segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Não se atravessa a Hadock Lobo pela direita

Definitivamente A Força do Querer não foi uma unanimidade. Ainda mais concorrendo com o terceiro episódio da décima temporada de Segura a Onda, exibido na HBO no mesmo horário do último capítulo. Larry David impagável. Acabei só vendo um pedaço de um único capítulo, que teve mais intervalo do que novela. Não dá para fazer uma avaliação crítica, mas o que vi (pajé, luta livre, sereia, etc) não gostei. A trilha sonora, igualmente ruim, tem uma versão ótima de Dom de Iludir com a Nana. Pode ser ouvida em streaming.
Começo a me conformar com o streaming como única forma de ouvir música. Pelo menos, parte delas. Por exemplo, um clássico disco Cobra de Vidro, do Quarteto em Cy e do MPB4, foi lançado apenas em arquivo digital. Também a Antologia do Samba Canção do Quarteto. Como assim?????
É muito diferente o tratamento que se dá a esses clássicos na Europa. Eles são cuidadosamente remasterizados e vendidos a preço mais em conta.Aqui, tem que ter uma assinatura da apple music ou do spotify. Total falta de respeito.
Mesmo assim, assino os dois. E graças a eles consigo ouvir os novos de Camané e Vitor Ramil. E aguardar que saiam em disco.
Um encontro com Joel Nascimento em uma semana e outro com Déo Rian na outra. O coração sibila um bandolim plangente.
Vi Déo no Arlequim do Paço às 15 horas no sábado. Ótimo horário para quem quer fugir da noite do Rio. Comemoração dos cinquenta anos do disco Vibrações do Jacob. O long play inteiro repassado por Déo e Bruno. Um luxo.

domingo, 15 de outubro de 2017

Joel e o Macuco





Acostumei a chamar de Macuco uma cidadezinha do interior do estado que era meio do caminho entre Miracema e Niterói nos meus tempos de menino. Quando vinha de ônibus, uma das muitas paradas era em Macuco.
Jamais poderia imaginar que existiria uma Cachoeira de Salto Macuco. em Foz do Iguaçu, de onde se pode olhar de muito perto as quedas d'água.
Estávamos em Foz a trabalho, de forma que só poderíamos escolher uma única fuga. Fugimos para o Macuco. Alguma coisa há de musical naquela trilha de selva e barco. Algo que liberta, que faz pensar que lá no fundo deve existir mesmo uma alma. E toda aquela água dá mesmo uma sensação de paz e de que a vida passa.
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O máximo que eu aproveitei da noite do Rio foi na época que o Mário era vivo. Era um tempo em que podíamos encarar e  tirar algum proveito da noite carioca. Hoje me pelo de imaginar que Laura volta tarde para casa e quando saio, nunca é mais do que a possibilidade de retornar antes das 9.  
Mas ontem ocorreu um motivo nobre: fomos ver Joel Nascimento na Sala Cecília Meireles. 
Da mesma forma que ver uma das maravilhas do Mundo, o bandolim de Joel nos transporta. Ele fez a Suite Retratos com uma orquestra de cordas e os irmãos Cazes, mas só se via, só se ouvia, só se percebia, aquele bandolim. Fez 80, mas parece um jovem quando ferida o som com suas cordas. Em algum lugar, Radamés e Jacob estavam felizes.
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Apesar de tudo, 2017 tem sido ótimo para a música. Camané acaba de lançar um disco, gravando a obra de Alfredo Marceneiro. Aprendi a gostar de fado com Amalia e Francisco José dos discos do meu avô, de forma que Marceneiro é quase novidade pra mim. O disco é sublime. 
Esse ano vai ser difícil peneirar os dez melhores. Está bom de ouvir.
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A Sala Cecília Meireles parece um lugar em que o Rio funciona. Acredite.

sábado, 30 de setembro de 2017

Miracema continua do mesmo jeito

"Botei na balança, você não pesou
Botei na peneira, você não passou."
Monsueto


Saí da Rodoviária Novo Rio às 7, cheguei aqui meio dia e trinta, parecia o menino de novo.  Até me permiti um terrível wafer limão na parada em Carmo. Fui pelo olho, mas me arrependi lá pelo meio do biscoito, quando já era tarde. Acabou atrapalhando o almoço árabe carinhosamente bem preparado pela Diô. 
A cidade está seca. Em alguns lugares onde havia rio, fede. Parece mais pobre, embora tenham inaugurado mais uma loja de doce em frente aonde moro.
Mas ainda é a minha cidade. Sinto-me bem aqui com uma velha roupa e uma sandália de dedo e uma vontade de nada. Fiquei em casa de tarde vendo um filme óbvio, depois caminhei até o Le Jardan e fiquei ali chaleirando até umas oito. Voltei pra casa, fiz um mexido e dormi.
Hoje amanheceu chovendo. Dá pra sentir aquele cheirinho besta de terra molhada e a jaboticabeira do vizinho está carregada de frutas.
Que importância tem tudo isso pra quem quer que seja?
Como poderia esse meio texto melhorar ou piorar o dia das pessoas, que influência teria na tristeza ou na alegria de quem o lê? É um texto vazio com a pretensão de não dizer nada.
Assim é minha relação com a cidade. Mesmo que não diga nada, representa muito pra mim. 
Sinto necessidade de ligar o velho pioneer e ouvir uma música original, absolutamente isenta de processos digitalizados., Tento ouvir o mais alto que posso.
Boto uma seleção antiga que me manda Vicente Celestino, Carlos Galhardo, e um pianista tocando O Mundo é um Moinho que já nem me lembro.
No ônibus, vim ouvindo a obra prima Maria João canta Aldir Blanc. Só esse Catavento e Girassol para harpa já vale o disco. Voltei muitas vezes. 
O Selo Sesc lembra a Biscoito fino dos  anos 90. 
Quando boto pra tocar o André de Sapato Novo com Antonio Meneses e Andre Mehmari, ou o Saci, com Guinga e Quarteto Carlos Gomes, dá vontade de agradecer à produção do selo por ter mandado discos tão importantes num tempo em que disco é uma coisa menor, um investimento de risco elevado.

sábado, 16 de setembro de 2017

Crônicas de Motel 5


Se você anda meio em falta. precisando de um estimulante para melhorar a performance.
Se você está carente, precisando de uma alento para estimular o apetite.
Se você é do tempo dos catecismos do Zéfiro e precisa de uma mãozinha.
FUJA DE CINQUENTA TONS AINDA MAIS ESCUROS!
Da trilha sonora óbvia, dos diálogos previsíveis, das cenas de sexo anêmicas, não há nada mais broxante;

Por outro lado Toni Erdmann salvou o dia. Indicado por Luisa, é de uma delicadeza tocante. Sei que estou num dos meus muitos divisores de água e por isso mesmo esse Toni me caiu bem. Um pai professor de música tentando corrigir suas relações com a filha poderosa executiva. Já não tenho mais a idade da filha, nem cheguei à idade do pai, consigo enxergar pelos olhos dos dois. Pelos olhos diferentes dos dois que no final parecem convergir. São quase três horas de um filme  cheio de luz.

Vi ontem Neve negra no NETFLIX.  É um argentino diferente desses habituais que estamos acostumados, muito sombrio,  também abordando relações muito próximas, dessa vez de dois irmãos. Ricardo Darin mais uma vez fez a diferença.

Aos 56, já não sei se tenho mais pique para estar em um divisor. Já tive muitos. Já mudei de casa muitas vezes, larguei projetos importantes para mergulhar em outros arriscados, já passei por muitas esquinas. Alguma coisa está quebrando em  mim, sinto que o ar está rarefeito, e que é preciso encontrar um caminho diferente.

Pouco importa, ainda há canções, filmes, poesia.

E há Luisa, obviamente,  que me levou ao melhor de Tiradentes no meio da semana.

domingo, 10 de setembro de 2017

Crônicas de Motel 4





Planejo uma quadragésima canção de afeto, sem mesmo ter terminado a trigésima nona , que ficou parada num tempo sem canções de afeto. Tríades de Bom dia e Feriado na roça (conforme já comentado), e já temos aí umas trinta para compor a quarenta. Voltei a ouvir música no aleatório, o que tem me trazido agradáveis surpresas. Minha biblioteca chega a quase 40.000 canções, inimagináveis para mim mesmo, que pretendia que o meu Ipod Classic de 160 gigas encerrasse minha carreira de ouvinte.
Há coisas que nem a apple music nem a spotify fazem idéia da existência. Um disco que dois queridos amigos me trouxeram quando foram à Casa dos Carneiros no Recôncavo Baiano,  o único do Fernando Lona, o segundo da Clara Sandroni e por aí vai.
Nesse meio tempo voltei a escrever essas bobagens de dois ou três leitores, que ficam melhores expostas aqui do que em grupos de whatsapp ou no facebook. Continuo escrevendo para mim mesmo, não são poucas as vezes que me pego lendo minhas próprias bobagens.
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Mas esse fim de semana foi tudo muito atípico com essa visita familiar a São Paulo. Estou acostumado à São Paulo dos fast foods, de terminar o dia exausto de trabalho, de não ter qualquer perspectiva que não seja uma boa noite de sono.
No passado experimentei com Luisa. Ela veio e ficou dois dias aqui comigo, Mas foram só dois dias, e ainda assim foi muito bom. Esse foi um feriado inteiro.
Não se descansa com uma criança de quatro e outra de dez. Tudo que elas querem é correr, brincar, ir aos lugares que a gente já não vai há muito ou nuca foi.
Por exemplo o zoológico de São Paulo desse dromedário sorridente. Depois de uma fila de quase três horas num sete de setembro a 35 graus, a careca triscando, adentramos o zoo. Há mais humanidade na relação com os animais ali do que aqueles que fomos em Buenos Aires. O safari é de van mesmo, com trânsito engarrafado, pois permitem a entrada de carros de passeio. Tudo parece meio improvisado, mas se leva bem.
E assim foi todo o fim de semana, entre shoppings, brinquedos, algazarras e o joelho direito moído. Vida em comum, contada nos afetos do Lucas e da Manu.
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Depois de uma chegada tranquila cheguei a tempo de almoçar na sogra e retornar para casa tenso para ver o Fluminense ceder o empate para o Vitória no último minuto de um jogo ruim. Bem que eu mereceria um desfecho mais agradável...

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Crônicas de Motel 3

Pro Ney

Lembro da Tia Militza falando para minha mãe que o Ney era o mais bonito dos irmãos e da raiva que eu fiquei de estar ouvindo aquilo. E era mesmo. Tinha sido bem planejado, nascera em dezembro e era quatro anos mais novo do que eu. 
Passamos a infância contabilizando nossas diferenças. Eu era de casa, já gostava imenso de letra e música, lia compulsivamente as revistas em quadrinho e os outros dois, principalmente o Ney, eram da roça, dos cães, dos cavalos e dos açudes. 
Herdamos dos nossos pais a insônia, de tal modo que acordávamos quase sempre de madrugada e cada um escolhia o que fazer antes do amanhecer. Eu geralmente estudava para ficar livre dos estudos a tarde. Os outros dois acompanhavam meu avô nas caçadas de espingarda e cachorro vira lata, e quase sempre vinha uma saracura ou uma piaçoca.
O Ney herdou da minha mãe, a generosidade. Até o final da vida, quis ajudar. Ajudou com pouco, com muito, com quanto teve. Diferente de mim, que sempre me assusto quando me pedem dinheiro na rua, e só dou gorjeta para o trio de sanfona, zabumba e baixo que toca de vez em quando na Paulista.
Isso tudo me vem à cabeça porque não é incomum, mesmo depois de algum tempo, voltarem as recordações dos difíceis últimos dias do Ney. Eu estava em São Paulo quando soube de sua morte. Corri para o Rio e daí para Pádua e depois Miracema. Corri tarde demais. Corri quando já não adiantava nada. Foi um estrago pior do que a morte dos meus pais. 
Naqueles tempos, havíamos superado alguns desagravos e tentávamos recompor a família. E o Ney voltara a ser aquele menino e a cuidar da terra, do jeito que meu pai possivelmente quereria. A morte o pegou quando ele começava a recuperar a estima. 
Que coisa! Estava aqui agora e em poucos minutos não estava mais. E que falta faz aquele menino!


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Crönicas de Motel 2

Para Luis Melodia


O tudo que se tem não representa nada Eu era moleque vindo de Miracema, fui ver Melodia no Teatro da UFF. O show, marcado para as 21, começou às 24. Oitenta por cento da plateia e os músicos já tinham ido embora. Ficaram Melodia e Renato Piau. Ele chegou com uma camisa do Vasco, pediu desculpas pelo atraso e falou que iria improvisar. Foi um alumbramento de mais de duas horas de música, de sair extasiado dali. Vi muitas outras vezes, principalmente no Rival, mas nunca como aquela noite. Começou com Estácio, eu e você, os dois violões em uníssono, choravam serenamente. Nunca se esquece. Nunca morre.

Quem é cover de quem - fiquei em dúvida se Melodia chegou a conhecer a bela homenagem prestada por Itamar Assumpção no disco das Orquídeas. Pra ser sincero, cheguei a ficar com raiva de Melodia não ter se manifestado acerca da canção. Terá conhecido? Agora os dois já se foram, ficou a música. É o que fica.

Já que o tempo fez-te a graça de visitares o norte, leva notícias de mim - Por outro lado, nunca assisti a um show de Belchior. A voz ardida do cantor deve ter me levado para longe de suas apresentações, mas tenho e ouvi (muito) todos os discos. Tem um em especial, que se chama Bahiuno, que talvez só eu tenha, adoro. É tão bom quanto Paralelas ou Alucinação, mas ninguém ouviu. Eu, sim, muito. 

Olha a onça aí - Fui com o Lucas assistir o show do Riachão. O menino não para de cantar Valdinéia. Riachão é uma referência do samba da Bahia, mas o show parecia coisa do Adoniran, talvez pelo grupo paulista que acompanhava Aos 95, ainda dá conta do recado. Um luxo.

Há pessoas que você vê e diz: só no vaso sanitário aquele ali é feliz (Abel Silva) - auto explicativo.

Vem aí um disco de Maria João cantando Aldir Blanc. Não há nada que eu possa esperar com maior ansiedade. Esse e a inauguração de uma Toca da Traira perto da minha casa.

Não se atravessa a Hadock Lobo pela direita

Definitivamente A Força do Querer não foi uma unanimidade. Ainda mais concorrendo com o terceiro episódio da décima temporada de Segura a O...