domingo, 25 de agosto de 2019

Últimas Crônicas 2





For Iim


Tudo que eu vou escrever é redundante. Você já deve ter lido outras vezes aqui.

Não gosto de longas viagens de avião. Nem mesmo gosto das curtas. Às vezes sinto vontade de estar em Buenos Aires. Outras em Orlando. e ainda outras em Lisboa. De vez em quando, sonho voltar a Colônia do Sacramento. Tive um dia feliz ali. Seria mais fácil se não tivesse uma viagem no meio.

Escrevo enquanto aguardo mais um vôo no Aeroporto de Guarulhos. Para a Suíça. A solidão e alguns amigos que vão para o mesmo evento são minha companhia. O pior dos Mundos. Trabalho e só.

Aprendi a viajar com o amor. Antes, compartilhávamos da mesma inexperiência. Juntos, passamos a viajar. Também gosto da viagens de família. Sinto falta desse tempo, que está ficando cada vez mais ralo. Viagem hoje é quase sempre trabalho e só.

O leitor amigo está vendo que esse texto não vai dar em lugar nenhum. Provavelmente já o deixou no segundo parágrafo. Está correto.

Mas se você chegou aqui, deve ser por alguma razão. E se hoje eu posso te ensinar alguma coisa, isso se resume numa só frase:
O melhor lugar para dormir é a nossa cama. A cama quentinha e acolhedora do nosso quarto de dormir.

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Foi no meu quarto de dormir que eu resolvi ver mais uma vez o filme À procura do amor. Esse filme é um achado. Último trabalho de James Gandolfini (morreu numa viagem à Europa, sem ter visto o resultado final), trás o ator num papel delicado, muito diferente do Tony Soprano que acompanhamos. É desse de ver muitas vezes.
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Consegui chegar na Basiléia virado. Ainda não vi nada de bonito por aqui. Exceto que aproveitei a tarde livre de hoje para procurar uma loja de disco. Achei-a numa loja de departamentos. Não é lá grande coisa.
Mas tinha o vinil do filme dos Irmãos Cohen, uma das melhores trilhas que já ouvi. Fotografei pra levar comigo.

sábado, 24 de agosto de 2019

Já deu bom dia pra escova?



..."E se rindo, eu aposto, dessa bobagem de contar tempo de colar números na veste inconsútil do tempo, o inumerável, o vazio repleto, o infinito onde seres e coisas nascem, renascem, embaralham-se, trocam-se. com intervalos de sono maior, a que, sem precisão científica chamamos de morte."


Drummond, Manuel Bandeira faz novent'anos




É bom esse acordar de sábado sem hora com Lucas. Só nosso. E ligar as canções da casa sem limite de altura, para acordar o prédio
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Minha mãe faria anos hoje. Não sei quantos, nem ela saberia dizer.  Procuro esquivar-me do tema. Coloquei uma nota no facebook, mas logo retirei. Piegas.
Minha mãe era uma cuidadora. Cuidou dos filhos a vida inteira. Quando eu tinha 50 anos, ainda me ligava recomendando escovar os dentes, olhar para os lados na hora de atravessar a rua e não deixar de ir à missa no domingo, mesmo quando eu já tinha perdido qualquer rastilho de fé cristã.
Era triste por natureza, poucas vezes a vi sorrir por si própria. Só sorria para falar dos filhos, tinha orgulho da família toda. Procurava encontrar suas próprias justificativas para nossa falhas.
E hoje, não há um dia que não sinta falta das suas ligações, das suas cartas, da sua preocupação diária. 
De manhã, quando fui perguntar ao Lucas se já havia dado bom dia a sua escova, lembrei desse texto, que comecei no dia 20, e não termina nunca.
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Nem eu mesmo sei o que estou lendo, Laura. Leio vários livros ao mesmo tempo, em tempos diferentes, geralmente no kindle, que é mais fácil carregar. 
Nos últimos tempos, incluí a auto ajuda em meus livros. Antes proibida na minha biblioteca, depois que descobri Fabricio Carpinejar, passei a lê-los também. E adorei ler Amor à moda antiga, com poemas escritos à máquina de escrever como esse aí em cima. Do autor, li e gostei também de Cuide de seus pais antes que seja tarde. e agora estou lendo Minha esposa tem a senha do meu celular. Complicado.
Minhas releituras obrigatórias são uma versão de Ana Karenina traduzida do russo, deliciosa, e Cartas na rua, de Charles Bukowski.
E ainda não terminei de ler as cem crônicas de música do Dapieve, mas já ultrapassei o rock Brasil.
E, sim, O andar do bêbado, de Leonard Mlodinow, um livro que demonstra de que forma o aleatório pode influenciar de forma catastrófica ou espetacular na nossa vida. Bom de ler.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Canção Amiga






Comecei hoje minha audição de "Breno Ruiz e Miguel Rabelo" - Diferente, presente da Marila, autografado pelos autores.
Enquanto trabalho, vão descendo as letras de Paulo César Pinheiro. As duas violas, de luz e de cigano (a segunda indicada pelo Jadim) chamam atenção e volto muitas vezes cada uma. Gosto mais da de luz. Sei lá, pode ser que até o final do texto mude de ideia.
Estive em Miracema nesse final de semana. Tirando uma visita ao Jadim e uma ida no velório de uma tia avó, fiquei entulhado em casa ajeitando meu toca discos, digitalizando cds, ligando as máquinas que estavam enferrujando, aos bons cuidados da Diô. Nada poderia ter me feito tão bem.
Não fui ao Bunda, não comi a pizza do Wictor, não provei do picolelo. Fiquei só comigo mesmo e o frio miracemense de 12 graus.
No ônibus, terminei de ver Years and Years. Foi a melhor coisa que vi na televisão esse ano.
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Dona Idelê, ascensorista do meu prédio aqui do centro, 80 anos, muitos deles de serviços prestados, oferecia afeto e boa conversa a quem chegava segunda-feira já prevendo semana pesada. Estava sempre de ótimo humor, a compreender nossos silêncios e oferecer sua mão. Foi demitida mês passado sem sequer ter a oportunidade de se despedir. Estamos todos condenados à mecanização. É disso que trata Years and years.
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Sobre as fotos: é quando um bilhete pode significar mais que qualquer presente. E os comentários do meu avô no livro da Maria Alice. Dessas coisas que não têm preço.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Recomendações para um dia qualquer






Entro na Beringela e dou de cara com um Cartas na Rua novinho em folha, a mesma edição que li quando era calouro de medicina. Quinze pratas. Compro, obviamente, e já começo a leitura nas barcas. Ele flui liquido. Trás de volta o meu primeiro Chinaski. Chego em casa rapidamente, nem percebo o táxi, o porteiro como sempre gentil, também passa desapercebido.

Tenho um enorme prazer em reler certos livros. Quando posso, mais de duas vezes. São sempre versões diferentes. E podem trazer uma alegria diferente.

A Beringela vem mantendo a qualidade. Com o passar dos anos e o fim da maior parte dos sebos do centro, parece que melhorou. Provavelmente porque a oferta de livros deve ter aumentado. Em outros tempos, ia quase todo dia lá. Tenho uma biblioteca só da Beringela em Miracema.

Finalmente consigo tomar um banho e comer um sanduíche. E dou início a uma maratona dos primeiros episódios de Years and years, provavelmente mais um clássico denso da HBO em associação com a BBC britânica. Também me encanto com a série. Emma Thompson impecável. Tomo meus remédios e durmo.


O cansaço já não me incomoda.
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E, estive, apesar dele, o cansaço, na Casa do Choro semana passada para ver o Época de Ouro . Um luxo. O disco (De pai pra filho), vai ficando mais fácil depois do show, nas composições de Joventino Maciel, e principalmente, Antonio Rocha. Mestre PIxinga é Altamiro puro. 
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Tem batido uma saudade danada da minha aldeia. Dessas de doer o coração.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

É músico também quem sabe ouvir




"Pegue essa baqueta obsoleta esquecida na gaveta e procure onde bater"
Luiz Tatit, Toque o tambor


Na história de qualquer amante da música, não é incomum que existam discos que ficaram eternos, que furaram a vitrola de tanto que ouvidos. Posso citar Nana e Mudança dos ventos, Milton e o Clube de Esquina 2, Eduardo Gudin e o Notícias dum Brasil, Paulinho da Viola e A toda hora rola uma história, entre outros.
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Meu disco medular de Gilberto Gil é o Refazenda. 
Acho Gilberto Gil o melhor intérprete das suas canções e um de nossos melhores intérpretes. Recentemente ouvi Giro, em que Roberta Sá gravou canções inéditas de Gil (bom) e OK OK OK, do próprio Gil (ótimo).
Acompanho desde sempre. Decorei Domingo no Parque ainda menino, acompanhei com entusiasmo a fase roqueira, tenho em conta os últimos discos de samba e bossa, mas Refazenda será sempre a minha maior referência.
Ensinou-me um pouco de choro (Pai e Mãe), Dominguinhos ( Lamento Sertanejo e Tenho sede), Jorge Mautner (O rouxinol) .
Tem uma das letras mais tocantes do compositor: Retiros espirituais, aquela que fala que "ter problemas é o mesmo que não - resolver tê-los é ter, resolver ignorá-los é ter."
O Lamento já teve inúmeras regravações, gosto particularmente de uma do Renato Braz e um arranjo do Moreira para a Academia do Choro. Nessa mesma levada, Gil gravou um de seus discos mais bonitos: O Sol de Oslo.
E o que dizer de Pai e mãe? Mantive um distanciamento dela muito tempo, até aprender a "beijar outros homens como beijo meu pai".
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Refazenda tem 44 anos. O tempo, a mão, o tempo.
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O título desse texto é de autoria de Dino Sete Cordas. Aprendi ontem com o cavaquinista Jorge Filho, na Casa do Choro. Obrigado, Marila.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Às vezes por melhor que a vida esteja





Quando se chega no meio da travessia, perde-se o sinal, o telefone não funciona, o zap não roda, o Facebook não entra. Não há desespero. Há paz.
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Um disco não presta pra nada. Não vale mais nada. Hoje é aniversário de uma amiga aqui na empresa. Pensei em dar um disco de presente. Já imagino a repugnância, o olhar de deboche das pessoas. Disco? Quem ouve mais isso????
Pois bem, eu ouço! Muito! Já me salvaram a vida muitas vezes. Tenho centenas de repetidos, que morrerão comigo. 
Já fui salvo por Ney Mesquita (Quintal), Rodrigo Rodriguez (Fake Standarts), Geraldo Maia (Sambas de São João), Dori Caymmi (Mundo de Dentro), Luiz Tatit (O meio), Xangai (canta Elomar), Amália Rodrugues (no Olímpia), só para citar alguns.
Quando fizer 58 daqui 1 mês, ficarei feliz se ganhar um bom disco.
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Demorei muito a ter o aparelho de som que eu queria. Dei sorte que um amigo resolveu migrar e vendeu-me toda sua parafernália. Comprei tudo. Agora quando chego em casa (o que é raro, dado às múltiplas viagens), ligo o som e coloco um disco bem alto para que todo o prédio ouça e principalmente, eu. É a hora que eu sou mais feliz.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Aonde você for





Já vai longe o tempo que gostava de relógios. Eu era menino e o Seu Waldemar Cavalcanti tinha um bar em frente à casa dos meus pais em Miracema, onde eu comprava chicletes ploc. Seu Waldemar tinha um Patek Phillippe de bolso, de ouro. Eu via aquilo e sonhava em ter um.

Durou pouco tempo esse gosto. Logo depois desisti dos relógios. Incomodavam , coçavam, eram um corpo estranho ali no punho.
De uns tempos para cá voltei a usar, devido à tecnologia com o smartphone e à possibilidade de acompanhar meus batimentos, que me foi muito útil. Acabei acostumando.


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Há alguns anos, meu pai deu-me seu relógio. Era um mido, esse aí da foto, que veio acompanhado de duas longas páginas contando a história do relógio, companheiro dele em longas viagens de caminhão, em outras vezes cuidando da fazenda, essa máquina inumana de trabalho e suor que meu pai foi.
Não me lembro se ficou aborrecido que eu não usei e levou o relógio de volta, ou se estupidamente, eu mesmo o devolvi, alegando não usar relógio.É bem possível que eu tenha cometido essa estupidez.Vou amargar esse sentimento para sempre.
Depois que ele morreu, o relógio sumiu.
Só fui tê-lo novamente pelas mãos de meu irmão, o que também já morreu. Ele achou o relógio no guarda-roupa do meu pai e me deu de volta.
Estava sem funcionar até semana passada, quando foi reformado e adaptado a uma nova pulseira.
Meu pai adorava viajar, mas viajou muito pouco. Já eu, inclusive pelos desatinos da ponte aérea semanal, evito como posso os aviões.
Já disse ao amor: se for para Buenos Aires, Portugal e Orlando, conte comigo. O resto vai ficar pra história.
E agora terei um companheiro constante: o velho relógio de meu pai. Vai conhecer o Mundo. Pelo menos o Mundo que eu for.

Os fantasmas inquilinos

A única coisa que me interessou de fato nesse Rock in Rio foi Carolina Deslandes. Já soube que a portuguesa teve uma apresentação...