segunda-feira, 28 de março de 2011

Águas de março

Dorina, Brasileirice e Cida Moreira, A dama indigna estão dividindo o título de disco do mês. Talvez por terem trilhado caminhos opostos, é difícil compará-los. Cida faz uma revisão do que cantou ao longo desses anos, misturando Brecht, Chico Buarque, Gershwinn e naturalmente, Jovem Guarda, entre outros. De voz aguda e piano anárquico, o disco oferece belas versões de Mãe (Gal), O ciúme (Bethânia) e Back to black (Amy). Já Dorina faz um disco muito bem arranjado, de ótimos sambas e maxixes, evocando Luiz Carlos da Vila, Monarco e o onipresente Roque Ferreira. Gostei dos dois igualmente e não há como optar por um.

Aaron Neville, I know I've been changed - acho que devo meu resto de fé religiosa à Paixão e Fé do Milton, ao Salmo do Edu e Chico, à Medalha de São Jorge do Aldir, e outros cantos que nos alinham a Deus ou qualquer coisa parecida. Aaron Neville, certamente uma das vozes mais belas e diferentes que conheço, consegue acrescentar um rosário de canções para reforço de fé.

Beto Guedes ao vivo - Beto já declarou que parou de compor. Nesse DVD ele revê o lado B da carreira. Há algumas chatices e pelo menos um grande clássico: A página do relâmpago elétrico. Em todo caso, prefiro as versões originais.

Caetano Veloso, zii e zie ao vivo - Zii e zee funciona muito melhor ao vivo do que em estúdio. E foi ótima a idéia de cantar canções próprias ainda não gravadas pelo autor, como a belíssima Aquele Frevo Axé.

Cristina Branco, Não há só tangos em Paris - gosto da intérprete desde que ouvi sua versão para Alfonsina y el mar, do seu primeiro disco lançado no Brasil. esse novo preserva a vos, o bom gosto na escolha do repertório e os ótimos arranjos. Adorei Invitation au voyage.

Markinhos Moura, Mulheres e canções - já tinha esquecido do bom cantor quando vi o disco. Gostei. Markinhos dialoga com várias cantoras em bons momentos e outros razoáveis. Destaque para a participação de Amelinha n'O Coito das Araras.

Diego el Cigala, Cigala e tango - Diego fez um disco muito bom com Bebo Valdez, mas sua investida no tango deixa bastante a desejar. Esperava mais.

Johnny Alf por seus amigos - achado na minha última incursão à Livraria da Cultura em São Paulo, a caixa que homenageia Alf lançada pela Lua Music promete pelo bom gosto. Comecei por esse Johnny Alf por seus amigos. Posso ouvir Eu e a brisa milhares de vezes que vou me emocionar. Essa com Leila Pinheiro é das melhores do disco.

Lidia borda, Entre sueños - dos discos que comprei em Buenos Aires, esse foi o terceiro que coloquei no shuffle. Não conhecia a cantora. Esse Entre sueños é de primeira grandeza. Enxuto, clássico, acompanhado por duas guitarras precisas. Antológico.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Ignaras vedetas



Hoje
andei na rua de megafone

a apregoar o teu nome
e o amor que sinto por ti.

Hoje
cuspi fogo à porta do metro
e entreguei mais de mil panfletos
e todos diziam assim:

Hoje o mundo venera
todo o destemido pateta
que faz pouco de si

E se eu for ignara vedeta,
será que na rua deserta
tu reparas em mim?

Hoje
declarei-me em todas as praças
grafitei na rua onde passas
"o meu amor passou aqui"

Hoje
fiz o pino e uma canção
e hei-de ir à televisão
só para que ouças assim:

Hoje o mundo venera
todo o destemido pateta
que faz pouco de si

E se eu for ignara vedeta,
será que na rua deserta
tu reparas em mim?

Pedro da Silva Martins


Um pequeno fado pode também me salvar dos abismos. Ainda mais um delicado como esse do Deolinda e sua vocalista Ana Bacalhau. O grupo português parece querer renovar o fado e até certo ponto consegue, mesmo que você torça um pouco a orelha. Dois selos e um carimbo vale uma espiada.

Porque hoje é sábado, é provável que dois ou três amigos do choro venham aqui pra casa chorar um pouco. Combinei com Jadim umas traíras. Passei a tarde de lombra e assisti Como você sabe?. O filme é uma pequena lástima e dá saudade do Nicholson de Um estranho no ninho, O informante e até Melhor é impossível, do mesmo diretor. Mas o melhor mesmo foi passar a tarde de lombra com Didi. Valeu a vinda. Aqui tudo é silêncio bem vindo e nada fazer.

Try a little tenderness

Acordo confuso, desorientado, pareço estar ainda no centro cirúrgico com minha mãe. Toda vez que um ente meu sofre um revés, faço um diagnóstico de mim mesmo. Na tela aparece um sujeito chegando nos 50, obeso mórbido, hipertenso, dislipidêmico, contas a pagar, filhos a criar, dúvidas. Até quando essa roda viva?
Entro no carro e ligo pela ordem o ar, o som e o carro. Sempre foi assim. Aí Aretha começa a cantar Try a little tenderness e deixo me envolver pelo naipe de cordas, pela suavidade do arranjo, pela voz, como uma brisa suave, -o inesperado fazendo surpresa-, e fico salvo de mim mesmo. Sempre foi assim. Uma canção de afeto salvando meu dia.
Você pode comprar na Arlequim do Paço (48 pratas) ou a Amazon (10 dólares + impostos), esse The Great American Songbook de Aretha Franklin, ou baixar de um site pirata, mas não deixe de ouvir. É uma seleção extraída das gravações que Aretha fez para a Columbia. Nunca fui muito fã de coletâneas, mas essa é precisamente correta. Quem fez foi muito cuidadoso com o repertório da cantora.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Artroplastia total de joelho

Fiz medicina pra fazer psiquiatria. No segundo ano, um colega estudioso de psiquiatra me convenceu que eu não tinha talento algum para a especialidade. Comecei a me envolver com a clínica médica e depois com gestão de saúde, onde me encontrei. Acho que presto para alguma coisa fazendo gestão.
Certo mesmo é que sempre fugi da cirurgia por falta de mão e talento, naturalmente. Instado a entrar num centro cirúrgico, estranho aquele cheiro, aquele habitat natural de toda equipe cirúrgica, fico pouco à vontade.
Hoje minha mãe colocou uma prótese no joelho direito. Chamado à responsabilidade de filho e médico, lá fui eu.
Não é uma experiência muito confortável assistir uma artroplastia de joelho. O instrumental é de carpintaria de luxo: martelo, serra elétrica, furadeira. E o ortopedista não pode ter cerimônia em martelar, furar e serrar. A perna, depois de isolada por muitos panos, parece amputada. Mas flete, estica e roda como qualquer perna. E o cirurgião tem prazer em ficar fazendo movimentos com a perna esquecida do resto do corpo temporariamente.
Garanto, não tive engulhos, mas saí de lá convicto de que no meu, não!!! Meu joelho vai apodrecer do jeito que está. Sem ferrolho.
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Sempre acreditei no futebol do Deco. Para os mais céticos (inclusive Chicó) argumentava que um dia ele revertia essa onda de contusões e jogava bola. O dia foi ontem. 30 minutos de Deco, Fluminense 3x2 América do México. Chicó nem atendeu o telefone. Devia estar comemorando!
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Vejo outra vez, com inenarrável prazer, a primeira temporada de Deadwood. Alone again. Deadwood parece aqueles velhos filmes que você faz questão de ver de novo e sempre aparecem de modo diferente.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Joel Santana


Em 25 de junho de 1995, Miracema tinha duas antenas parabólicas: a minha e a do Clube XV. A minha era uma antena Santa Rita de 3 metros de diâmetro, um trombolho dificílimo de sustentar. Não me lembro se era globosat ou o que, fato é que o jogo passou lá em casa. Reuni os amigos. Devia ter uns 20 flamenguistas (franco favorito) e eu. Bom, tinha uma que era meio botafoguense meio tricolor e nesse dia torceu ardorosamente pelo Fluminense. O jogo ia pelo fim e pelos dois a dois e parecia encerrar assim a temporada carioca para o Fluminense, quando Ailton mandou uma bala que foi escorada pela barriga de Renato Gaúcho e entrou. Aquilo foi uma saraivada de Flamenguista emudecendo e saindo da sala e eu pulava feito um cabrito bêbado comemorando. O técnico do Fluminense era Joel Santana.
O mesmo Joel Santana que a "facção" que apoiou a eleição de Peter Siemsen tenta repudiar. Como assim? Em primeiro lugar, facção já é um termo meio esquisito. Leio facção e já começo a entender a saída mal explicada de Muricy, a humilhação que passamos para conseguir um novo técnico tentando nomes consagrados, porém empregados, até chegar ao desconhecido Gilson Kleina. Joel Santana não começou no futebol ontem e tem o benefício de conhecer o time. Por tudo que fez, merecia a oportunidade de tentar arrumar a casa, que, convenhamos, anda mal demais.
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Um clássico do cinemão está em cartaz. Chama-se 72 hs e tem ação e Russel Crowne pra sair do cinema querendo aprender artes marciais. Um outro pretenso cinemão, ma non troppo, é Desconhecido, com o ótimo Liam Neeson e o pitéu January Jones (de Mad Men). Também vi e achei muito ruim o claustrofóbico filme Enterrado vivo. Fuja!

sábado, 19 de março de 2011

Cartas de amor para Julieta

Impossível resistir ao charme de Vanessa Redgrave e Franco Nero em Cartas para Julieta, filme docinho que deixei pra ver com Didi e funciona muito bem no quesito "é sábado a tarde, vamos ver um filme docinho, meu amorzinho". Chocolates e esse silêncio miracemense.
Também assisti ao simpático e, menos doce, Away we go, aqui terrivelmente alcunhado de Por uma vida melhor, do diretor Sam Mendes. Passa longe de Beleza americana ou Foi apenas um sonho, mas tem seus encantos.
Fato é que... deu vontade de escrever (!!!), coisa que não tem acontecido ultimamente, ando atravessando um período manoel-de-barros de árvore.
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Dia desses liguei para Clai Coelho do Nascimento. Clai é uma amiga dos anos 80, que morava em Paraíso do Tobias, próximo à Odete Lima, onde habitei dos 17 aos 21. Muitos anos depois, revi Clai no Hospital do Andaraí no internato e depois nunca mais. Tomei coragem e perguntei ao Rê, cabelereiro das meninas e ele me passou o telefone. Liguei. É a mesma Clai de sempre, é possível reconhecer pela voz: solícita, de bem com a vida, e trabalha perto de mim. Armamos um café, mas acabei desistindo. Pouco importa, velhos amigos nunca deixam de ser amigos. Clai tem seu espaço num dos meus ventrículos, provavelmente o esquerdo.
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Foi assim também que reencontrei Renatinha 30 anos depois e parece que tinha sido ontem. Mas essa não deixei que me escapasse. Trouxe para minha sala.
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Não sei não, mas esse reencontro de Franco e Vanessa me deixou comovido como o diabo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Indagatório inútil

Estranhíssima essa saída do Muricy. Quando recusou a Seleção Brasileira, ele já tinha conhecimento da estrutura do clube, que agora deixa numa situação delicada. Vai entender!?!?
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Adriana Calcanhoto parece estar lançando um disco chamado Micróbio do Samba. Não seria uma referência ao explêndido Micróbio do Frevo, de Silvério Pessoa?
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Peguei uma série brasileira na estante pra ver: Amazônia, de Galvez a Chico Mendes. A série parece boa, mas quem aguenta 25 horas ininterruptas de história?
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A ECAD informa os compositores que mais arrecadaram direitos autorais em 2010. Em primeiro lugar, disparado na ponta, João Victor, da dupla Victor e Léo. Em segundo, Sorocaba, da dupla Sorocaba e nãoseiquemlá. Onde estou? Quem sou eu? Que país é?

sábado, 12 de março de 2011

Carnaval na Ilha



Vi o barco aportar na Ilha Grande com a família estendida em mais uma temporada litorânea e carnavalesca, como fazemos há vinte e cinco anos. Esse é o tempo de juntar os cacos da minha família e observar como crescem, como se comportam diante da vida.

Vi a Vila do Abraão e intuí que deviam ter avisado que é só uma vila, que para se ir à praia tem que ser de barco, e que os lugares mais bonitos da Ilha são lagoas profundas, nos longes da Ilha.

Vi o barco Papyk 1 ser alugado para passar os 4 dias por nossa conta. Vi o Saco do céu, a Feiticeira, Abrãozinho, as Lagoas Verde e Azul, o Caxadaço, e outros tantos pedaços de Ilha que terei de ir ao mapa pra recordar tanto nome. Não encontrei mar mais bonito do que o da Lagoa Verde.

Vi a farra honesta de sempre transbordar-se em churrascos intermináveis no barco, histórias de rir e chorar, conversas de fim de noite no carteado e a saudável convivência de amigos e filhos que vieram aqui para conversar e se divertir.



Vi Laura dançar leve e solta na muvuca da Ilha num carnaval agitado como o meu dos dezoito e Luisa preferir a leitura solitária no quarto da pousada. Nem faço idéia da parte que me toca na linha que separa esses dois comportamentos imprevistos.

Vi Chicó se esbaldar na água e sambar desajeitado na rua e imaginei que devem ter sido assim os meus 9.

Vi uma mulher dedicada, uma dona de pousada sizuda, um sujeito idêntico ao Seu Madruga, uma loja que tinha camisa tamanho urso, o sorvete a kilo mais caro do Mundo, o cheiro azedo das ruas carnavalescas, a insônia e a constipação e pela internet, o Fluminense ganhar dois jogos do carioca.

Vi tudo isso flutuar pela Ilha Grande no indefectível carnaval dos meus anos cinquenta.

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Até bem pouco tempo atrás, nunca tinha ouvido falar em Peter Siemsen. Já Muricy Ramalho, conheço de muitos anos.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A dama indigna

Os torcedores do Fluminense estão cabisbaixos hoje no centro do Rio. O time perdeu mais uma, ainda não encontrou seu padrão de jogo, a defesa passou a vazar com frequência, e Conca parece que esqueceu o futebol no joelho antigo. Toda vez que a equipe começa a perder, se instaura uma crise política entre diretoria e patrocinador que reflete negativamente no rendimento. Essa crise é invariavelmente estimulada pela imprensa, especialmente o flamenguista de carteirinha Renato Maurício Prado. Já começaram a especular sobre a saída do Muricy, do Alcides, da reformulação do elenco. Tudo isso é muito ruim para o time, que precisa de sossego para trabalhar. Ainda é cedo pra fazer qualquer avaliação, mesmo que a Libertadores já esteja perdida.
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O que me salvou nessa cinzenta manhã de quinta foi ter começado a ouvir A dama indigna, novo cd de Cida Moreira. Comprei na Livraria da Cultura na última ida a São Paulo e estava me desvencilhando dos discos de fevereiro pra botar esse no shuffle. Gosto de Cida desde sempre. Nos anos 80, assisti a ótimos shows dela no Rival, com versões de canções de Brecht, Cole Porter, cantando Chico ou canções de cinema. Duas canções da Ópera do Malandro que ela canta maravilhosamente bem em shows, estavam faltando nos seus discos: Viver do amor e Uma canção desnaturada. Nesse, ela faz a Canção desnaturada, mas ainda não chegou aos meus ouvidos. Mas já chegou a canção da jovem guarda Maior que o meu amor. Não sei porque cargas d'água há tanta gente querendo resgatar a jovem guarda, mas é difícil alguma coisa soar feia na voz de Cida. E uma que é quase só piano e um O ciúme que compete com a inesquecível versão de Maria Bethânia. A Cantareira ia lenta pela Baía de Guanabara e a canção de Cida Moreira ia tornando o Mundo mais fácil de suportar.

terça-feira, 1 de março de 2011

Patrão, o trem atrasou


"Na sala numa fruteira
a natureza está morta.
laranjas, maçãs e peras
Bananas, figos de cera,
decoram a noite torta"

Itamar Assumpção

Ontem a noite, já quase dormindo, lembrei do meu texto inútil e achei que incluir esse trecho da canção do Itamar (Noite torta), teria definido melhor o meu cenário. Incluo agora.
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Ainda ontem, a insônia me trouxe o suspense All good things (Entre segredos e mentiras). Baseado em fatos reais, tem ótima atuação de Kirsten Dunst.
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Está cada vez mais vergonhosa a situação da Barcas SA. As cantareiras não dão conta do público e as filas e os tumultos vão ficando cada vez mais sérios. Ontem mesmo comentava sobre isso. Hoje levei uma hora na fila da Praça Araribóia. Só na fila!
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Pra quem se interessar (se é que existe), os discos ouvidos em fevereiro já foram postados lá.

Não se atravessa a Hadock Lobo pela direita

Definitivamente A Força do Querer não foi uma unanimidade. Ainda mais concorrendo com o terceiro episódio da décima temporada de Segura a O...