sexta-feira, 17 de junho de 2022

Quando eu penso naquele carro descendo a ladeira desgovernada das Casas Sendas

Eu penso que meu filho poderia estar dentro dele. Qualquer um deles, mas especialmente o menor. Penso no susto, na dor e no trauma que o acidente traria. Penso no que seria para o resto da sua vida a experiência de um mergulho solitário na ladeira e o atropelamento surdo da lateral do ônibus vermelho.

Eu penso que poderia não ter sido o ônibus vermelho. Poderia ter sido um carro menor e poderia ter feito vítimas. Pessoas que eu nunca vi e agora vejo feridas por um descuido meu e um erro do carro. Penso no quanto seria doído para mim encarar essas pessoas.

Eu penso no meu irmão mais novo, que já não existe, se desgarrando da minha mão e se atirando na travessia da Praia de Icaraí num longínquo 1973. Eu só conseguia enxergar e ainda tremo quando penso nisso, um carro enorme atropelando meu irmão, embora nunca tivesse acontecido de fato.

Eu penso no meu filho sendo atropelado por uma bicicleta em Amsterdam e seu corpo coberto de sangue. 

Eu penso no teleférico de Bariloche, quando perdemos o tempo de pegar o assento e nos esborrachamos na neve.

Não me ocorre pensar no prejuízo de ter um carro amassado, de ter que pagar por uma franquia absurda, de manter minha consciência limpa e ainda conseguir, mesmo com COVID e mesmo depois do susto, viajar por 280 quilômetros até Miracema. 

Não me ocorre o fato de ter que ficar sem carro um bom tempo. Para isso existe ônibus, táxi, uber, avião. O carro, que já foi vital em outros tempos, agora é o que menos importa nessa hierarquia.

Eu penso na minha miséria, na minha dor, na minha falta de governo e na minha desvontade de conversar com quem quer que seja sobre tudo isso. 

Eu penso na morte lenta que é essa vida diária. E como dói.


quinta-feira, 16 de junho de 2022

Corpus Christi em Miracema

 Para quem ainda virá


Eu queria pedir com toda a humildade, enquando nossa amizade é apenas virtual, que quando for o momento, quando houver o clima, quando finalmente pudermos nos encontrar, que você coloque entre as nossas possibilidades, a de que eu possa te apresentar o fado português. Sou um velho fadista. Só não o sou mais por falta absoluta de talento. Sofri preconceitos que eram para mim, a pura ignorância. Sei que nem todos gostam de fado, mas há aqueles que sequer o conhecem e já não gostam, e outros, que apesar de pouco conhecer, torcem o nariz, para não dizer outros impropérios. Por isso para começarmos com o pé direito, deixe-me te ensinar o fado. O fado do jeito que eu conheci e da forma como ele cresceu dentro de mim.

Fado é amor. A poesia que o fado canta é carregada de uma delicadeza e uma ternura que nenhuma outra música tem. É muito bom de ouvir acompanhado, e ao mesmo tempo é profunda solidão. É um olhar interior, alguma coisa que entranha e fica. Você não vai se arrepender. Se vier despojada de preconceitos, se vier disposta a deixá-lo entrar, você entenderá o que estou escrevendo.

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Finalmente, ela veio. Passei três meses ininterruptos em 2020 no auge da pandemia, tratando de um câncer em Muriaé no meio de toda gente e ela não se assanhou. Menos mal! 

Apesar das liberalidades, continuei firme com o uso de máscara e impecável higiene das mãos. Tomei quatro doses das mais variadas marcas de vacina.

Domingo fui surpreendido com febre, cansaço, dor torácica. disfagia e a garganta arranhando muito. Achei que era dessas viroses menores que andam por aí. Sem mehoras, na terça resolvi fazer o auto teste. Não deu outra: Dona COVID veio me ver. Cupro meu período de isolamento, trabalhando em casa. Tudo bem, já fiz isso e deu muito certo.

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Há alguma coisa errada com esse tiggo 5X TXS 2021/2022. Se você se distrair e esquecer o carro em D, você pode sair do carro, procurar pela sua carteira, que ele só vai acelerar um minuto depois, quando já não há tempo de você retornar e acionar o freio. Já tinha acontecido uma vez. Mas ontem estava numa descida e ele desceu sozinho ladeira abaixo e só parou quando encontrou a lateral de um ônibus. A frente ficou toda avariada. Felizmente, nenhum prejuízo humano.

Saí dali, peguei meu resto de tiggo 5X e vim para Miracema correndo. Que sombra é essa dessa semana que trouxe COVID e carro amassado. Ai meu são Jorge!


domingo, 12 de junho de 2022

Um jogo para não esquecer

"Sempre tive uma grande necessidade de estar sozinho, preciso ter meu quinhão de isolamento, e, quando não consigo, como nos últimos cinco anos, a frustração que surge pode às vezes se transformar em pânico ou agressividade. E, quando aquilo que me levou para frente, durante toda a vida adulta, a ambição de um dia escrever algo brilhante, de algum modo se vê ameaçado, meu único pensamento, que me corrói as entranhas, é que preciso fugir."

Karl Ove Knausgard, a Morte do pai, Segunda edição, página 33

Estou lendo A morte do pai, primeiro volume da trilogia autobiográfica desse moço aí de cima, cujo nome parece ter sido retirado da série Lilly Hammer, aquela que ressuscitou Silvio Soprano (Ótima!). Escolhi esse trecho para expressar meu encantamento e como tenho me encontrado, como tenho descoberto a mim mesmo dentro da história. É livro para ler devagar, para não perder uma única palavra. Escrito com coragem, sem concessão.

O Fluminense meteu cinco no galo mineiro e a alma saiu lavada do jogo. Nunca nutri muita simpatia pelos times mineiros. Quando moleque, meu primos de São Lourenço torciam para os cariocas, e como eu sou um quase mineiro, achava que só existiam o Vasco, o Flamengo, o Fluminense e o Botafogo no futebol do Rio e de Minas. 

Jogos das 21:30 são verdadeiros castigos para os insones, mas aquele não teve jeito. De ver e rever os gols, os melhores momentos e acordar no dia seguinte com vontade de ver de novo. Assisti na Globo, com comentários de Roger Machado. Como comentarista, Roger foi um ótimo jogador. Ele não desistiu do Atlético nem quando o Fluminense fez o quinto gol! Faz parte. 

Não foi nenhuma humilhação. O time do Atlético valorizou cada jogada e fez o que  pode, mas quarta era dia de tricolor. 

Que venham outros, e que sejam diferentes da derrota de ontem para outro Atlético, o goianiense. Por pouco não perco a vontade de escrever esse texto, que já estava cuspido na minha cabeça.

domingo, 5 de junho de 2022

Bang & olufsen

No espaço daquele quarto

Onde eu matei minha sede

Ficou meu cheiro de estrato

No chão, na ama, na rede

E parte do meu retrato não descolou da parede

Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro, Guardados

Está frio em Miracema. Minha solidão vai encontrando as paredes imensas da casa e sinto falta dos filhos. Diô não veio hoje e tive que fazer meu próprio café. Fui salvo pelo capuccino da D Belita, presente do Jadim. Um achado, só comparável ao capuccino da charutaria em baixo do prédio que trabalho em SP.

Tento dar sentido ao domingo. De manhã, arrumei livros, discos e filmes que estavam entulhados no escritório. Não há mais estantes para ocupar, e algumas prateleiras parecem asfixiadas. Essa casa grande também tem a função de acolher a biblioteca, mas ainda faltam estantes.

Também fez-me companhia nesse domingo frio o jogo do Fluminense em Caxias do Sul. Não dá para reclamar do time jogando num campo encharcado. Aquilo não foi jogo. Três pontos para o Juventude que não querem dizer absolutamente nada. O time é ruim e vai continuar ruim, lutando a cada partida para não ser rebaixado. Já o Fluminense... Bem , precisamos acreditar que o time vai começar a ganhar. 

E depois do almoço, assisti Licorice Pizza. Foi um dos melhores filmes que vi esse ano. Embora não haja menção no filme, o título é uma gíria americana para discos de vinil. É uma história de amor muito delicada que acompanha a relação entre uma moça de 25 anos (Alana Ham|) e um menino de 15 (Cooper Hoffman), os dois inspiradíssimos. O filme ainda conta com participações muito especiais de Sean Penn e Tom Waits e tem uma trilha sonora fantástica, com pelo menos duas canções que já tinha esquecido delas, mas vou escrever aqui para que a memória não me pegue de saia curta de novo: July tree (Nina Simone) e Let me roll in (Paul McCartney).

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Nunca fui à Dinamarca, mas tenho um player de cds com um som hi-fi maravilhoso que veio de lá. E ontem terminei a noite ouvindo a canção Guardados, do primeiro disco do Sérgio Santos. Voltei muitas vezes àquele ponto. Fez-me bem.

E agora estou aqui a escrever bobagens para matar o tempo. A gente não aprende nunca.


sábado, 4 de junho de 2022

Eu sou aquele que o tempo não mudou



O frio miracemense vai se assomando ao outros prazeres de estar na cidade. E nada muda e é tudo muito simples. 

Entre reunião e trabalho, há tempo para ir ao Celso cortar o cabelo, ter uma aula presencial de violão, comprar frutas e doces, e de noite, caminhar até o Le Jardan e ficar ali jogando conversa fora. 

Mas o fim de tarde dessa sexta reservou algo muito especial. 

Tinha separado alguns filmes para ver e esse ficou ali estacionado no enorme banco que acomoda os filmes, livros e cds que ainda não foram catalogados. É um Nanni Moretti novo. O mesmo Nanni que me ofereceu O quarto do filho em 2001 e Habemus Papam em 2011. Pesquiso e descubro que há outros filmes dele que ainda não vi e isso me remete ao título do livro da Zélia: Benditas coisas que eu não sei. Eles virão no tempo certo e é muito bom que existam.

Mas esse de ontem, o último do diretor, se chama Três andares (Tre piani). Está muito perto de ser uma obra prima. São histórias de três familias que moram em três andares de um mesmo prédio. Mistura afeto, dor, prazer, sofrimento, um conjunto de sentimentos tão pessoais e tão delicados. É possível encontrat um pedaço de nós em cada um dos personagens. Terminei o filme querendo que não acabasse nunca, com aquela sensação que a gente tem (ou pelo menos tinha) quando sai do cinema muito leve, como se flutuasse.

Também pesquisei o autor do livro que inspirou o filme, o israelense Eshkol Nevo, nunca traduzido no Brasil. Que pena!

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Obrigatória

Para aqueles maníacos por séries, ou mesmo para os deprimidos, Ruptura (Severance), em cartaz na Apple TV é obrigatório. O elenco dá-se ao luxo de contar com John Turturro, Cristopher Walken e Patricia Arquette. Patricia é aquela loira maravilhosa que fez Amor a queima roupa. Continua loura e maravilhosa na maturidade. A direção é de Ben Stiler. Não me surpreendeu a forma contundente e seca com que o direror conduz a trama. Quem se acostumou àquelas comédias rasas, talvez se surpreenda, mas quem viu Os Meyerowwits (Netflix) sabe do que estou escrevendo. Não me parece adequado classificar Ruptura como ficção científica. eu classificaria como um drama cotidiano.

Descobri a série por insistência de um amigo. Eu já tinha meio que desistido dela porque achei os dez primeiros minutos enjoados, uma armadilha que uma vez ou outra me acontece.  Ainda bem que alguém me alertou. Cumpre-me então alertar os meus três leitores: não deixe de ver.

Vi os primeiros três episódios de enfiada, entre Rio e Miracema. Já na Rodoviária Novo Rio, o Ipad estava ligado e sintonizado na estação. A viagem durou seis horas e meia, três episódios de Ruptura, um de Ninguém pode saber (essa pega um sete), e canções a alto volume no trecho entre Pirapetinga e Miracema.

A parada em Além Paraíba continua ruim. Tento me abastecer de biscoitos e outras guloseimas, além de água para não me render ao restaurante. Mas ontem acabei me rendendo. Comi um hamburguer e uma coca zero e deu para o gasto. 

Vir a Miracema tem sido minha salvação nos últimos tempos. Cheguei aqui cansado, mas caminhei com alegria pelas ruas silenciosas da cidade. Aqui é o meu país. 

sábado, 28 de maio de 2022

Vazio

Hoje o dia parece estar com defeito. Já fiz muito nesse sábado frio e morno, mas nada fiz. Um acelerômetro de idéias deixou-me aceso no fim da tarde e eu vim aqui para o teclado tentar decifrar. Talvez não saia nada, é bem provável que saia mais um texto ruim. 

Ao mundaréu de coisas inúteis desse dia, incluiram-se a tentativa de encontrar uma boa série, assistir à final da champions, perder a última oportunidade de comprar aquele moletom que eu queria e me acompanhar ao violão com minha voz sumindo. Faltou coragem pra comprar o moletom, desisti das séries que comecei a ver e pra terminar, minha voz está cada vez mais longe do meu violão. Sei que estou escrevendo duas vezes a mesma coisa, mas esse blog é o campeão da redundância. Outro campeão de hoje, o Real Madri contou com minha torcida só nos primeiros 15 minutos. Depois torci para o Liverpool e perdi novamente. 

De manhã, adquiri a mídia do disco novo da Mônica e do Dori - Canto Sedutor. O disco entrega tudo que promete, desde canções inéditas a relíquias como História antiga e Desenredo. Não poderia esperar mais do que ouvi, por tudo que já ouvi dois dois. Já os colocava entre os 6 ou 13 melhores que aprendi a gostar sozinho. Em dupla , só fizeram realçar a excelência.

Adoro estar com meus filhos, mas hoje não sei se estou sendo um bom pai. Fiz com eles o ritual de todo sábado: shopping, parquinho, almoço, lojas, uno. Mais do mesmo.

No fim do dia, fiquei tomado pela ideia de ir ao Campo de São Bento amanhã com eles de manhã e fugir um pouco das rotina dos finais de semana. Talvez eu salve o domingo, porque o sábado já se perdeu nos vazios.

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...