2) Se um de nós morrer, Paulo Roberto Pires - é um livrinho pequeno, mas é tão chato que não consegui acabar. Gosto do Paulo cronista do falecido No mínimo, depois da Bravo, mas do livro, não gostei não.
3) Marenostrum, Fauzi Arap - estou lendo, tudo que o Fauzi escreveu é muito bem feito.

Semana que vem eu escrevo dos discos.

Recordações de um velho blogueiro: lembrei hoje desse texto que escrevi em 2009, e deu uma saudade danada do Mário.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Para vivir

"Hoje não passa de um vaso quebrado no peito"

Toninho Horta, Beijo Partido
"Muchas veces te dije
que antes de hacerlo había que pensarlo muy bien
que esta unión de nosotros le hacía falta carne y deseo también
que no bastaba que me entendieras
y que murieras por mí
que no bastaba que en mis fracasos
yo me refugiara en tí.

Y ahora vez, lo que pasó
al fin nació,
al pasar de los años
el tremendo cansancio
que provoco ya en tí
y aunque es penoso, lo tienes que decír.

Por mi parte esperaba, que un día el tiempo se hiciera cargo del fin
si así no hubiera sido yo habría seguido jugando a hacerte felíz,
y aunque el llanto es amargo piensa en los años que tienes para vivir
que mi dolor no es menos y lo peor
es que ya no puedo sentir.

Y ahora tratar, de conquistar con mano afán,
este tiempo perdido, que nos deja vencidos,
sin poder conocer,
eso que llaman.....
amor, para vivir.

Para vivir......... "

Pablo Milanes

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Recados de meia linha

"É doido varrido quem uma vez disser
Que esteve apaixonado por uma hora
Não que o amor tão cedo se deteriore
Mas porque pode devorar dez em menos tempo
Quem me acreditará se eu jurar
Que sofri dessa praga por uma ano?
Quem não riria, se eu dissesse que vi
Um cantil de pólvora arder durante um dia?

Ah, que ninharia é um coração
Se alguma vez cai nas mãos do amor!
Todas as outras dores cedem lugar
A outras dores, e pouco ocupam por si próprias.
Elas chegam até nós, mas o Amor absorve-nos
Engole-nos e nunca mastiga
Como fogo de metralha, mata fileiras inteiras.
Ele é a lança tirana, nossos corações à ralé.

Se assim não fosse, o que aconteceu
A meu coração, da primeira vez que te vi?
Trazia um coração quando entrei na sala,
Mas da sala parti, sem levar nenhum.
Se tivesse fugido para ti, sei
Que teria ensinado o teu coração a mostrar
Mais clemência para comigo: mas, infeliz!
Ao primeiro toque, o Amor estilhaçou-o como vidro.

Porém, nada em nada pode se converter,
Nem qualquer lugar ficar de todo vazio,
Por isso penso que no meu peito, estão ainda,
Todas essas partes, embora desunidas;
E agora, como espelhos partidos que mostram
Uma centena de faces menores, assim os cacos
Do meu coração podem gostar, desejar e adorar.
Mas depois de tal amor, não mais podem amar.'

John Donne, O Coração Partido.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Momento numa cantina

"Eu não devia te dizer
Mas essa Lua
Mas esse conhaque
Botam a gente comovido como o diabo."

Drummond, Poema de sete faces

É só uma tentativa de escrever, pois trata de um texto que não pode ser escrito. Trata de um texto que só pode ser vivido.
Por um momento, os dois deixaram os receios de lado, desataram os nós, esqueceram as angústias, e resolveram ser apenas um. Um de dois que se falavam por olhos, bocas, mãos, gestos e palavras.
O condão de falar pelos olhos só é facultado aos loucos de amor. Para quem não experimentou, é como se ver pelos olhos do amor e não ser dono dos próprios olhos. É verso molhado, que remete à orvalho, cachoeira, riacho, brisa do mar. Não pode ser escrito. Não há descrição para a palavra olhada. E, no entanto, não há declaração mais pungente, nem entrega mais intensa. Dia desses num outro momento num café, a garçonete não resistiu à intensidade dos olhos e ficou tão comovida, que ofereceu um chocolate. Cortesia de quem sabe ler dois olhos entregues.
E houve o vinho, o violão que tocava aquela canção do Danilo, O bem e o mal (eu guardo em mim dois corações...), e a noite niteroiense parecia ser só de dois.
Traduzir o amor (?), nem Bandeira, nem Drummond, nem Vinícius, nem Cecília. O amor daquela forma pura e clara é intraduzível. Só posso dizer que tudo que sei de felicidade compartilhada, de paixão a flor da pele, de vontade de morrer para guardar e ao mesmo tempo de viver cada minuto, eu vivi ali, nas horas eternas daquela cantina.

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...