terça-feira, 31 de agosto de 2010

O último Jornal do Brasil


..."E se rindo, eu aposto, dessa bobagem de contar tempo de colar números na veste inconsútil do tempo, o inumerável, o vazio repleto, o infinito onde seres e coisas nascem, renascem, embaralham-se, trocam-se. com intervalos de sono maior, a que, sem precisão científica chamamos de morte."

Drummond, Manuel Bandeira faz novent'anos

"Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na louça,com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos"...

Fernando Pessoa, Aniversário

Nos meus 49, acordei com um beijo de Laura, o dia ficou mais leve e foi mais fácil seguir adiante.
Nos meus 49, trabalhei o dia inteiro, inclusive na hora do almoço, isso deve representar alguns pontos no quesito vigor físico. Na verdade, fiz um grande esforço para que fosse apenas um dia como outro qualquer. E foi.
Também fiquei feliz pela maneira com que meus amigos (daqui) me acolheram e comemoraram a data comigo. Sábado eu comemoro com os de lá. De todo jeito, ter pessoas tão afetuosas como Renatinha, Sandra, Lugarinho e Ronaldo é muito gratificante. Deve contar pontos no quesito afeto recíproco.
Nos meus 49, saiu a última edição do Jornal do Brasil, que me acompanhou por boa parte desses 49. Constato que não deixei de gostar do papel, do cd, do livro e não vai ser fácil acostumar com edições on line depois de 49.
Nos meus 49, comecei a ler Cordilheira, Daniel Galera. O começo promete. Daniel entra num terreno perigoso: o narrador é uma mulher. Não é nenhuma novidade, mas não deioxa de ser um risco.
Nos meus 49, ganhei um ponto no quesito memória, ao lembrar de Drummond, Pessoa e Bandeira e desses trechos que me acompanham há quase 49.
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4.9 - Se fosse motor de caminhonete nova, ainda rodava bem. Mas é só a cascata degenerativa dos anos. Já deu pra entender o seguinte: não dá pra ficar muchochando muito. Tem que pegar a reta e ir em frente. Sem grandes espectativas. As melhores espectativas já foram e não vale a pena rebobiná-las.

sábado, 28 de agosto de 2010

Fuga nº 1



Era sábado de manhã em Niterói e prenunciava-se um dia daqueles solitários e cheios de filme, internet e chocolate branco. Achei que era hora de sair dali. Pesei de um lado, namorar um pouco, rever amigos, levar Laura, almoçar com a família, e de outro, o túnel do carpo, o cansaço de uma viagem de dois dias, a possibilidade de ficar quieto, e achei melhor pegar a estrada pra Miracema. Na estrada, deliberei: dessa vez não vai dar pra Chicó e Luisa, semana que vem é feriado e haverá mais tempo. Vou ficar por conta de S. e dos amigos. De noite, jantamos no BDF com Jadim, Alex, Teresa e Gisele. Jantar de ótimas conversas, era disso mesmo que eu precisava. Rever amigos é muito aconchegante. Principalmente esses para os quais, a conversa é sempre desarmada, de igual a igual e você é só você mesmo e não há qualquer compromisso estético ou conflito de interesses. Foi ótimo ter ido. Valeram todos os riscos!
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Breaking Bad está entrando para o rol das grandes séries que já vi. É meu novo vício. A crueza da narrativa, a atuação estupenda de Brian Cranston, a construção intempestiva do anti-herói, tudo parece funcionar muito bem. Vejo séries desde que Letícia morou comigo e me introduziu Friends. Adorávamos ver e rever aquelas bobagens. E até hoje pego aleatoriamente uma temporada na estante e vejo um episódio.
Poderia listar as séries que mais gostei, e talvez desse um longo post, mas hoje está um dia preguiçoso. Devagar eu vou entregando meus outros vícios.
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Tomara que o Fluminense tenha aprendido as lições de hoje: a) não se joga com jogador sem ritmo e desinteressado (Belletti); b) não se perde pênalti (Washington) e c) não se frangoleja em jogo de campeonato (Fernando Henrique). A ocorrência dos três fenômenos deu nesse empate em casa com o São Paulo. Preciozíssimos pontos perdidos.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Lugar ótimo pra falar de bioestatística.

É meio sem graça ir sozinho a um evento de farmacoeconomia num iate. É meio bizarro discutir biosimilaridade, trombose venosa profunda e estudos de não-inferioridade às 21h no Pink Fleet, de frente pra Baía e pra Marina da Glória. É improvável ficar comovido como o diabo mesmo que te ofereçam os melhores canapés e coquetéis da cidade e a Lua esteja a pino. Mesmo assim peguei um táxi e fui. Desde muito que eu não saio de casa à noite aqui no Rio. A solidão foi trazendo o ócio para dentro de casa e depois que chega, é difícil sair. Infelizmente, não são eventos como esse que vão me convencer do contrário. Mas até que deu pra apreciar.


Mary e Max foi a melhor coisa que me aconteceu nessa semana de agosto. A outra foi o mashmalow do Hotel Atlântico Búzios, muito parecido com o que Luisa faz de vez em quando. A terceira, obviamente, foi o time do Fluminense.
O filme, dirigido por Adam Eliot (??), conta a história da amizade de uma menina australiana de 8 anos e um novaiorquino de 44. A amizade percorre a vida dos dois pela ECT. Numa crítica que li, é classificado como desenho desanimado, por tratar de solidão, depressão e outros abismos. Não sou crítico, mas vou acrescentar mais um dado interessante: é dublado com perfeição por Phillip Seymour Hoffman e Tony Colete. O que mais me chamou a atenção é que é um filme carregado de humanidades, destituído de maniqueismos e fácil de gostar. Não perca!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Vá morar com o diabo

Rotinas

Um acidente envolvendo o Catamarã Ingá II na Cantareira segunda-feira cedo provocou uma fila que dava voltas na Praça Araribóia, se arrastando que nem cobra pelo chão como diria Gilberto, e me pegou no jeito. Era o prenúncio de um dia difícil. A travessia da Baía de barca ainda é o menos pior dos sofrimentos de hoje em dia, mas tem vez que dá vontade de pedir pinico e voltar para o lar. Quase voltei! Eu estava crendo que o dia ia ser pesado e meu túnel do carpo doía de não poder pegar a pasta direito. Acabei indo trabalhar. No meio de demandas inadiáveis, papéis avulsos em débito, caras de pouca solidariedade e a mão direita latejando, trabalhei achando que pudesse aliviar na terça. Que nada! A terça ainda foi mais difícil.

Hoje de manhã um bueiro da Rua do Carmo, caminho da minha roça, começou a soltar uma fumaça preta parecendo que a qualquer momento, o Lostzila iria dar as caras no centro do Rio. Saí dali rapidinho fazendo meu pelo sinal e temendo que a quarta viesse na onda dos outros dias. Até que não. Na quarta deu pra ter uma certa leveza e as coisas fluíram melhor. Até o carpo está mais calmo!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Pessoas que facilitaram minha terça vazia

Paulo César Schott - já viraram hábitos a boa conversa, a mútua compreensão, o apoio a qualquer tempo. Hoje quando chego na Empresa e não encontro o amigo, sinto-me um pouco mais só. Já é clichê, mas não custa realçar o quanto nos falta, sua importância como pessoa e profissional e como nos tornamos mais ricos e diferenciados por tê-lo em nossa equipe. Feliz aniversário.
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Cláudia Reis - hoje quando recebi o exemplar da Época que destaca nossa empresa entre as 100 melhores pra trabalhar no país, só pensava num nome: Cláudia Reis. Sua entrega em buscar o melhor para a Empresa é notável. E sua capacidade de superação para as adversidades invejável.
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Lawrence Block - O pecado dos pais é daqueles livros que dá vontade de devorar rápido e depois ler de novo pra ter certeza de que não perdeu nada.
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Nina Becker e Luísa Maíta - as duas estão embrulhadas no meu ouvido nas barcas, nos ônibus, nas filas intermináveis, e crescem a cada dia.
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Eugênio, meu irmão - me ligou cedo pra desabafar um pouco. Sua dor é minha dor, sua tristeza é minha tristeza, seu cansaço é meu cansaço. Diferimos apenas porque a vida nos colocou em missões e lugares diferentes, mas a alma caminha junta. Pesada, dolorida e junta.
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Bom, se considerarmos os irracionais, poderia incluir os biscoitos bis brancos de limão, a lasanha da dona Leila e a nimesulida, para alívio do túnel do carpo.

domingo, 22 de agosto de 2010

De volta


Fiquei de quinta a domingo na Armação de Búzios em congresso. Para alívio (ou desespero) imediato dos meus seis ou sete leitores, voltei. O Hotel Atlântico Búzios tem cama king, piscina aquecida, marshmalow na sobremesa, mas a internet não funciona. O Congresso já mantém uma tradição de muitos anos, amadurece a cada ano e vem sendo uma oportunidade de estar com meus amigos e conviver um pouco além do trabalho.
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Tem hora que chega a vontade de encontrar a própria cama e os apetrechos do lar. Cansado, amuei. Aproveitei pra ver O Profeta, do francês Jacques Audiard. É um filme sobre educação criminal numa prisão francesa. Achei muito cru. Não sei, me lembrou Gomorra, que não gostei. E vi também os dois primeiros episódios da série Breaking Bad. O meu cardápio de chegada não está muito otimista. Logo mais depois do jogo do Fluminense vou atrás de um filme bem framboesa.
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A cantora lírica Sylvia Klein gravou um disco com Rufo Herrera em 2008: balada para um loco. Foi ouvido e reouvido na viagem. Rufo (foto minha acima no Festival de Jazz de Ouro Preto) empresta seu bandoneon virtuoso à música de Villa Lobos. E também estão se tornando cada vez mais irresistíveis os dois discos lançados por Nina Becker: Azul e Vermelho. Como essa canção Superluxo, que parece tirada do repertório dos Mutantes.
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Estou de volta. Não há nada muito significativo em estar de volta, é só uma sensação leve de bem estar.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Vazio

"- Mais ou menos. Não exatamente, porque não é raro um tira perder a fé e continuar sendo tira. Talvez ele nunca tivesse tido fé, desde o início. No fim das contas, descobri que não queria mais ser tira. Nem marido, nem pai. Nem membro produtivo da sociedade."

Lawrence Block, O Pecado dos pais

Philip Roth vai ter que aguardar mais um pouco. Olhei pra estante e descobri esse Block meio esquecido e imaginei que fosse hora dele. Tem sido um ano de poucos livros, não tenho conseguido cumprir nem a meta original de dois livros/mês. O ótimo Caim levou um século para terminar. Não que não seja prazeiroso ler com calma, voltar aos trechos, mas é preciso ler mais.
Enfim, nesse Block, Scudder está mais etílico do que nunca. Ou melhor, como diz a garçonete que o atende, Nunca te vi bêbado, e também nunca te vi sem um copo na mão.
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Hoje foi um dia cheio de vazios. Não consegui ver sentido em muita coisa trivial. Uma espécie de ressaca sem alcool. Bode. Procurei dar conta dos meus recados e não ferir ninguém. Quando estou assim muito vazio, geralmente me irrito fácil. Mas isso tudo são grandes bobagens. Uma atrás da outra.

Dei um talho em meu próprio sentimento


Sou a dobra de mim sobre mim mesmo
Nesse afã de ganhar de quem me ganha
Tento andar no meu passo e vou a esmo
Tento pegar meu pulso e ele me apanha
Eita, sombra rival que me acompanha
Artimanha de enconsto malfazejo.

Rodopiei, beijei o chão, cambei pra cá
Meu mestre rei foi Salomão, camará!

Dei um talho em meu próprio sentimento
Pra que o mundo fulgure na clareira
Que esse nervo me aviva o sofrimento
Que esse olho é motivo de cegueira
Ê, presença difusa, desordeira
Giro de furacão sem epicentro
Desafiei, puxei facão, ponguei pra lá
Vazei no peito esse intrujão, camará!

E vem pernada aí
Vem não, foi desvario
E vem navalha aí
Vem não, foi calafrio

A roda vai abrir
Quando eu cair
No vazio
Meu sangue arredio, arrevesado
Arranco e derramo em oferenda
Mas não ponho fim nessa contenda
Com meu coração esconjurado
Camará, Camará, Camará...

Sei de um rosto escondido no espelho
Bem depois do cristal iridescente
Entro no meu juízo e destrambelho
Entro no meu caminho e passo rente
Eita, angústia que vai minando a gente
Capoeira contra Pedro-Botelho

Guinga e Thiago Amud

Devo esclarecer, inicialmente para mim mesmo, que vivo caindo nessa armadilha, que não concordo com o descanso como forma de consolo. - Fulano descansou! Como assim?!? Quero minha Tia de volta, comandando a casa e a família, consertando as coisas como era do seu feitio. Não posso definitivamente querer que ela descanse.
Ontem já era outro dia. Precisava vir ao trabalho. Trabalhei a meia bandeira, é verdade, mas trabalhei. O corpo doía até o resto de cabelo, tive uma febre esquisita de tarde, a boca seca, o estômago embrulhado, mas fui levando o dia.
Já tinha comprado os ingressos, achei melhor não desprezar e fui ao CCBB ver Mônica Salmaso e Guinga. A boca começou a perder a secura logo que Mônica iniciou o Estrada do Sertão de João Pernambuco e Hermínio. Achei que minha tia ia gostar que eu estivesse ali. Depois Mônica cantou seu repertório já conhecido dos discos, mas bom de ser ouvido milhões de vezes: Senhorinha, Minha palhoça, Cabrochinha, etc, fechando com Nem um pio, para a entrada de Guinga e Lula Galvão. Os dois são referências do violão moderno brasileiro, mas a que mais gostei foi Guinga cantando sozinho essa canção Contenda, que fez em parceria com Thiago Amud, e tinha passado batido do Casa de Villa. Belíssima.
No final, Guinga e Mônica fizeram um set juntos e cantaram Estrada Branca (Tom e Vinicius) e Pra quem quiser me visitar e Noturna (ambas de Guinga e Aldir). A noite fria refletia na baía de Guanabara e achei que minha Tia estava por aí, olhando por nós.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Songs for Lulu


Quem foi a mão invisível
que traçou esse arabesco
de flor junto ao pudim?
quem tem auréola? quem não a tem,
pois que sendo de ouro,
cuida logo de reparti-la
e se pensa melhor faz?
quem senta do lado esquerdo
assim curvada? que branca,
mais que branca mais que branca
tarja de cabelos brancos,
retira a cor das laranjas
anula o pó do café.
cassa o brilho aos serafins?
quem é toda luz e é branca?

Carlos Drummond de Andrade

Quando não tive ninguém mais para recorrer, quando fugiram de mim as últimas espectativas, quando destruíram meu projeto de vida, foi minha Tia que me acolheu. Essa mesmo que acaba de morrer. Achei que Drummond e Rufus poderiam realçar a intensidade dessa perda irreparável. Perda insubstituível. Como eles, foi como perder uma mãe.
Agora que não terei mais a sua infinita generosidade para me acolher. Agora que nada mais posso fazer para devolver a ela o tanto que fez por mim. Agora que me sinto mais perdido do que normalmente estou, como achar de novo um significado para a fé no Mundo? Há justiça nos desígnios de Deus, se há um Deus?
Que importam essas elucubrações às seis e meia da tarde no Catamarã Gávea 2, se minha Tia morre a poucos passos de mim?
Recordo o tempo em que minha cegueira me levava da Praia das Flechas ao final da Praia de Icaraí e de lá à casa da minha Tia. Era ela que me alimentava. De comida e afeto. Era ela que não permitia que eu deixasse me levar por meus abismos. Que me amparava.
Agora que não mais a tenho, procuro desesperadamente por suas palavras de carinho, que nos últimos tempos se transformaram em pequenos escritos. Reli todos os seus cadernos atrás dos afagos. dos conselhos, das recomendações.
Quis ficar ao lado dela o tempo que pudesse para me despedir. Enquanto existiu soube ser mãe, amiga, protetora. Vai faltar muito mais do que esse vazio imenso que agora mora em mim.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Fila na porta da barbearia

Vim cedo pra Miracema hoje. Aproveitei a semana calma de reuniões e adiantei serviço nos outros dias, de modo que deu pra vir, trocar o óleo da S10, filar o almoço da Diô, assuntar com o pessoal da Rua Direita, e ainda descansar um pouco de tarde. Só não deu pro cabelo, o Celso estava cheio.
Esse tudo fazer preguiçoso e lento era o que eu precisava. Até respondi alguns e-mails de trabalho, mas deu pra desopilar um pouco. Em Parati, não consegui ficar desatento. Mas aqui é o lugar que eu ando de bermuda velha e sandália de dedo, que ainda me conhecem como filho do Carlim ou dos tempos que cliniquei na cidade, aqui minha paz anda comigo.
Está um Sol frio em Miracema gostoso de passear, de dormir, de fazer qualquer coisa. Torço por 365 dias assim. Daqui a pouco começa aquele brasão infernal, aquele calor de deixar o asfalto da Uruguaiana fumegando e o corpo molhado. E a gente nem acredita que teve dias assim.
É triste e ao mesmo tempo bom assistir o passo a passo da reconstrução do trecho Além Paraíba - Pirapetinga. Meu pai passou nessa estrada quando ainda era de chão, eu conheci um asfalto sem vergonha e cheio de buracos, mas Chicó terá um estrada ampla e segura pra viajar com a família. Tomara que o menino aproveite.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ah, sim, a FLIP desse ano


Fui deixando que minha memória seletiva ceifasse os lapsos de tristeza e enfim, acho que já dá pra falar alguma coisa da FLIP desse ano.

a) Era a Flip que eu não queria ir - desde maio desse ano, com a possível desistência de Alexandre e família, eu já estava desistindo de ir à FLIP. As meninas gostam de ter companhia e fica meio sem graça quando Marcela e Lorena não vão. Afinal depois de Laura ter insistido, Alexandre repensado e a Pousada das Acácias ainda estar disponível (reservamos na penúltima hora), resolvi rever.

b) Acho que foi uma grande injustiça e erro grave de avaliação dos organizadores, que Ferreira Gullar não tivesse sido o grande homenageado. Nada contra Gilberto Freire, mas Gullar faz 80 esse ano e é o maior poeta vivo da literatura brasileira. Gullar merecia todas as homenagens. que acabaram acontecendo de alguma forma, independente dos organizadores. Quem sabe ano que vem!?

c) Um porre meio homérico na sexta de noite na Pousada das Acácias foi o que de melhor me aconteceu na FLIP. Um prosecco que o Professor tinha me dado de presente, umas bohemias pretas e umas stelinhas e aquele cenário bucólico de Parati de boa conversa e música.

d) Assisti e achei razoável a leitura integral do Alguma Poesia do Drummond, com Gullar, Antônio Cícero, Eucanaã e Chacal. Ouvir poesia é sempre bom, mesmo que os intérpretes não sejam Abujamra, Autran ou Pedro Paulo Rangel.

e) Aproveitei pra conhecer Robert Crumb. Li alguns livros dele na Livraria da Vila (principalmente o ótimo Meus problemas com as mulheres) e trouxe comigo o Gênesis. Adoro quadrinistas e ao saber que Crumb tinha influenciado Angeli, Laerte e Flávio, tratei logo de me apresentar.

f) A programação OFF foi uma comédia a parte: um show de uma dupla de roqueiros paratienses na Praia do Pontal assistidos por nós e um cachorro sarnento que insistia em dormir debaixo da nossa mesa e a descoberta de que a melhor pizza de Parati pode ser entregue na Pousada.

g) Tirando Gullar e Crumb, pouco acompanhei de mesas e literaturas. Não há de ser nada! Ano que vem eu volto!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Um dia daqueles


Veio me dizer que alguns biológicos ainda carecem de estudos fase III e ainda assim podem representar um ganho para pacientes com câncer. Também defendeu, num outro momento da discussão, que há medicamentos mais antigos que não foram testados em estudos fase III, mas que já se consagraram na terapêutica de determinada patologia e no entanto, são negados pelas operadoras porque não possuem evidência de boa qualidade metodológica. E ainda que 300 novas moléculas estão sendo testadas e brevemente estarão abastecendo as drogarias e que não se pode conter o avanço da ciência.
No íntimo, pensava em Borges dizendo pra Vinícius que a felicidade é mais importante que a alegria, por sua serenidade, e que não há nada mais ridículo do que um bêbado bobo alegre. Depois o Ipod começou a tocar o disco novo (e único) de Luisa Maíta e aprumei: a primeira impressão é de que se trata de um belo disco!
Eu não sei porque essa mania de cantora achar que gravar uma canção do Jorge Mautner, do Waly Sailormoon ou do Jards Macalé pode tornar o disco vanguarda. Nina Becker repete a cena com Lágrimas Negras em Vermelho. Desnecessário.
Hoje fiz duas palestras sem power point e me senti absolutamente a vontade e bem só com uma colinha básica para não faltar nenhum assunto. Minha meta para os próximos 10 ou 15 anos é abandonar de vez as apresentações com slides. Elas costumam idiotizar o andamento da discussão.
O dia hoje foi longo e encontrei a cantareira tarde e sem filas. Se não fosse tão cansativo, preferia deixar pra pegar a barca das 20 todo dia. É tudo mais calmo, as moças são mais serenas e a Baía parece limpa.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Sal de frutas

Hoje seguindo a rigorosa dieta da maçã, fomos eu, Renatinha, Sandra Carreirinha e Ronaldo à Parmê. Passei a tarde conversando com as pizzas. Regorgitante igual um papel toalha molhado, apelei para o velho sal de frutas para ver se chegava em casa inteiro. Não há qualquer evidência científica de que o sal de frutas, assim chamado por seu rico conteúdo em sal e frutas, atue no alívio gástrico. A percepção é puramente intuitiva. E agora cá estou a escrever essas notas inúteis, porém recomendativas para pequenos obesos: fuja da Rosário na hora do almoço! É a falta do Longarino, que não permite esses excessos gordurosos na turma.
Acho que tomei muito café também. A verdade é que cheguei em casa apagado depois de um dia aceso, ao contrário de ontem.
Ontem vi o açucarado Idas e vindas do amor. É filme pra ver acompanhado, de preferência debaixo de cobertas. A solidão tem dessas contra-indicações: filmes açucarados, canções mela-cueca dos anos 70 e clássicos da poesia barroca. Fuja!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Segunda até que nem tanto

"Para apalpar as intimidades do Mundo é preciso saber:

a) que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) o modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) porque é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos
e) como pegar na voz de um peixe
etc
etc
etc"

Manoel de Barros

A fila da cantareira dava voltas e Wilson das Neves cantava no meu ouvido seu novo disco abençoado. Abençoados também cantavam, os discos novos do Strict Joy e de Victor Biglione. Victor faz com Marcos Nimrichter, uma versão perfeita do Trocando em miúdos.
Segunda farta de trabalhos, mas pude conduzi-los à minha maneira, o que nem sempre é possível. Nenhuma reunião pra interromper e resolvi metade da semana. E ainda deu tempo pra fazer dois recreios de 15 minutos e ler a literatura poética que meu amigo Nei me manda. Mais um dia desses e dá até pra pensar em férias mesmo.
Cheguei em casa, Cléo Pires me esperava. Nem acreditei! Abençoada Cléo! Belas curvas abençoadas.
Ainda dei de cara com comentários de Letícia, Renatinha, Silvia, o blog está bombando.
Na hora do almoço, procurei em vários sebos uma edição do Senhor dos Anéis pra Luisa. É um livro que só aparece em número absurdo nas prateleiras sebosas quando você não precisa dele. Está certo, Luisa merece um novo.
Fiquei triste a maior parte do dia, mas depois achei melhor computar o saldo das boas horas passadas com Leticia, Sandra e Ronaldo e anoiteci melhor.

domingo, 8 de agosto de 2010

Meu pai

A gente aprendeu a acordar e a tomar a benção bem cedinho, porque meu pai invariavelmente acordava muito cedo pro trabalho. Ainda hoje acorda. Os anos duros não lhe deram boa vida e o novo tempo acabou se revelando ainda mais duro.
A apereza dos anos não tirou-lhe a força. Sempre manteve uma rotina invejável de trabalho pesado. Ainda hoje é assim. Ainda hoje, o invejo.
Invejo o fato dele chegar em casa todo dia na hora do almoço e encontrar sempre a mesa posta, o arroz fresquinho, o acolhimento familiar. Almoço normalmente em restaurantes a quilo, minha familia é minha equipe de trabalho e o almoço acaba quase sempre sendo parte do trabalho.
Nunca consegui estabelecer nenhum ritmo pra minha vida. Não sei exatamente onde moro, nem sei pra onde vou, muito menos a que tempo. Sempre essa coisa anárquica de querer estar em todos e em nenhum lugar ao mesmo tempo. Mas meu pai esteve sempre ali.
Está ali hoje vendo seu faroeste noturno. E que ninguém lhe aborreça na hora do faroeste! Ainda fala com saudade dos velhos cantores que amava. Do luto que passou quando Francisco Alves morreu.
Meu pai nunca fez concessões musicais. Cresceu ouvindo o dó de peito. Chico Alves, Carlos Galhardo, Nelson Gonçaves, Silvio Caldas eram a rádio lá de casa. Aprendi a gostar deles e das raízes da nossa música pelo discos de 78 rpm do meu pai. Quebrei alguns. Fiquei de castigo muitas vezes. Adorava fuçar sua discoteca e sua eletrola telefunken. Espero que seu coração musical não silencie nunca.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Recordações de um velho flipeiro

E então, como faço todo ano há sete anos, pela segunda vez com as meninas e dessa vez com um dia de atraso, cheguei ontem a Paraty para a FLIP.
Só não estive aqui em 2003, na primeira. Em 2003 eu ainda estava tentando sobreviver. Uma parte amputada de mim no fatídico ano de 2002 ainda teimava em supurar, me perdi de mim. Em 2003, não fui a nada.
Portanto minha primeira FLIP foi a segunda. Vim com Letícia e ficamos aqui mesmo na Pousada das Acácias, na Estrada Paraty-Cunha. Acho que foi a melhor. Pra nós, foi a FLIP da Alice Ruiz, a de Sérgio Santanna, a de José Miguel Wisnick. Foi a FLIP do Casarão do Cunha, onde fizemos uma Oficina de Haicai com Alice Ruiz. De manhã, ficávamos na rede do chalé lendo um para o outro, os contos do Vôo da Madrugada. Éramos felizes para nós e isso já era suficiente.
Em 2005, voltei com Leticia e ficamos numa Pousada mais próxima a Paraty. Ainda existia o Casarão do Cunha e fomos ver Hermínio Belo e Paulo César Pinheiro. 2005 foi também a FLIP de Fabiana Cozza e de Marcelino Freire. E Amós Oz. Foi a Flip que descobrimos que Maria Martha morava em Paraty (foi Fabiana que contou). Foi a primeira vez que fomos ao Margarida Café ver Maria Martha. Foi quando nos apaixonamos por ela.
Em 2006, vieram conosco, Mário e Marila. Foi a FLIP da Maria Valéria Resende. Tínhamos acabado de ler O vôo da guará vermelha e queríamos conhecer de perto a autora. Ela nos apresentou a uma leva de escritores pernambucanos. Foi quando começamos a frequentar o Che Bar. Fomos ver Fabiana no Che Bar.2007 foi o meu ano solitário. Nunca gostei de andar sozinho, mas nesse ano superei o desgosto. Fui ao Festival de Jazz de Ouro Preto e à FLIP. Foi o ano que conheci Camila. Literariamente, foi a mais intensa. Fiquei na Pousada do Cafu, ao lado da Praça da Matriz. Foi a FLIP do Chacal e seus poemas americanos. E de Augusto Boal. O homenageado era Nelson Rodrigues e Boal participou de uma mesa inesquecível, respondendo a uma crônica antiga de Nelson. Dois textos para ficar na história da FLIP. Também foi a FLIP de Jim Dodge e sua Fup. O Che Bar estourava de noite. Vi Marina de la Riva, Thaís Gulin, bebi todas as bohemias pretas na noites ácidas do Che Bar.
Em 2008, voltei com Letícia novamente na Pousada do Cafu. Já não estávamos juntos, era só a boa companhia de sempre. Maria Martha já era uma velha amiga. Já chegávamos e ela já sabia que mudaria seu repertório de sucessos indefectiveis e teria que tocar Vanzolini e Gudin pra nós.
Ano passado, vim pela primeira vez com Laura e Luisa. Voltei à Pousada das Acácias. Foi uma festa ver as meninas encontrando esse ambiente familiar e literário de Paraty dessa época. Foi a FLIP do Manoel de Barros e de Antônio Lobo Antunes. Fomos ver a pré-estréia de Só 10% é mentira. Foi a FLIP de Domingos de Oliveira e Carlito Azevedo.E então, aqui estou de novo. Na esperança de que outras histórias me acolham bem.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Saudade da vida

"Não tenho medo da morte
O que eu tenho é saudade da vida."

Vinícius de Moraes.

Finalmente meu Ipod resolveu fazer uma sequência perfeita depois de algum tempo titubeando. Pra começar, apostei pouco nesse Banguê, de Ilana Volcov e me dei mal: é um discaço! A começar pela belíssima gravação de Encontro de Paulinho da Viola. Ilana faz com maestria o que Fabiana Cozza já tinha feito no Samba é meu dom: grava o samba com um acordeon dando voltas em torno do arranjo. Um achado! Já conhecia vagamente a cantora do disco do Gudin e do Barbatuques, agora gamei de vez.
O disco de Roberta Sá com o Trio Madeira Brasil cantando Roque Ferreira já veio com a promessa de disco do ano e não compromete: tudo feito com muito bom gosto e bem escolhido. Só pode ser doente do pé aquele que não gostar desses sambas de roda, xulas, maxixes, maracatus e cirandas.
O lado B de Dominguinhos e Yamandu Costa é ainda melhor que o lado A. E aqui sim, uma Felicidade de fazer Lupicínio ressuscitar e sair dançando de alegria.
Pato Fu (Música de brinquedo), Mariene de Castro (Santo de Casa) e Davi Amarante (back2basics) completam minha seleção atual com ótimos discos.
Meu Ipod está muito bem. Eu, nem tanto. Mas quando a música entra macia nos ouvidos, já é alguma coisa.
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Renatinha me indicou esse inglês A invenção da mentira. Um dos melhores que vi esse ano, com Rick Gervais em mais uma atuação de primeira grandeza.

domingo, 1 de agosto de 2010

Felicidade


Amanheci como sempre: olhando as paredes e me perguntado o que vai ser desse domingo. Procurei um filme nas caixas e achei que era bom dar uma guinada na mesmice cinematográfica que vem me acompanhando: peguei Felicidade de Todd Solondz. Nada poderia ter realçado mais ainda meu pessimismo. Solondz faz um filme corajoso e realista, uma espécie de Beleza Americana apodrecido. A comovente e avassaladora destruição do sonho americano. Atuações impecáveis, mas vale destacar o pai da família interpretado por Ben Gazarra, que consegue dar luz a um papel pequeno, um sujeito que chega num ponto da vida e simplesmente desiste. Belo filme!
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Não é comum gravadoras brasileiras se interessarem por discos de tango, exceto uma ou outra coletânea caça níqueis de Gardel ou Piazzolla. Achei portanto louvável que a Biscoito Fino começasse a investir. Dois discos de tangos lançados pela gravadora recentemente estão na agulha do shuffle: Cristian Zarate Sexteto (Tango Evolucion) e Marcelo Costas (A Música de Astor Piazzolla). São bons discos mas não trazem nada de novo que os tornem encantadores. Não é a mesma emoção que senti quando ouvi o Mucha Mierda da Orquestra Fernandes Fierro ou o disco que os irmãos Assad fizeram com temas de Piazzolla. Mas já é um começo.

Crônicas de Motel 5

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