segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Felipe Hirsch citando Jabor (da série "Eu escreveria isso.")

"Houve um tempo em que uma obra-prima influenciava a História do nosso país. Hoje, as obras culturais não repercutem mais na consciência das pessoas. A cultura mudava a política; hoje, como dizia o grande Oswald de Andrade, a bosta mental é tanta que nada ilumina o pensamento nacional. Fica tudo no gosto ou não gosto, nos achismos, na crítica barata e superficial, nos recentes espaços múltiplos usados sem consciência, fica entre os covardes anônimos da internet."

domingo, 26 de setembro de 2010

A quadrilha da fornalha


"Agora só toco harpa
De camisola e sandália
Espio pra ver lá embaixo
A quadrilha da fornalha
Aquela ingrata hoje está
Trabalhando de salsicha
Espetatinha no garfo
Satanás fritando a bicha
- Ô Demônio, Capricha!"

Paulo Vanzolini, Juízo Final

Ainda é manhã desse domingo mal dormido e acabo de ver Um homem de moral, documentário dirigido por Ricardo Dias, que trás luz à vida e às canções de Paulo Vanzolini. O DVD estava na estante, ainda no plástico, e não sei que comichão me fez tirá-lo dali. Imperdível! Lembrou-me de Só dez por cento é mentira, outro documentário muito bem feito, sobre Manoel de Barros. Manoel e Vanzolini têm em comum a devoção pelo mato.
Tive o prazer de ver Vanzolini no Teatro do Leblon com Letícia, lançando a caixa Acerto de contas. Caixa e filme têm uma única proposta: outorgar flores em vida a um dos nossos grandes compositores.
O filme é costurado por depoimentos quase que exclusivos de Paulo Vanzolini falando de sua vida e contando a história das composições, entremeado pelo canto de Maria Marta, Chico, Paulinho, Martinho, Elton e outros.
Conheci Vanzolini num disco da Gravadora Marcus Pereira dos anos 70, com Chico cantando Praça Clóvis, canção que até hoje faz parte do meu extenso (8) e indefectível repertório violístico. Gosto de cantá-la. Como gosto de cantar Volta por cima, Leilão e Trato do homem.
O diretor foi muito feliz em escolher Maria Marta e o Cuitelinho para abrir o filme. Maria como sempre, encanta. Já é praxe quando vamos ao Margarida Café em Paraty, pedir que Maria nos presenteie com Vanzolini. Ela nunca nos nega. É sempre um momento mágico em Paraty.
Nos extras, Antônio Cândido analisa Cravo Branco, um dos sambas mais dolentes de Paulo Vanzolini.
Um homem de moral deve passar nos colégios, nas instituições públicas, em qualquer lugar que se proponha a mostrar um pedaço do Brasil visto por um de seus grandes homens.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

As cartas do meu avô

A tarde cai, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva, em gotas glaciais,
chora monotonamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Enternecido sorrio
Do fervor desses carinhos:
É que os conheci velhinhos,
Quando o fogo era já frio.

Cartas de antes do noivado...
Cartas de amor que começa,
Inquieto, maravilhado,
E sem saber o que peça.

Temendo a cada momento
Ofendê-la, desgostá-la,
Quer ler em seu pensamento
E balbucia, não fala...

A mão pálida tremia
Contando o seu grande bem.
Mas, como o dele, batia
Dela o coração também.

A paixão, medrosa dantes,
Cresceu, dominou-o todo.
E as confissões hesitantes
Mudaram logo de modo.

Depois o espinho do ciúme...
A dor... a visão da morte...
Mas, calmado o vento, o lume
Brilhou, mais puro e mais forte.

E eu bendigo, envergonhado,
Esse amor, avô do meu...
Do meu - fruto sem cuidado
Que ainda verde apodreceu.

O meu semblante está enxuto.
Mas a alma, em gotas mansas,
Chora abismada no luto
Das minhas desesperanças...

E a noite vem, por demais
Erma, úmida e silente...
A chuva em pingos glaciais,
Cai melancolicamente.

E enquanto anoitece, vou
Lendo, sossegado e só,
As cartas que meu avô
Escrevia a minha avó.

Manuel Bandeira

Agradeço por ter nascido gostando de letra e música. As duas têm sido meu pão de cada dia desde sempre. E o que mais posso querer?
Vinha vindo só pela estrada e tirei da poeira, esse disco encantado que começa com Manuel e se completa com choros cantados de chorar mesmo. Principalmente quando Beth Carvalho passa para Dino os versos finais de Aperto de mão, aí o pranto rolou copioso. Quantas vidas há naquela voz final de Dino Sete Cordas?
Oportunamente me ocorreu um encantamento nessa noite. Um encontro marcado há 20 anos finalmente se concretizou. Foi uma noite mágica. Enquanto o Fluminense ia construindo sua goleada sobre o Atlético, dois corpos silentes se estudavam. Corpos que pouco se conheciam, mas que já tinham criado alguns vínculos importantes no passado. O cheiro embriagador, a procura lenta das coisas comuns. Das coisas mais antigas e comuns. Corpos necessitados de aconchego, que, jogados fora, se completaram. A Lua cheíssima abençoava e ardia. O silêncio miracemense de muitas noites intensamente vividas.
Agradeço por ser um homem de poucos amigos. É muito arriscado ter muitos amigos. Mas quando penso em Letícia, Alex, Renatinha, Jadim, acho que já sou por demais, afortunado. São pessoas que estão sempre se preocupando em ajeitar a gola da minha camisa. Estão vivos e presentes a qualquer tempo.
Agradeço por ter filhos como esses três que eu tenho. Não poderia querer mais nada. São almas que ratificam a toda hora o meu existir. E tudo seria incompleto se não fosse por eles.
Agradeço a força das minhas mãos para trabalhar, e o fato de casar trabalho e gosto, de ter achado meu canto, de ter chegado onde cheguei.
Agradeço, por fim, o fato de estar feliz hoje. Feliz só pra mim. Feliz sem que tenham acontecido grandes fenômenos interiores. Feliz como há muito tempo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Alaíde, Luisa e uma decisão acertada


Na sexta de tarde, quando fui buscar Laura no Colégio para levá-la pra Miracema, ainda não tinha decidido se a deixava na rodoviária ou ia com ela. Como de praxe, o fim de semana prenunciava um vazio, e viajar parecia muito cansativo.
Decidi que ia pra Miracema na entrada da Ponte. Cheguei ainda com dúvidas, mesmo já estando lá. Consegui achar o Celso Barbeiro vazio.
Depois, subi pra casa e ainda deu pra ver dois episódios da primeira temporada de Curb, antes de ir para a Festa dos Motoqueiros.
O Sexto Encontro Nacional de Motociclistas de Miracema estava povoado de velhos amigos hoje motoqueiros, inclusive o Serrinha, diretor do evento. Musicalmente, é possível reconhecer logo a faixa etárea. O evento é apadrinhado por Raul Seixas e as Bandas tocam Floyd, Beatles, Led, e outras velharias. Um museu arqueológico de alcool e duas rodas. Sem contar que o Sebastião Bunda de Fora se transfere para a Barraca do Bode nesses dias.
Fiquei sentado com Alex e Gisele e depois de umas cinco latinhas, finalmente descobri que foi ótimo ter ido. Boas companhias, aquele papo furado de sempre, o ambiente muito mais agradável que a tradicional exposição agropecuária, que só toca música sertaneja e cheira a bosta de boi.
Cheguei em casa bêbado à meia noite e liguei pra uma velha amiga pra continuar a boa conversa. Bela lembrança.
No carro, escutava Alaíde Costa, uma seleção que fiz há pouco tempo. Conheci Alaíde efetivamente num show dela na UFF nos anos 80, lançando o belíssimo Amiga de verdade. Pouco conheço da Alaíde dos anos da Bossa Nova, dos quais só a canção Afinal figurava na minha seleta. Amiga de verdade, o disco, me apresentou à três clássicos: Mais que a paixão, do Gismonti, Quem sabe, do Paulinho e do Elton e Estrada do sertão, de João Pernambuco e Hermínio Belo. E também ao Bela, bela, retirado do Poema Sujo por Milton Nascimento, um casamento perfeito entre poesia (Gullar), canção (Milton) e voz (Alaíde). Todas essas na minha seleção, juntos com as canções dos discos que Alaíde gravou com João Carlos Assis Brasil: a versão mais bonita de Te quiero (Fávero e Benedetti) e ainda o Bom dia do Herivelto e Teus ciúmes do Lupicínio. Como já fazia um tempo que eu tinha feito essa seleção, algumas interpretações ainda me soaram frescas e foi muito bom ouví-las.

A surpresa mais interessante veio no sábado. Luisa subiu ao palco da festa e mandou um inesperado The wizard, Black Sabbat. Voz e gaita afinadíssimas, a menina iluminou a festa. Fiquei ali meio embasbacado ouvindo seus acordes.
Luisa nasceu gostando de música. Lembro dela menininha cantando canções de Noel, Sinhô e outros compositores da velha guarda que ouvia no carro. Hoje só ouve metal, progressivo e afins, mas ainda guarda aquela alvura dos primeiros tempos.
O interessante é que quanto mais ela se aproxima do metal, mais eu me entendo com Alaíde, mas nada disso é impecilho para nos olharmos e nos entendermos cada dia melhor como pai e filha.

sábado, 18 de setembro de 2010

Há uma gota de sangue no cartão postal

"eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata

sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor"

Cacaso

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Intervalos


Toda vez que meu Ipod começa a me desapontar e o dedo no "avançar" fica nervoso, eu saco dois discos, um de fado e outro de tango e boto pra tocar. Não tem erro. Dessa feita, vieram Kátia Guerreiro (Os fados do fado) e Nestor Vaz Tango Trio. Ótimos discos, ainda pouco explorados.
Ótima receita para contrapor aos mornos discos novos de Ivan Lins (Íntimo), Clara Sandroni (Laser) e Djavan (Ária). Não são discos ruins, mas acrescentam muito pouco à obra dos três.
Djavan gravou um disco de intérprete. Tive grandes espectativas de encontrar o Djavan das trilhas de Deus é Brasileiro e Para viver um grande amor, onde o compositor havia feito gravações emocionadas da Melodia Sentimental e Sabe você. Ou mesmo o Djavan que participou como intérprete dos songbooks de Almir Chediak. Mas Ária é apenas um disco correto. Não há um destaque, tudo parece muito linear.
Acompanho a carreira de Clara Sandroni desde sempre. Gravou discos excepcionais nos anos 80, me introduziu à música de Silvio Rodrigues e até do Rumo, acho que a primeira vez que ouvi Ladeira da Memória foi com ela. Mais tarde fez um ótimo projeto com Marcos Sacramento e o Lira Carioca de revisão da obra do Sinhô. Gravou outros discos interessantes como Clara Sandroni (relançado há pouco tempo pela Biscoito Fino) e Cassiopéia. É uma intérprete refinada que tem um bom gosto invejável e um cacoete para descobertas. Agora resolveu regravá-las num disco de voz e piano. Nada do que ouvi é melhor do que as primeiras versões.
Finalmente, Ivan lins relançou o enésimo disco revisional da sua carreira, Íntimo (com uma constelação de estrelas internacionais), além da coletânea Perfil em que inovou: ao invés de fazer uma coletânea caça-níqueis de suas melhores gravações, resolveu regravar seus sucessos. Pergunto: como se pode ouvir Somos todos iguais nesta noite que não seja na brilhante versão original?
Ainda não detonei esses discos do Ipod, mas precisei botar um fado e um tango para os intervalos. Seria bom se a vida fosse toda assim: de muitos intervalos de fados e tangos.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Travado


Confesso, tenho travado ultimamente. Vontade de escrever não falta, tenho dificuldade em achar as palavras. E quando as acho, saem tortas. Deleto. Escrevo de novo.
Estou com uma certa vergonha de ser brasileiro. Vergonha de assistir a impunidade, os escândalos serem tratados com panos quentes, de ler jornais e revistas e só ver falcatrua.
Me alivia a idéia de justificar meu voto mais uma vez. Não faço a menor idéia em quem votar. Andei dizendo no Serra, com que convicção? Não assisto debates, não leio resenhas políticas, não me envolvo. Ainda agora li uma crônica cheia de sentimentos justos no blog da Kellen e fiquei com uma certa inveja de não saber escrever aquilo.
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Por outro lado, o Rio continua lá. Agora com essa maravilhosa exposição da obra de Hélio Oiticica na Praça XV. Dá vontade de entrar naquela mala de D. João VI e ficar ali quieto. Passar pela Praça XV, como passo todo dia, nunca foi tão convidativo.
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Também vi A morte e a morte de Quincas Berro D'água. Não é a obra de Jorge Amado, a paisagem deslumbrante, a composição dos personagens. A morte e... é, a meu ver, antes de mais nada, uma homenagem ao cinema de Paulo José. Do grande Paulo José! Ver Paulo José em cena é repensar o primeiro parágrafo desse post. É descobrir que ainda se pode ter esperanças.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

É impossível nessa primavera, eu sei.

O que há de aproveitável nesse novo disco de Zeca Baleiro, Concerto??? Pelo menos duas canções da nova safra são muito boas e cortantes: A depender de mim e Bangalô. Não me lembro de ter voltado mais nada no Ipod. Compositor de muitos altos e alguns baixos, Baleiro, junto com Mosca, Lenine e principalmente, Chico César, vem demonstrando que essa geração tem talento e verve.
O pior do disco é a gravação de Autonomia de Cartola. Merecia mais respeito. Gravar um clássico hoje em dia tem dois caminhos: ou você respeita a linha melódica dele ou o desconstrói. No primeiro exemplo, só pra ficar em Cartola, as gravações de Fagner para As rosas não falam (com Manassés e Dino arrebentando) e a recente de Djavan para Disfarça e chora (simples, porém tocante) em nada ficam devendo aos arranjos originais. Já na linha da desconstrução, citaria Ataulfo Alves revisto por Itamar Assumpção e Carmem Miranda por Ná Ozzetti, duas ótimas referências. Essa desconstrução geralmente é mais difícil e arriscada. Zeca pareceu querer fazer as duas coisas com a sua Autonomia e acabou não conseguindo nada.
Autonomia, da qual eu tirei o primeiro verso para dar nome a esse post, é ainda mais melancólica e sublime do que O Mundo é um moinho.
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Nada funciona bem no cd duplo É com esse que eu vou, do musical de Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral. Nem a presença de Marcos Sacramento, Alfredo Del Penho e Soraia Ravenle, nem os arranjos de Luiz Felipe de Lima, muito menos os pout-porris amealhados: fica tudo muito pasteurizado e chaaaaato!
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Ontem (e hoje) estive em Cabo Frio pra uma reunião da Empresa. Hospedaram-me na Pousada Boulevard no Boulevard Canal. O local é estonteante de bonito. Acabei exagerando na tonteira e perdi o sono. Levei alguns anos de terapia e remédio para recuperar meu sono bom. Mas ainda há aquelas que.
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Quanto mais velho fico, menos gosto de viajar. Nunca gostei muito, mas agora parece que as coisas estão piorando. Daí quando velhos amigos viajam, aproveito pra fazer as encomendas. Renatinha me trouxe de Buenos Aires esse excepcional Maldito Tango, Daniel Melingo. Não sai da agulha. Melingo, junto com Cristóbal Reppeto, Verônica Silva, Malena Muyala e outros vem mostrando que o velho tango sobrevive com ou sem a eletrônica.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Rompante

Quando deu 13:30, enchi o tanque da S10 e deliberei que estava na hora de voltar. Assim sem mais. Alguma coisa me sufocava em Miracema e não queria passar o feriado viajando.
Depois que cheguei em Além Paraíba e me livrei dos buracos, botei a oitava canção de afeto, engatei a quinta e só parei aqui no Alda Maria.
A oitava canção de afeto é aquela que começa com Fim de Festa, Itamar e Naná e termina com How long has this been going on?, com o Brad Mehldau Trio. Pode haver começo e fim mais interessante?
Itamar fez um disco com Naná já no finalzinho da vida, que acabou saindo cortado e graças à intervenção de Zeca Baleiro. O disco tem pelo menos dois clássicos da obra de Itamar: Leonor e Fim de festa. A participação de Naná só faz valorizar as canções.
Dos discos ao vivo de Brad Mehldau, esse em Tókio é dos que mais ouço. E a versão da canção de Gershwin deixa qualquer um chapado. Voltei duas vezes os quase onze minutos da interpretação.
Há uma canção de Arnaldo Antunes na oitava, chamada Quarto de dormir, que é dessas canções delicadas que pegam fácil e dão vontade de ouvir muitas vezes e rebobinar todas as fitas do tempo.
E duas que nunca saíram em cd: Veja (Margarida) com Vital Farias e Ele vai te flechar com Zé Renato. São fáceis e bonitas, de você ficar imaginando porque a Sony BMG e a Polygram lançam tantas bobagens, mas não recuperam o Taperoá, obra prima do Vital ou o Luz e Mistério do Zé Renato.
Años de soledad, naquela versão irresistível de Piazzolla e Muligan e o Canto Latino com Paul Desmond. De voltar muitas vezes cada uma.
Na oitava tem a versão de Não é brincadeira com Eugênio Avelino (em que Armandinho brinca com o bandolim) e A letra I de Luiz Gonzaga. A letra I é a coisa mais linda que Zé Dantas fez. Feita para sua mulher Iolanda, remonta a um tempo que está hoje fora de cogitação.
Tem Desencontro com Rosa Passos e I've got a crush on you, com Stacey Kent. São duas cantoras que me agradam muito, cantam como João, faz bem ouví-las.
E Bob Dylan do visceral Blood on the tracks com You're a big girl now e Leonard Cohem em Dance to the end of love. Essas canções nem precisam de grandes referências.
E Rômulo Fróes cantando Para quem me quer assim, tá fácil. E Tarja Preta com Délcio Carvalho. Dois jeitos de compor samba que se completam.
Tem um fado com Ana Moura (Nada que devas saber) e um com Mariza (Alfama), como é costume nas minhas canções de afeto. E por aí vai.
A viagem foi passando com a leveza das canções e quando vi, já avistava a Ponte. Estou de volta!

domingo, 5 de setembro de 2010

Cantada

"E então desperto e abro a janela
ânsias, amores, alucinações
Desperta amada que a luz da vela
Tá se apagando chamando você
Está chamando apenas para vê-la morrer por teu viver.
Amada acende um coração amante
que o som suave de uma aurora distante
estremeceu aqui no peito meu
Os galos cantam pra fazer que a aurora
Rompa com noite e mande a lua embora
Os galos cantam, amada, o mais instante
O peito arfante cessa e eu vou me embora
Vem namorada que a madrugada
ficou mais roxa que dos olhos teus as pálpebras cansadas
Amada atende um coração em festa
que em minha alcova entra nesse instante
pela janela tudo que me resta
Uma lua nova e outra minguante
Ai namorada nesta madrugada
não haverá prantos nem lamentações
Os teus encantos vão virar meus cantos
voar pra os céus e ser constelações
Ai namorada nesta madrugada incendiaram-se os olhos meus
Não sei porque você um quase nada
do universo perdido nos céus
apaga estrelas, luas e alvoradas
e enche de luz radiosa os olhos meus
Mulher formosa nesta madrugada
Somos apenas mistérios de Deus"

Elomar Figueira de Melo