sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Evidências

Eu assisti o concerto de João Gilberto no Teatro Municipal em 2008 com a admiração e  fascínio do menino que ouviu o Amoroso centenas de vezes seguidas.

Vi Luis Melodia no Teatro da UFF depois de um atraso de 3 horas fazer um concerto intimista de voz e violão de comover .

Tive a chance de assistir Gal Costa entrar pela porta da frente do Canecão com o Olodum e ficar deslumbrado com sua voz e seu carisma.

Eu assisti Nana Caymmi, Djavan e Fátima Guedes no Teatro Leopoldo Fróes em Niterói nos tempos do Projeto Pixinguinha em shows que ficarão comigo para sempre.

Eu vi Ana Moura, Mariza e Gisela João cantarem seus fados no Rio e me emocionei em cada canção.

Eu vi Eduardo Gudin e Celso Viáfora no Rio, dois compositores paulistas que fazem parte do seleto grupo de 3 ou 4 dos melhores compositores de samba vivos.

Eu fui a Rosal e vi os melhores chorões se apresentarem em jams inesquecíveis.

Desculpe, mas eu tenho todo direito de achar "Evidências", uma boa merda.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Playlist nº 2

 




Partidas e chegadas são a história fiel da minha bipolaridade. 

O evento musical do ano foi o show de Chico e Mônica no Vivo Rio, que depois virou streaming e agora virou disco e talvez também ganhasse o troféu Desconversa de disco do ano, não fosse o Selo Sesc ter lançado um álbum de inéditas de João Gilberto, um tributo à Wilson Batista, um álbum com canções de Carlos Lyra, um Hermínio novinho, com poesias maravilhosas recitadas por Fernanda Montenegro. Então parabéns para o SESC por perpetuar essa dádiva de podermos ouvir nossas músicas do jeito que quisermos. Infelizmente as edições saem em pequeno número. A de João Gilberto tive que esperar a segunda leva e mesmo assim quase perco. Disseram que o Japão comprou tudo. Faz sentido.

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Edu Lobo comemorou 80 anos com disco e show na Sala Cecília Meireles. O disco e o show contaram com  Mônica Salmaso, Zé Renato, e dos semi novos (e ótimos) Vanessa Moreno e Ayrton Montarroios. Gosto de Edu pela parceria com Chico Buarque e pelo disco Edu e Tom, Tom e Edu, que reputo como um dos 6 ou 13 melhores discos da MPB. O show foi bom para relembrar o Tango de Nancy, interpretado por Vanessa Moreno de forma correta, mas longe da original de Lucinha Lins e o Canto Triste, interpretado magistralmente por Mônica Salmaso, mas desgraçadamente fora do disco. Jacob, que não gostava de Edu, ficou emocionado quando ouviu o Canto Triste. 
Mas há um lado complicado em Edu Lobo. Em 2023, acabou patrocinando mais uma polêmica ao afirmar que o Clube de Esquina era mais sofisticado do que a Tropicália. Independente dos méritos, não faço idéia de onde Edu tira essas coisas da cartola.
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Vi Lucinha no Teatro Rival cantar lindamente com Zé Luiz Mazziotti em homenagem a Leni. E descobri que a Universal incluiu o Sempre sempre mais no catálogo do spotify com ótima sonoridade. Uma pena não terem lançado em cd..
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Na sala, vi também Wisnik lançar Vão. Toda vez que ele vem ao Rio, eu corro atrás .Bom demais!
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Na questão tecnológica, a grata surpresa foi o Samsung Galaxy S23 ultra. É melhor do que o Iphone em vários aspectos. A tela tem um visual mais claro (só leio os jornais e livros nele), a máquina fotográfica é melhor, a canetinha faz a diferença. Para o Iphone só resta mesmo a organização e a discoteca, que ainda pode ser digitalizada, mas infelizmente a apple a cada faz uma besteira com nossa discoteca pessoal a cada atualização.


quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Playlist nº1

O importante não é o chocolate, mas com quem você compartilha.

Wonka


Gostei muito de Assassinos da Lua das Flores e de Openheiner, mas o filme que fez diferença esse ano foi Wonka. 

Domingo, fui procurar um filme qualquer para ver com meu filho e dei de cara com Wonka. Até ali, não sabia nada da refilmagem. Nem é bem uma refilmagem, é um novo filme com o mesmo Willie, muito bem interpretado por Thimotee Chalamet. O elenco se dá ao luxo de ter Olivia Colman e Hugh Grant como coadjuvantes em ótimos papéis. Wonka é uma lição sobre amizade, companheirismo, resignação e chocolate de dar água na boca. 

No cinema com meu filho, lembrei dos filmes que via com meu pai. Eu era o preferido do meu pai para ir ao cinema nas segundas, quando repetiam o filme de domingo. Naquela época, em que eu tinha a idade do Lucas, meu pai já sabia que eu era anormal. Que música, letra e palco me contaminavam de forma diferente dos outros. Mais tarde eu detectei essa anormalidade nas minhas filhas. E a história foi a mesma. 

Hoje eu tento contaminar meu filho com crônicas do Juca e do Tostão. Essa geração resiste à boa leitura, mas ainda há esperança.

Minha paixão pelos livros também faz parte desse quadro clínico. Meus livros se dividem em três categorias: os que li, os que não li e os que provavelmente nunca lerei. Não importa, é importante tê-los. Um dia quem sabe? Tento contaminar meu filho com os melhores cronistas da Folha e do Globo, que leio todo dia na Barca. Essas novas gerações não têm o hábito de ler do jeito que líamos. Seleciono as melhores crônicas esportivas, principalmente Juca e Tostão, e mando. Acho que ele gosta.

O segundo filme do ano para mim foi Elis e Tom, que detalha a contrução de um dos álbuns mais emblemáticos da história da música brasileira.

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Entre os tênis do ano, dois superaram qualquer expectativa no quesito conforto: um brooks cascadia amarelo e um adidas NMD R1 preto. São leves e facilitam muito minhas poucas caminhadas. O amarelo é mais bonito.


quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Um bom domingo





Minha filha me comove pela sua humildade e pela sua resiliência. Esteve aqui hoje de manhã no meu trabalho e conversamos um pouco. Aconselhei-a a voltar de metrô, mas ela retrucou: pode deixar, pai. Eu vou a pé mesmo. Insisti, está muito calor e ela finalmente concordou, não sei se somente para agradar. E se foi de mim, ela e seu chinelo franciscano. E eu não consegui ficar sem marejar os olhos pelo carinho e pela ternura que Laura demonstra quando vem, mesmo ficando uns poucos minutos. E que qualquer pai se sente o mais gratificado dos pais por ter filhos assim. Queria fazer mais por ela. Acredito que seja feliz com suas escolhas, espero que seja. Queria que soubesse também que estarei aqui por ela, sempre.

A compostura da humildade se transforma quando ela canta. Está se tornando uma bela cantora lírica e é bonito quando ela solta o Carlos Gomes da voz. Fico maravilhado olhando e ouvindo.

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Passei um ótimo fim de semana em Miracema, acompanhado dos melhores amigos e de Luisa. Muita conversa boa, comida da melhor qualidade, e esse duplo arco íris em Além Paraíba.

No domingo, vim cedo para almoçarmos em família. Quis chegar a tempo de termos uma tarde toda pela frente. A viagem deu tudo certo, com uma pequena retenção em Pirapetinga, o que é de praxe. Valeu a pena. O Rio não estava com esse calor infernal de hoje e o cair da tarde foi sereno e intenso ao mesmo tempo. Um bom domingo de paz.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Eu e meu filho



Venho de uma família de vascaínos, mas acredito que já tenha nascido torcedor do Fluminense. Meu pai não ligava, achava até interessante um filho tricolor, e me contava histórias do goleiro Castilho e dos zagueiros Píndaro e Pinheiro. 

Comecei minha carreira de torcedor no radinho de pilha, ouvindo Jorge Curi, Waldir Amaral, João Saldanha e Mário Vianna, só para citar algumas referências. Em 1970, o Fluminense tinha Félix e Marco Antônio na seleção brasileira e acho que foi ali que eu peguei gosto pelos jogos. 

Acompanhei grandes times do Fluminense no radinho, mas nunca vou esquecer daquele montado pelo revolucionário Francisco Horta, que trouxe Rivelino, Edinho, Gil, Doval, Dirceu, Paulo César Caju e os Carlos Albertos Pintinho e Torres. Era magia pura ouvír a máquina jogar.

Em 1995, quando o Fluminense foi campeão carioca com gol de barriga do Renato Gaúcho, eu tinha uma antena Santa Rita na minha casa na Rua do Sapo em Miracema. Só tinham duas Santas Ritas na cidade: a minha e a do Clube XV, de tal modo que o jogo só passou lá em casa e no clube. O resultado foram 20 flamenguistas empilhados no sofá da sala e eu esmirrado num canto torcendo. Quando o Renato fez aquele gol, foi uma emoção absurda, indescritível, de nunca esquecer.

Passei do rádio para a televisão e fiquei por aí. Até que meu filho veio morar comigo.

Até então tinha ido ao Maracanã três vezes. Uma com meu pai e meus irmãos da qual não me lembro o jogo. Quando o Fluminense foi campeão brasileiro em 1984 em cima do Vasco. Fui com meu irmão vascaíno e cada um ficou numa torcida. E por último, quando o Fluminense foi campeâo carioca ganhando do Volta Redonda em 2005.

Pois agora virei sócio arquiba 100% do Fluminense e acompanho meu filho sempre que posso. Entre atropelamentos, quedas, insolações e outros acidentes, compartilhamos da mesma emoção de estar ali na leste inferior torcendo pelo tricolor. 

Meu filho mudou meu modo de torcer. Deixei de ser um mestre do sofá para ir ao estádio. 

Nem posso detalhar as inúmeras vezes que fomos, mas em especial a goleada sobre o Flamengo que deu o Campeonato Carioca ao Fluminense. Na correria, fui atropelado por uma moto e mesmo assim fui ao jogo com a perna direita ferida e com gelo na perna, oferecido por camelôs e vendedores de rua.

Hoje eu tenho todas as camisas do Fluminense, e mais os bonés, os chaveiros, as medalhas, sou um freguês assíduo da loja do Fluminense no Plaza Shopping. 

Quando viajo com ele, vamos primeiro aos Estádios conhecer a história dos times. Somos parceiros nas alegrias e nas derrotas.

Não dá para não comentar sobre como vibramos juntos com a conquista da Libertadores. Começou naquele jogo com o Inter no Beira Rio, que vimos em casa. Dando a derrota como certa, acabei tomando meu coquetel molotov para insônia no intervalo do jogo. Quando o Fluminense fez 2 a 1, eu já estava meio babando Nunca vi uma vibração sonolenta, mas Chicote não deixou que eu dormisse. E depois a decisão, ele no Maracanã eu em casa, e parecia que havia uma transmissão de ondas de vibração nos momentos mais cruciais do jogo, do gol de Cano ao gol de Kennedy, estávamos inpreterivelmente juntos.

A conquista da libertadores coroou um ano de convivência, respeito e afeto de mútua reciprocidade. Conhecendo meu filho, me conheci um pouco melhor e gostei do que conheci. 

domingo, 22 de outubro de 2023

Alone again

Os meninos são um desastre com a casa no fim de semana. É possível que tenham puxado o pai. Não é incomum encontrar, no final do domingo, a pia da cozinha cheia de copos, pratos, talheres e sujeira, o quarto dos dois em frangalhos e a sala cheia de resto de doces, tigelas e outros restos.

Os meninos são um desastre com a casa no fim de semana, mas como fazem falta! Fins de semana sem eles e como este, são verdadeiros abismos. 

A primeira armadilha para o fim de semana solitário é ficar em casa. Comecei a planejar meu fim de semana na sexta. Na sexta decretei que queria ser Carlinhos Lima e olhei o roteiro dos filmes. Meu pai era apaixonado por cinema e ia a Cinelândia de sala em sala toda vez que vinha ao Rio.

Comecei na sexta mesmo com O protetor 3. O filme é longe o pior dos protetores. Perdi a matança inicial porque confundi no início do horário da sessão e passei na Americanas para comprar chocolate e água. Uma passada na Americanas é essencial para quem não gosta de pipocas e voltarei a comentar sobre o assunto no final. O filme é caricato, abusa da violência e Denzel Washington que reputo como um dos grandes atores da minha geração, virou um canastrão. Nem a belíssima Sicília como cenário salva o filme.

Sábado teve sessão dupla na Reserva Cultural. Adoro o espaço, mas não tenho frequentado ultimamente. Os cinemas são pequenos e aconchegantes, as poltronas confortáveis, o som muito bom. Fiquei triste porque a Livraria Blooks fechou. A Blooks era ampla e refrigerada e ótima para espiar e comprar livros e discos. Era parte do motivo pelo qual íamos a Reserva.

Comecei assistindo Meu nome é Gal. O filme não é mais do que um média metragem com Gal muito bem interpretada por Sophie Charlotte, que atua, canta e dubla muito bem. Mas só pega os primeiros anos, deixando a impressão de que terá uma continuação. Vale mais como um documentário sobre a repressão militar, com boas atuações dos atores que interpretaram Caetano, Gil, Torquato e principalmente, Guilherme Araújo.

Na sequência de Gal, vi Assassinos da rua das flores, novo filme de Scorcese. É muito bom ver Scorcese, De Niro e Di Caprio trabalhando juntos novamente. Eles fazem um filme de mais de 3 horas passar mais rápido do que médias metragens  entediantes (e nem estou falando de Meu nome é Gal). A tragédia dos índios Osage e a criação do FBI é filme para muitos Oscars.

Em casa, assisti (de novo), Melhor é impossível (disponível no Prime). Jack Nicholson caricato e brilhante merece ser visto muitas vezes. E leio, com enorme prazer, Tempos vividos, sonhados e perdidos, do craque do futebol e da crônica Tostão. O Mário era apaixonado na escrita do Tostão, eu achava meio chato. Hoje abro a Folha primeiro para ler o Tostão.

E hoje ainda tem Elis e Tom na Reserva.

Sobre nossas idas ao cinema em família, as crianças adoravam pipoca, mas o meu lado sovina achava um absurdo aquela pipoca de cinema. Eu sempre argumentava que se podia comprar quilos de milho de pipoca. Foi daí que nasceu a história da passadinha na Americanas. O mais que comprássemos não chegava perto da pipoca no Cinemark. Virou hábito. Hoje só o Lucas faz questão da pipoca no cinema. Tem muito filme que ele dá mais importância à pipoca do que ao filme.

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Elis e Tom é um excepcional documentário sobre a criação de um dos discos mais emblemáticos da música popular brasileira. Devia passar nas escolas.

Em três dias, fui mais ao cinema do que no ano todo. E adorei voltar ao Reserva, mas achei tudo muito vazio. Espero que não esmoreça.



quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Roteiro inútil

Se vc estivesse aqui comigo,eu te levaria ao Damasco na Rosário, onde se faz um homus muito parecido com o do Seu Abdo, que comíamos invariavelmente aos domingos. Iríamos ao Capela comer um cabrito a portuguesa, que você apreciava tanto. Passearíamos pelo velho centro e pela Colombo, pelo Real Gabinete Português de Leitura, pela estátua do Pixinguinha na Rua da Travessa, pelo Paço do Império. 

Eu te levaria a conhecer o Mosteiro de São Bento, tão afeito à sua fé inabalável. E aprenderia um pouco mais do tanto que você me ensinou e eu desaprendi.

Se ainda pudesse estar com você, eu levaria a cabo meu sonho de te dar de presente a minha S10, que você gostava tanto e nunca pode ter. Quantas vezes estive na esquina da Rua das Flores e a ideia me ocorreu? De que vale tudo isso agora, se não tenho mais nem você nem a S10?

E viajaríamos o quanto pudéssemos, pois viagem e cinema eram pela ordem, as coisas que você mais gostava de fazer. Eu te levaria aos lugares que mais gostei: a passear pelo Porto Madero, navegar pelo Rio Tejo, caminhar pela Paulista, andar de gôndola em Veneza. E assistiríamos o fado em Lisboa, o tango em Buenos Aires, ao choro no centro do Rio. 

E passaríamos o domingo de cinema em cinema, assistindo aos lançamentos do mês, preferencialmente os faroestes e os filmes policiais que você esfregava as mãos em cada cena que te agradava.

E depois sentaríamos num café para conversar. Porque você, como eu, preferia o silêncio, preferia a pausa entre as palavras, mas uma vez ou outra, abria o verbo e falávamos muito.

Se estivesse aqui, eu faria o que pudesse para corrigir a minha omissão, a minha indiferença e o meu egoísmo. Eu te diria o quanto eu senti ter te perdido sem sequer ter a chance de te dar um último abraço.

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...