domingo, 28 de fevereiro de 2010

Você, você

Chloe O'Brian parece mais nova e mais jeitosa a cada temporada de 24h. Começou gorda e letárgica, agora está um pitéu. A série já dá sinais de esgotamento crônico, as tramas parecem cada vez mais recorrentes (cilindros nucleares já apareceram umas 4 vezes), mas ainda dá um caldo. Carolina, meu bem, o oitavo já foi. Mande-me logo as outras 16 horas.
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Tenho preguiça pra ver show em DVD. Por isso, muitos e muitos ainda estão no plástico. Hoje resolvi botar Noites de gala, samba na rua. Mônica Salmaso aparece inchada, cada vez mais parecida com Mercedes Sosa. Certamente é mais bonita ao vivo do que na tela. Mas o show começa lento e parece que não vai decolar até que ela tira Você, você da cartola e do violão preciso de Paulo Belinatti. Não tem jeito, baixou o Guinga na minha sala. Miraculoso Você, você, de deixar qualquer uma de beiço caído. Interpretações magistrais de Basta um dia (outro peça arrebatadora, da Gota D'água), Morena dos Olhos d'água, Olha Maria e etc. Chorei na Beatriz dela e de Nelson Ayres, linda de nada dever à clássica interpretação de Milton. Só não consigo desvincular Construção do arranjo de Rogério Duprat, por isso achei esquisicto. A Moda do Pau Brasil, tema de Rodolfo Stroeter que apresenta os músicos, é um achado.
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Mônica caiu na armadilha de gravar Chico como já fizeram outros 527, e por mais que o faça soar inédito e bonito, não deixa de ser um mais do mesmo. Mas um mais do mesmo com Ayres, Bellinatti, Stroeter e Mônica nunca vai ser ruim de ouvir.

Sim, eu sei


Sim, eu sei, ando muito provocativo. Mas não consigo mais permanecer nesse estado vegetal, sem ao menos provocar. Ontem, sábado, achei melhor ir trabalhar. Cheguei na empresa, comecei a fuçar papéis, organizar arquivos, analisar pareceres. Depois juntei tudo isso num texto. Tudo que está ali condensa um processo inteiro em 3 páginas. Resume, ajuda, queima etapas pra quem quer conhecer. Muito poucos lerão. O ser humano em geral, eu em primeiro, tem preguiça mental de ler. Quem ler aquilo, vai se sentir provocado. Esse mesmo é o objetivo!
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Sim, eu sei, ando meio apavorado com os compromissos. É um atropelando o outro sem pedir licença e quando acaba, já tem outra reunião esperando. Reuniões de trabalho geralmente resultam em baixo nivel de aproveitamento, dificilmente você rende o mesmo que quando está sozinho em frente à máquina. Como ontem, sábado, em que fiquei de 9 às 15 produzindo trabalho. Transpirando trabalho.
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Sim, eu sei, aproveitei muito pouco o descanso. Tenho uma dificuldade enorme em apreciar o instante. Vivo quase sempre isolado de familia, amigo, vizinho, humanidade. Acostumei-me com o ócio solitário do apartamento. Investi nele. Hoje acordar e saber que Laura dorme no quarto ao lado e que a qualquer momento pode pintar um café, é uma dádiva.
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Sim, eu sei, perdi uma grande batalha que travei com os remédios. Achei que um dia pudesse detoná-los da minha vida. Mas, enfim, venceram! É preciso começar de novo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Inéditas de Itamar

Francisco José Itamar de Assumpção, o maior gênio da música brasileira surgido depois da geração de 70 para inveja dos ululantes, morto precocemente, estupidamente e lamentavelmente em 2003, escreveu no fim da vida, 11 letras especialmente para o compositor Sergio Molina musicar e chegar ao público na voz de Miriam Maria. Daí nasceu o imprescindível "Sem pensar, nem pensar", mais um petardo deixado com a irreverência, a classe e a verve de Itamar.
De 2003 pra cá, têm aparecido canções derradeiras, inéditas ou não gravadas do compositor. Alice Ruiz tinha uma fita cassete inteira delas. Zélia gravou algumas. Ney Matogrosso tem gravado e Zeca Baleiro produziu o pedaço de disco que Itamar começou a gravar com Naná Vasconcelos, diga-se de passagem, um pedaço de disco que vale por muitos discos inteiros. Conheci Itamar através do vinil Às próprias custas, que depois a Baratos Afins lançou em cd com um som horrível. Depois o Flávio me presenteou com os discos das Orquideas e daí foi crescendo uma paixão arrebatadora pela sua música. Só o vi uma vez aqui no CCBB do Rio com Arrigo Barnabé, quando ele desconstruiu uma canção do Djavan (Boa noite), que deixou a platéia em transe.
Pobre do país que tem gênios e não aprende a valorizá-los. Itamar morreu desconhecido da mídia, é possível que daqui a milênios, alguém mais do que uns cinco ou seis gatos pingados como eu, possam ouví-lo com a atenção que merece.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Lágrimas autênticas

"Ter um filho desaparecido é como ter um vazio na alma. E agora minha alma está curada e cheia de alegria"
Abel Madariaga

Abel Madariaga encontrou seu filho Francisco, roubado pela ditadura argentina, depois de 32 anos. É comovente a história dos dois, contada pelo Estadão ontem. Os Avós da Praça de Maio ajudaram a encontrá-lo. Foi o instante lacrimoso do vôo de volta de São Paulo. Ultimamente tem sido difícil lacrimejar, fruto do uso regular de inibidores da recaptação de serotonina, que segundo Lourenço Mutarelli, deixam o Mundo mais verde. Mas a notícia me deixou bastante comovido. Nem sei bem porque. Esses lances de família são sempre delicados e comoventes e deve ser fascinante encontrar um filho perdido depois de 32 anos.
É possível que tudo isso seja porque Laura agora está aqui por perto. É uma sensação muito boa ter um filho por perto. Por uma ou outra razão que não convém lembrar agora, sempre fui um pai de fim de semana. Daqui pra frente, quero ser cada vez mais, um pai de todo dia.
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Esse empate do Fluminense com o Confiança de Sergipe é um mau prenúncio. O pouco que vi do jogo deu pra perceber que o time de Sergipe é bem limitado, alvo fácil de goleadas homéricas. O time precisa se acertar ou vai ficar mais longe ainda da tal hegemonia. Mau recomeço!!!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Eu sei, mas não devia

"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

Marina Colassanti
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Estou em São Paulo. Quatro horas de check-in e out, quatro horas de trabalho perdido. Que fazer ? Eu sei que a gente se acostuma.

Tenho um amigo excelente urologista, que abandonou a especialidade e se tornou oculista do DETRAN. Quem não tem uma história dessa pra contar? O governo não dá conta do que cobra bem cobrado e terceiriza serviços. Trata-se de uma dupla cobrança descarada, cujos serviços são prestados por apradinhados políticos que mal sabem fazer um exame oftalmológico. Há 3 anos atrás, fui reprovado no exame de vista. Duas vezes. Eu sei que a gente se acostuma.

Hoje de manhã fui numa empresa terceirizada (outra arapuca do governo) fazer a certificação digital da minha empresa. Paguei, agendei, precavi meu contador do meu tempo e da necessidade de levar os documentos corretos. O burocrata que me atendeu deu um jeito de achar um pentelésimo de cláusula indevida e me mandou voltar. Eu sei que a gente se acostuma.

É como se "oftalmologista" e burocrata pretendessem me dizer: aqui a gente faz a coisa certa. Lá fora, escondem dinheiro em cuecas, compram sentenças e panetones, roubam nas nossas fuças,mas aqui não. O Sr está proibido de dirigir e sua empresa vai continuar analógica. Eu sei que a gente se acostuma.

Saí do calor insuportável do Rio para encontrar... calor insuportável em São Paulo. Ainda assim andei pela Paulista atrás de qualquer motivação à venda ou dado de graça. Acabei almoçando às 18:15 (o atropelo das reuniões foi me levando no biscoito) no mesmo lugar de sempre. Um pé sujo depois da FNAC Paulista. Eu sei que a gente se acostuma.

Ainda estou no fuso horário de verão.
Esse Estanplaza Paulista é assim mais ou menos.
Saudades amargas de Cumuru e de S.
Saudades de Laura e Luisa.
Saudades de Chicó.
Eu sei que a gente se acostuma.

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NB: na Revistinha da Gol, Dani Suzuki dá a dica do café da manhã: o troço chama-se suco de luz e compõe-se de batata doce, limão, maçã, mamão com semente, abóbora, pepino, gengibre e sementes germinadas. A moça deve ser a combustão em pessoa. Eu sei que a gente se acostuma, mas no momento, eu estou ainda tentando evitar o pudim do café da manhã do hotel.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Nova Iguaçu 47º

Em Nova Iguaçu, hoje no pino de 13h, marcavam 47º no carro do Lugarinho. Só lembrava do vento manso de Cumuru e das meninas se cheirando. Quanto mais o tempo vai passando, mais vou sentindo falta daquela semana já tão distante na minha rotina rapidamente recuperada. Vão se os anéis, ficam as fotos.
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Adoro Tarantino. É meio clichê isso, mas é assim mesmo. Meu preferido é Pulp Fiction, mas também gostei muito de Cães de aluguel, Amor a queima roupa (roteiro dele e divindade de Patricia), e médio de Jackie Brown e dos dois volumes de Kill Bill. As trilhas sonoras são sempre irressistíveis, os filmes constituem-se grandes referências do cinemão. Por isso, lamentei não ter visto Bastardos Inglórios quando estreou no cinema. Agora que saiu em DVD, corri na locadora. Ainda não é o primeiro triplo A do ano, mas leva um 2,5. Ótimo elenco, excelente roteiro,bela trilha!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Trilha sonora 2


Luisa menininha (da idade do Babu na foto, um pouco mais talvez) adorava cantarolar canções de Sinhô, Noel, Caymmi, as músicas que eu ouvia (e ainda ouço) no carro e ela decorava rápido e me surpreendia de repente, sem a menor cerimônia. Eu ficava encantado com aquilo.
Anos se passaram e Luisa hoje só ouve rock, metal, progressivo e nem se lembra mais dos maxixes que cantarolava.
De forma que preparei 4 seleções pessoais para a viagem, , duas dos Beatles (pra Laura, que anda ouvindo muito o quarteto) e duas de rock (pra Luisa). Funcionou médio. Luisa não costuma abrir mão do seu Ipod por nada, e Laura dessa vez preferiu ouvir Luiz Tatit, Itamar e Adriana Calcanhoto.
Aproveitei pra mostar pra S., uma seleção de poetas brasileiros e ouvir algumas canções semi-inéditas. As que mais voltaram foram:

La comparsa, com Anat Cohen and The Anzic Orchestra, do disco Noir - a música de Lecuona, que parece ter sido escrita para o piano de Bebo Valdez, ganha contornos novos e exuberantes para a orquestra e o trompete de Anat. Noir é um disco pra ir se descobrindo aos poucos. La comparsa voltou muitas vezes em Cumuru.

Barracão é seu, com Geraldo Maia, do disco Samba do mar quebrado - clássico do repertório de Clementina ou samba bissexto de Luiz Gonzaga e Dario Souza, no disco de Geraldo, ganhou o nome de Tenho onde morar. É possível que tenham existido duas músicas com o mesmo refrão, pouco importa, a interpretação de Geraldo é sentida e gostosa como a de Clementina.

Feijão com couve, com Geraldo Maia e Silvério Pessoa, também do Samba do mar quebrado - outra bissexta parceria de Luiz Gonzaga e J. Portela, com arranjo de sanfona, violino e piano quase que recompondo o Trio Surdina.

Cartas de metrô, com Pedro Miranda - belíssimo samba de Moisés Marques do disco Pimenteira. Uma música dolente, que mostra que há bons compositores contemporâneos de samba. Moisés, Duani, Rômulo Fróes, é bom saber que existem.

A mesa, com Paulo César Pereio - o poema de Drummond ganha uma interpretação perfeita do Pereio. Eu ouvi umas 3 vezes, mesmo sabendo que ninguém aguenta prestar atenção nos 12 minutos de récita, mas aí é a minha vez de ouvir e talvez chorar um pouco.

Rosinha dos limões, com Kátia Guerreiro - eu gosto demais desse fado, que conheci (!!!) num disco do Martinho há muitos anos. Kátia conseguiu torná-lo mais moderno e suave, sem ferir suas notas.

Adoro viajar com minhas filhas. Só me sinto cansado depois que desligo o carro. Até lá, vou me embalando com nossas canções. conversas e o sono tranquilo delas. S. também se comportou muito bem como ouvinte. Foram 24 horas de bons fluidos.

Trilha sonora 1

O barco se chamava Rei Cigano, de forma que eu aguardava ansioso por um Georges Boulanger ou Django Reinhardt, mas o que veio mesmo foi um pagode sertanejo insosso e descolorido, diferente do cenário privilegiado que nos rondava. Estava tão empolgado com o mar (não com a trilha sonora, obviamente!) que facilitei um pouco e tirei a camisa e ando até hoje sofrendo as consequências terríveis da insolação.
De repente, acho que fazendo jus ao nome, começou a tocar Vida Cigana (quem gostava de música brasileira dos anos 80 ou quem já passou pelo meu indefectível repertório violístico, deve lembrar dessa canção da Tetê), em forma de... pagode sertanejo (!!!). Foi nessa hora que pedi o balde ao marinheiro.
De qualquer jeito, pra quem passou 15 anos na enseada azul sendo obrigado a ouvir o Padre Jorge Matheus, Vitor e Léo, Mastruz com bosta e outras referências iconoclastas, a náusea durou pouco.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Linha de passe


Dos meus três melhores melhores amigos, um já morreu, os outros dois fazem aniversário em fevereiro. Alexandre fez 48 na quinta, 11 e Jadim 52 no sábado, 13. Há motivo de sobras para comemorar a amizade e o afeto que tenho pelos dois. Amigos desde onde já nem me lembro de mim, desde o longínquo jardim de infância, de contar muitas histórias comuns, viagens comuns, idéias, músicas e letras.
Há em toda grande amizade que dura mais de 40 anos, períodos de maior aproximação e outros menos convividos. Com os dois, não foi diferente. Mas o que mais marcou o afeto que nos dedicamos, foi que nunca nos afastamos, mesmo quando não estávamos juntos. Quer dizer, sempre existiu no íntimo de cada um, a presença do outro, ainda que longe. Pensar neles é como sentir que há mais dois além de mim em tudo que eu venha a precisar.
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Atualizando: vi (com S), com atraso de quase dois anos, o ótimo Linha de Passe, da dupla Walter Salles e Daniela Thomas. Tudo que já foi dito sobre o trabalho de Sandra Corveloni é merecido. O filme todo é um moto contínuo muito bem arregimentado por Salles e Daniela.

Traduzir-se


"Uma parte de mim pesa e pondera.
Outra parte delira."

Ferreira Gullar.
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A parte de mim que pesa e pondera, usualmente a parte mais constante, é um sujeito entediado ortodoxo. Prefiro a parte que delira. Infelizmente não sou eu quem define de que lado estou.
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O entediado ortodoxo acha que só vai à praia por causa das filhas. E aí quando o lugar calmo, de águas mansas, longe da euforia carnavalesca, não está agradando nem um pouco às filhas, o entediado ortodoxo se fecha num vazio azedo e se pergunta o que está fazendo ali.
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O entediado ortodoxo não percebe que há uma mulher à sua espera, coisa rara nesses últimos anos de carnaval, alguém que está ali pra cuidar dele e pouco faz pra enaltecer esse momento.
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O entediado ortodoxo dificilmente antevê que, expremendo bem, as filhas acabam gostando, porque a convivência é saudável e o lugar é lindo, e não há como não gostar dali.
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O entediado ortodoxo não enxerga bem o calor dos amigos, a constituição de uma familia master, as brincadeiras de Babu, o mascote da familia, a preocupação de cada um com o bem estar do outro, enfim, uma oportunidade quase única de estar entre gente de bem, que está ali apenas para dar e receber afeto.
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O entediado ortodoxo ainda não percebeu que o dono da pousada é um contista de cordel e tem histórias na manga pra contar de fazer esquecer que o ar condicionado é meio precário, que só se trocam as toalhas a cada 3 dias e que a piscina da pousada nunca está limpa (entediados ortodoxos adoram piscina porque não há areia para sujar os pés).
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Mas Cumuru é um convite ao delírio. Pra comer, tem o Caldeirão da Isabel e a Batataria, onde se pode comer, respectivamente um ótimo budião com molho de camarões e uma suculenta batata recheada. E ainda inventaram de combinar com Dona Edileuza, a cozinheira da pousada, fazer uma lagosta, que ficou assim, na categoria de comer ajoelhado.
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Mas as praias é que são a maior atração. Começamos pela praia de Cumuru, em frente à pousada, de águas mornas e maré baixa, de forma que se podia caminhar muitos metros sem cobrir o joelho.
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Dia seguinte, fomos à praia do Moreira, isolada, sem a logística do pão e da água, mas de um encanto natural acolhedor. Ficamos nós e um pessoal de Vila Velha só, conversando e tomando cerveja como se fôssemos velhos conhecidos a dividir os tira-gostos e a bebida.
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Depois, à Baía do Caí, já um lugar mais estruturado, mas igualmente isolado e bonito.
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No terceiro dia, pegamos um barco e fomos a Corumbau, a praia mais estonteante de todas. O passeio todo foi muito bonito.
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O entediado ortodoxo chegou ontem de noite estenuado depois de 12 horas de viagem ininterruptas e pode exercitar sem cerimônias seu velho azedume: brigou com a mãe e com a filha, depois dormiu profundamente, entendendo que a gente se acostuma a tudo, até a ser um entediado ortodoxo.
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De manhã, fiz a barba de 7 dias, levei a S10 pra lavar e peguei pela primeira vez num jornal e descobri que o Fluminense perdeu a disputa pela semi-final, Pena Branca morreu (mais um) e de resto, nada de novo.
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Tentei dar andamento a um projeto de trabalho que ficou mau combinado, liguei pro terapeuta pra transferir a sessão pras 19h de segunda, porque 18 tem reunião da vascular. Cheguei, estou vivo!!!
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Sobre Pena Branca, Artur Dapieve escreveu uma crônica muito bonita no Globo de hoje. Nem parece o Dapieve roqueiro incorrigível. Parece mais um crítico da boa música caipira.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Tudo que você deve saber antes de vir a Cumuruxatiba

As estradas são muito ruins.
As estradas, cara (!!!), são mesmo muito ruins!
O celular pega muito mal. O meu, claro, nem mal.
Não há conexão de rede, a não ser nessa lan house escaldante, com fila de espera.
Qualquer acesso à praia (leia-se qualquer estrada), é muito ruim.
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Depois de vencer os 790 km que separam Miracema de Prado, você tem que optar pelo litoral ou pela serra (ambas estradas de chão) para chegar a Cumuru (para os íntimos). Entre Cumuru e a Pousada Urupê, há uma estrada precária que passa por um aterro muito mal feito, pontes inacabadas, vielas intrasponíveis e tatatá.
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Estou sentindo falta de escrever. Mas escrever aqui, é luxo. Hoje cedo, peguei me perguntando aonde estou, será que é aqui nesse fim de Mundo que eu quereria estar mesmo. Bom, há de ter suas compensações, mas essas só começo a escrever, quando voltar.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Paixão e telefone

Detesto telefone. Minha mãe, por favor, aprenda isso, detesto telefone!!!
Pra matar a saudade, não serve, são só palavras do outro lado da linha. Pra trabalhar, só serve pra empresa. Funciona como a coleira do cão.
Da minha infância e adolescência, lembro de algumas vezes ter ouvido meu pai esbravejar por causa da conta de telefone. Significa que nem sempre detestei telefone.
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A primeira grande paixão da minha vida aconteceu por volta do início dos anos 80 e da escola médica. Tive umas quatro ou cinco grandes paixões nesses 48. Todas intensas, desmesuradas, irracionais, platônicas. Todas começavam comigo. A primeira não foi diferente. Apaixonei-me pela menina de voz mansa, olhos claros, sotaque estranho e diferente de tudo que eu já tinha visto. Ela nem me notou.
O cenário era o seguinte: final do primeiro ano de medicina no Catete, um calor bem mais ameno do que esse, idas intermináveis à Miracema e conversas intermináveis ao telefone. Meu pai era sócio da Usina Santa Rosa. Eu ia à Usina pegar cachaça e ....telefonar! Ficava horas falando com Rio, Brasília. Onde quer que fôssemos (eu e ela), lá estava eu telefonando. O amor dilacerava torrente ao telefone.
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Ontem ficamos eu e Laura zumbizando até meia noite a procurar o estudo semiótioco das canções, do Tatit, que Lau quer ler. Está escondido em alguma caixa, estante, armário ou qualquer buraco da casa que possa suportar um livro. Fuçamos tudo, mas não achamos.
Quando deu meia noite, Laura tira da cartola um - Pai, vou dar um telefonema muito importante, preciso ficar só! A essa hora??? Cruz credo!!!!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Edu, Cristóvão, Laura e um fim de semana perdido


"Sim, distraído, quem sabe? Alguém provisório, talvez; alguém que , aos 28 anos, ainda não começou a viver. A rigor, exceto por um leque de ansiedades felizes, ele não tem nada, e não é ainda exatamente nada."
Cristóvão Tezza.

Um ótimo começo para O filho eterno. De início, Cristóvão parece querer dar cunho ficcional à sua própria história, mas isso é só o início, pode ser que mude com a leitura.
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Preciso muito escrever bobagens. Depois de passar três dias na clausura do Hotel Alpina em planejamento estratégico, acho que perdi o condão de escrever bobagens. Prometo não fazer um único comentário sobre esse episódio, exceto que devo ter engordado uns tantos quilos, a custa de uma oferta interminável de brunchs, cofees, etc, além das refeições normais. No mais, tenho que acrescentar, sou homem de mais fazer e menos planejar. Domingo parecia tão esgotado que não saía uma palavra decente da cabeça.
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O que me fez muito bem nesse domingo foi saber que Laura estava aqui pertinho. A presença dela, ainda que pouco tenhamos conversado, preencheu espaços que certamente poderiam ser ocupados por vazio e solidão.
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Disco novo de Edu Lobo na praça já é motivo pra comemorar sem ter ouvido. Notável compositor, Edu tem sido um ótimo intérprete de si mesmo ao longo do tempo. O que mais gosto é o Edu e Tom, Tom e Edu. Interpretações antológicas para a Canção do amanhecer, É preciso dizer adeus, Luisa, Chovendo na roseira, Vento bravo, tudo muito bem arranjado e sem soar repetitivo.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Apenas atualizando

"Sei tudo sobre concreto. Sobre asfalto. Nada sei sobre flores."
Philip Roth, Indignação.

Terminei de ler Indignação. Dos livros que li de Roth, é o mais pessimista. Nem por isso, deixa de ser sublime. É o melhor livro que leio desde O animal agonizante, do mesmpo Philip Roth. Cristóvão Tezza me aguarda na estante.
Conheci Cristóvão na mesa de autógrafos FLIP de 2006. Tinha lido (e gostado de) Trapo, antes de conhecê-lo. Deixei O filho eterno ser bastante incensado e agora peguei pra ler.
As crises de ausência, o calor insuportável, a mialgia e o esgotamento vêm me perseguindo incansavelmente e até a escrita anda devagar.
Na quarta, eu e Laura fomos ver o Casuarina no Teatro Ginástico. Bons vocais de João Cavalcanti e Gabriel Azevedo, boa cozinha, especialmente o bandolim de João Fernando, mas o repertório muito óbvio prejudica um pouco o andamento. O grupo se sai melhor nas inéditas ou pouco óbvias como na canção que regravaram de Sidney Miller (É isso aí).
Vi Sherlock Holmes e Se beber, não case. A mistura de Guy Ritchie e Conan Doyle dá pro gasto, mas Guy ainda ficou devendo um filme a altura de Jogos, trapaças e dois canos fumegantes. Quanto à Se beber, não case, é uma comédia patética,. Quatro amigos (um retardado, um corno manso, um playboy e um mauricinho) vão para a despedida de solteiro do mauricinho em Las Vegas. Você já deve ter visto essa fórmula contada zilhões de vezes de outras maneiras. Já não dá pra rir muito.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Perder, partir, continuar



" Farto de tudo, clamo a paz da morte
Ao ver quem de valor penar em vida
os mais inúteis com riqueza e sorte
e a fé mais pura triste ao ser traída
honras a quem vale nada
a virtude prostituída
a perfeição caluniada
a força, enfraquecida
E o déspota calar a voz da arte
E o néscio, feito um sábio, decidindo .

Farto de tudo, penso.
Parto sem dor
Mas, ao partir, deixo só o meu amor. "

Shakespeare, Macbeth

Estou vendo Som e fúria, a série dirigida por Fernando Meireles, com um ano de atraso, porque não há a mínima possibilidade de acompanhar qualquer coisa que seja na rede globo, em especial aquelas que começam depois das 23h, cujos horários são desorganizados, mas o intervalos continuam extensos. Detesto intervalos.
Pois bem, lá pelas tantas, Dante, o personagem de Felipe Camargo recita esse trecho de Shakespeare. Fui ver na tradução da Bárbara se estava correto. Também ando farto. Principalmente de perder.
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Nesses últimos dias, perdemos o pianista Helvius Vilela e o escritor John Fante.
Helvius tocou em alguns discos antológicos da Nana, discos que sei de cor a ordem das faixas, a letra das canções, que fizeram parte de mim e ainda fazem porque nunca se esgotam.
Quanto à Fante, tenho que confessar que lembro muito pouco de Pergunte ao Pó, que li ali por volta dos meus 20 anos, e vou ter que reler. Lembro mais de 1933 foi um ano ruim. Não lembro o suficiente pra fazer qualquer comentário, só sei que gostei dos dois.
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Perdi meu avô, minha referência de menino, quando tinha 9. A poesia de meu avô, pelo menos a pouca que conheci, tinha os abismos de Shakespeare, Bilac, Cartola. A foto é de 52, e meu avô está acompanhado por Zezé Moreira, então técnico da Seleção Brasileira, e pelo Seu Jofre, que ainda é vivo. Caminham pelas ruas da mesma Miracema que caminhei de madrugada com S.
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Que importância têm no final de um dia quente no centro do Rio, uma velha foto, um velho poema e um esgotamento quase perverso?