quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Camarão em Muriaé

Embarco para São Paulo sabendo que depois de amanhã estarei de volta sofrendo mais com a Ponte Rio Niterói do que com a Ponte Aérea. Nos dias de hoje, mesmo com a espera, o checkin e o embarque, fica mais rápido ir a São Paulo do que ir a Niterói. Principalmente depois das 18.

Embarco para a terceira viagem depois de duas que representaram duros contrastes: a primeira (Rosal), muito leve; a segunda (Angra) muito pesada Lembro que chegamos a Rosal e fomos passear pela rua a procura de predicados da culinária local. Em Angra, fui direto para o quarto e só saí dali para o evento e para comer. Foram dois finais de semana opostos entre si.

Em Rosal a calmaria dos amigos, a comunhão com a boa música, a noite virada e mesmo assim, bem dormida. Em Angra, trabalho e a tentativa de me harmonizar com meus colegas..

Depois de anos indo a SP toda semana (antes da pandemia) e achar inclusive que um dia ficaria por lá, retorno agora com uma ida mensal e pouco necessária. Desenvolvemos, eu e as meninas que trabalham comigo, uma parceria de trabalho robusta e afetiva, que torna meio sem sentido essa ida. .

Ao meu lado no vôo, a moça lê A arte de ligar o foda-se. Lembrei da minha única leitora, que adora livros de auto ajuda.

Em SP, além de trabalho, tem o pastel de nata da Quinta do Marquês, tem a Pop's Discos, tem a amizade da Verinha e tem o frio. Com o passar dos anos, virei um homem que sente muito frio. Atrapalhou muito o fato de o quarto escolhido pelo Hotel Central Park não tinha ar quente. Passei frio na primeira noite, mas na segunda me colocaram num quarto quentinho.

Não importa se barca, uber ou avião, tenho ouvido uma playlist que começa com Dori Caymmi - Dos Navegantes, A moça da taça, Rio Amazonas. Depois, Vital Farias, Era casa, era jardim e Caso você case, depois Nana, Confissão. Não sei de onde vieram as canções. É como se fosse um aleatório consciente Quando estou feliz, coloco Itamar e as Orquideas para alegrar meus ouvidos. 

Não fui ao Rock in Rio ver os sertanejos (??), acho que apelaram, e sonho que na próxima semana, consiga ir com meus amigos a Muriaé, comer camarão e torresmo de traíra. Amo as coisas simples. 

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Não sei dançar

" Uns tomam éter, outros cocaína

Eu já tomei tristeza, hoje eu tomo alegria

Tenho todos os motivos, menos um de ser triste

Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria..."

Manuel Bandeira


Eu sei, eu sei, eu vi Antonio Nóbrega esse ano (que honra!) também vi Caetano e Bethânia. Vi artistas que provavelmete não verei mais. Mas nenhum desses me impedem de reconhecer que o Festival de Sanfona e Chorinho de Rosal foi o acontecimento musical do ano.

Rosal é uma cidadezinha na ponta norte do estado, um finzinho de Mundo, onde reina a paz e a música. Não há brigas, nem roubos, você pode deixar seu carro na rua em qualquer lugar permitido. Não há pousadas, a gente costuma ficar nas casas dos que lá habitam e alugam seus quartos para a festa. A culinária não é lá essas coisas. Nada disso tira o charme e o encanto do festival. 

As atrações, de altíssimo nível,  se revezam até meia noite e eu não me imponho limites: de maneira corrente, fico até o último show. Tento dormir o que posso e no sábado já estou pronto para a sanfonada. A sanfonada é um evento à parte. Velhos sanfoneiros tocam e dançam pelas ruas de Rosal. Não há como não lembrar do Mário e da Marila, de como eles estariam felizes de estar aqui.

São dois dias para reencontrar e abraçar velhos amigos queridos que não vemos nunca a não ser em Rosal. E de estreitar mais ainda a convivência com os que a gente já considera irmãos. Esse ano, por um contratempo, as meninas não vieram. Pena!

Há espaço inclusive para os que não gostam de choro, que ficam nos arredores do palco bebendo e conversando. Não é, evidente, o meu caso. Eu procuro, com respeito e admiração acompanhar cada show com o maior envolvimento possível. E filmo e fotografo como se fosse um repórter.

Nesse mundo perverso em que você nunca sai de casa sem saber se volta bem, Rosal é um oásis de tranquilidade, boa música e uma comunhão de amigos que pouco se vê nos dias de hoje. 


terça-feira, 27 de agosto de 2024

Nada tenho de meu, mas prefiro viver sozinho

 Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,

Serviram-me o amor como dobrada fria.

Disse delicadamente ao missionário da cozinha

Que a preferia quente,

Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.

Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.

        Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,

E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?

Eu não sei, e foi comigo...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,

Particular ou público, ou do vizinho.

Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.

E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,

Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram

Dobrada à moda do Porto fria?

Não é prato que se possa comer frio,

Mas trouxeram-mo frio.

Não me queixei, mas estava frio,

Nunca se pode comer frio, mas veio frio.


Há muito tempo não sinto o frio dessa última noite no Rio. Depois do xixi da madrugada, não consegui dormir mais direito. 

Passei um fim de semana próximo de perfeito em Miracema. Embora expremido entre uma sexta e um domigo, deu o caldo que tinha que dar. Revi amigos, comi bem, dormi o esperado, foi um fim de semana de poucos agravos. Meus olhos cegos olharam bem, minha lombar não deu muito sinal de dor, enfim, gostei. Não espere muito do fim de semana e ele sempre dá algo. É assim que concluo, agora distante dele. 

A semana começou acelerada, cheia de reuniões, de trabalho acumulado, e hoje ainda é terça. Aí os problemas aparecem. Os olhos enxergam mal, os dentes não deixam comer direito, o cócix limita o tempo de ficar sentado. Quando podia trabalhar na plenitude dos meus anos, não tinha nada disso. Agora tudo meio que dói. Eu levanto e sigo em frente.

Nas vésperas dos 63, não quero muita coisa, além de viver o suficiente para cuidar dos meus filhos, dar a eles a atenção que merecem, e um pouco de paz e conforto. Simples assim. 

E ontem na volta para Niterói, coloquei Itamar nos ouvidos, e atravessei a baía muito bem comigo mesmo. Itamar esteve ausente por um bom período. Mas ontem, retornei com força aos discos das orquídeas. E tenho ouvido muito a canção Maria, nome formoso, de Aldir Blanc e Zé Reinaldo Marques, uma descoberta . Mandado pelo próprio Zé Reinaldo, produtor de Feranado Pelon, é Aldir puro.

Ontem de noite vi no Canal Brasil, Dorival Caymmi, um homem de afetos. Para quem ama Caymmi e filhos, vale cada minuto.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Mais um domingo perdido

"O pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau e pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhadaputa
de fazer chover
em nosso piquenique."

Leminski


Minha filha mandou o ingresso. Fui pego de surpresa, Ando com medo de sair de casa à noite, ainda mais para ir à Barra da Tijuca. Tive esperança que, assistir a um show de Caetano e Bethania, era para afugentar qualquer dos medos. Uma agência de turismo ofereceu um ônibus de luxo para levar e trazer. Comprei. Não adiantou muito.

Passei parte do domingo tentando arranjar uma desculpa para não ir, outra parte muito pequena me convencendo a ir e uma última que não entendia porquê de tanta resistência. Acabei deliberando que iria, nem que fosse um pouco, que fosse para estar com Laura uns poucos minutos.

Essa história não termina com um final feliz, do tipo fiquei tão encantado que fui até o final do show. Nem que o menino que fui renascesse pelo menos por duas horas e vibrasse nele uma nota. 

A Farmasi Arena é um lugar muito ruim. Desconfortável, com uma arquibancada com exíguo espaço entre as cadeiras, tive as mesmas dificuldades que tenho com subir e descer escadas, o medo de me estabacar a qualquer momento, como já aconteceu no Maracanã, no Estádio do River, já podia sentir a hora que iria despéncar.

Assisti ao primeiro set dos dois juntos, pedi desculpas e penerei. Peguei o primeiro uber que pude e voltei pra casa.

Minha filha deve ter ficado desencantada, ou mesmo constrangida. Não me acho mais digno de ter filhos assim. 

Eu virei um sujeito sem graça. Assisto a show e videos no YouTube pra não precisar sair de casa. O menino que pulava entre um "seis e meia " e outro já não existe. 

Há algo que nunca poderia ter dado certo me incomodando. Mas eu me atirei de corpo e alma. 


segunda-feira, 8 de julho de 2024

Formiga Bossa Nova

As coisas jogadas fora
têm grande importância
— como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem

em sua boca as raízes da escória

Manoel de Barros

Mariza canta Amália - nunca comentei sobre esse disco, mas ontem o inesperado mandou ele de volta na Barca Ingá e aqui vão algumas considerações. Voz e arranjos perfeitos, repertório mal escolhido.Para um disco de apenas dez faixas, a gravação de Formiga Bossa Nova é uma perda total de tempo. Não sei a que veio essa canção, mas certamente foi escrita por alguém que não sabe nada de bossa. Adorei a gravação de Povo que lavas no rio.

Sempre detestei bancos, isso não é novidade para quem conhece esse blog. Mas o Itaú Personalité representou por muitos anos, um alento de bom atendimento. Já não é mais. Levei uma hora para não ser atendido no telefone e uma hora de espera no caixa hoje.

Essa ideia de fazer filme de terror com o Mickey e o Ursinho Pooh é catastrófica. Para quem se acostumou a olhar para esses personagens com ternura, humor e delicadeza, ficou de muito mal gosto.

A Casa dos Dragões passa longe da excelência de Game of Thrones. Os diálogos eram mais ácidos, os personagens melhor construídos, a heterogeneidade maior. Depois de quatro episódios, tivemos finalmente uma luta que foi desenhada nos (inteiros!) três primeiros.

Finalmente, sobre o Fluminense: não há o que dizer. Passa por um momento delicado, com grande chance de ser rebaixado. E daí?? Sigo torcedor apaixonado para qualquer catástrofe que possa ocorrer. Não se trata de uma escolha, o Fluminense nasceu comigo. 

Durou sete meses e uns quebrados

Durou uma vida

Durou uma esperança de dias melhores

Durou uma viagem





quarta-feira, 19 de junho de 2024

Oitenta canções do Chico que melhoraram minha vida, assim de bate pronto

Desalento

Ludo real

Samba do grande amor

Pelo amor de Deus (com Gilberto Gil)

Tango de Nancy (com Lucinha Lins)

Bom tempo

A voz do dono e o dono da voz (com Cida Moreira)

Mar e Lua

Gota dágua

Morro dois irmãos

Valsa brasileira

Construção

Valsinha

Lola (com Maria Martha)

Iracema voou (com Clara Sandroni)

O meu amor

Palavra de mulher (com Elba Ramalho)

Com açúcas com afeto 

O velho Francisco

Viver do amor

Tanto amar (com Ney Matogrosso)

Soneto (com Cida Moreira)

Meu caro amigo

Apesar de você

Roda viva 

Sem fantasia (com Bethânia e Chico)

A permuta dos santos (com Mônica Salmaso)

Todo sentimento

Trocando em miúdos

Bastidores

Sob medida

Atrás da porta (Com Elis)

Cálice

Tatuagem

Olhos nos olhos (com Bethânia)

De todas as maneiras (com Angela Ro Ro)

Até pensei (com Nana e Chico)

Essa moça tá diferente

Tem mais samba (com Quarteto em Cy)

Mulheres de Atenas (com Ney Matogrosso)

O que será (com Milton, a versão que tem no Geraes)

O futebol (com Quarteto em Cy)

João e Maria

Vai passar

Sinhá

As vitrines

A Rita

Futuros amantes

Biscate

Eu te amo

Tanto mar

O meu guri

Jorge Maravilha (com Laura Braga)

Ela é dançarina

Joanna Francesa

Quando o carnaval chegar (com Vânia Abreu e Marcelo Quintanilha)

Xote de Navegação

Fado tropical

A ostra e o vento (com Ná Ozzetti e André Memahri)

Aquela mulher

Sonhos sonhos são

Injuriado

Mil perdões

Não sonho mais (com Elba Ramalho)

Trapaças

Hino de Duran

Palavra de mulher (com Elba Ramalho)

Grande Hotel (com Wilson das Neves)

Querido diártio

Sou eu

Tua cantiga

A rosa (com Chico e Sérgio Endrigo)

Geni e o zeppelin

Anos dourados (com Bethânia)

Embarcação (com Zé Luiz Mazziotti)

A violeira

Tantas palavras

Querido diário

Dueto (com Chico e Nara)

Último blues (com Gal)





sexta-feira, 14 de junho de 2024

Trago aqui o memorando da central

Depois desse hiato de muitos dias, tento retirar a trava e voltar a escrever. Ficar travado, em geral, é como respondo ao luto. Não choro, nem desabo, apenas travo. 

Perder um amigo é um processo agudo, no momento em que você vai ficando cada vez mais velho e os amigos vão ficando cada vez mais escassos. Nada em mim agudiza. Eu travo e pronto.

A perda desse amigo que nos acompanhou a vida toda criou um vazio enorme para os que ficamos. Ele fazia a diferença em nossa reuniões com sua alegria expontânea e sua inseparável cuíca. Na nossa adolescência, nunca faltou um canto de roça para um churrasco, uma pescaria de canecão no açude, muita música e cachaça da boa. Vai fazer muita falta.

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Da morte dele para cá, me agarrei às músicas como salvação.

Já contei aqui a história de quando escrevi um texto a Geraldo Maia agradecendo pela música do disco Samba de São João, um dos grandes discos da década passada. Daí uns dias, chegou um pacotinho com todos os cds do Geraldo enviados de presente pelo mesmo. Foi uma surpresa muito boa.

Pois aconteceu uma coisa parecida com Fernando Pellon. Não sei de onde veio a referência, acredito que tenha sido o Mauro Ferreira. Fato é que comecei a ouvir "Medula e osso" e não parei mais. Tive a mesma sensação e encantamento da primeira vez que ouvi Celso Viáfora. Fernando não toca no rádio, tem poucos ouvintes no streaming e no youtube, mas é gênio. Tem quatro discos e eu já estava bastante atrasado como ouvinte. Fernando usa referências poéticas (respeitem ao menos meus caninos brancos), homenageia Décio Pignatari, e é acompanhado por uma constelação: Jaime Vignolli, Fátima Guedes, Moacyr Luz,  Marcos Sacramento e Mariana Bernardes. Afinal como eu deixei essa obra prima escapar por tanto tempo?

No início fiquei estacionado em Um sujeito de mau aspecto (acho que sou eu) e Canção de vadiar. Elas retornaram inúmeras vezes e quanto mais ouvia, mais gostava. Depois ouvi o disco todo, ouvi os outros discos, e até agora não entendi porque é que eu não escutei isso antes. 

Na sequência, fui correr atrás dos discos. Essa história de streaming, vale só para os mais novos, que não conheceram as maravilhas de um bom long play. Daí iniciei uma procura insana nas lojas do Rio e de São Paulo (até na Passadisco de Recife procurei). Ninguém conhecia. Acabei comprando o arquivo da apple, mas nunca desistindo.do disco.

Até que uma hora pesquisei, achei o site dele, e liguei para sua agente (e esposa). Ela me colocou em contato com Fernando, que ficou feliz pelo meu interesse (e quem não se interessaria ?). 

Os discos chegaram e não pararam de tocar mais. Muito obrigado por sua música, poeta! 

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Aldina Duarte, apesar de ser a antítese de Geraldo Maia e Fernando Pelon no quesito simpatia, continua ousando discos excepcionais, como esse último, Metade-metade, em que grava canções de Capicua. Adorei TentativaDuas mãos.

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Finalmente, ando ouvindo muito o disco novo do Dori, Prosa e papo.  É o presente anual que Dori manda para todos os amantes da boa música.

Três moças e Chato tiveram o mesmo destinos das duas primeiras canções do Medula e osso: não saíram mais do ouvido.

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E hoje o VLT parou de funcionar aqui no centro. Atrasei meia hora, tentei um memorando, mas não há mais memorando hoje em dia. Paciência! 

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...