sábado, 31 de dezembro de 2011

Cinco livros de 2011


"Voltou. Não disse nada.

Mas estava claro que teve algum desgosto.

Deitou-se vestido.

Cobriu a cabeça com o cobertor.

Encolheu as pernas.

Tem uns quarenta anos, mas não agora.

Existe --mas só como na barriga da mãe

na escuridão protetora, debaixo de sete peles.

Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase

na cosmonáutica metagaláctica.

Por ora dorme, todo enroscado."

Wislawa Szymborska


"O tem fogo (?) saiu meio esquisito. Nem parecia que eu tinha estudado três anos de mecânica celeste, dois de escultura em metal, e tinha sido, podem perguntar, um jogador pra lá de razoável na minha equipe.
Não, balido, baldio, urro estrangulado, você parecia um tem fogo qualquer dito por um corretor de qualquer uma dessas coisas que precisam de correção, a vida emocional dos cangurus, as problemáticas trajetórias de Urano, os particípios passados dos verbos de segunda conjugação."
Paulo Leminski
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Lento, disperso, sem um ritmo pré estabelecido como há muito já tive, voltei a ler em 2012. Agora mesmo estou me deleitando com Agora é que são elas, de Paulo Leminski, um suprarromance. Voltei a Leminski instigado por Luisa. Não morre nunca, de tão extraordinários que eram seus escritos.

Poemas, Wislawa Szymborska - quase me atirei da ponte aérea número 1, de tão embevecido que fiquei com os poemas da moça. A perfeita tradução de Regina Przybycien, dá ao livro uma sensação de que foi escrito na nossa língua e para nós.

O remorso de Baltazar Serapião, walter hugo mãe - quando saiu a lista da FLIP. fiquei curioso com o autor que não usa maiúsculas, escreve num português medieval e e encanta com a história de uma paixão cortante e mutilada.

O metro nenhum, Francisco Alvim - quase me atirei da ponte aérea número 2. Francisco Alvim fez uma belíssima reunião de seus poemas nesse volume. “a poesia/ quando ocorre/ tem mesmo a perfeição/ do metro/ - nem o mais/ nem o menos -/ só que de um metro nenhum/ um metro ninguém/ um metro de nadas”

Nemesis, Philip Roth - foi meu Roth desse ano, fico nervoso se ficar sem um. Em 2012, já tem a antologia de contos engatilhada.

Invisível, Paul Auster - admirável como Auster brinca com a escrita, tranformando o narrador em personagem, e um terceiro e um quarto e mudando os tempos verbais em cada parte. Indispensável.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

As razões do coração

Eu vi o grande amor no claro olhar da minha amada, eu vi
Que todo o grande amor ainda é pouco, ainda é nada, eu vi
Amores que jamais verei
Meninos, eu vivi
Vivendo a poesia de verdade

Também vi a cidade incendiada, eu tive medo
Eu vi a escuridão
Eu vi o que não quis
Amei mais do que pude, eu fiquei cego de paixão
E acho que enfim eu vi um homem ser feliz

Chico e Tom, Meninos, eu vi

É uma saudade tão doída de você
Que eu não sei mais nada, não.
E é isso aí sempre que o amor não pode ser,
Sempre que a distância pode mais que o coração.

Olhos que se olham mas que não se podem ter,
Mãos que estão unidas mas não estão.
Olhe, meu amor, tudo que eu quero é não sofrer
Mais uma separação.

Fomos enganados pelo tempo,
Teu amor chegou tarde demais.
E o amor é sempre um sentimento
Que a separação não deixa em paz.

Pode ser assim, mas quem sou eu pra resolver
As razões do coração.
Olhe, meu amor, tudo que eu quero é nunca ser
Mais uma recordação.

Vinicius, As razões do coração

Em princípio, todos os poemas foram escritos pra você. Pro seu jeito de menina, pra sua boca rasgada, pro meio de suas pernas, pra nossas linguas molhadas. Agora a sala está completamente vazia, e sua poltrona parece não ter sentido, parece querer seu riso doce. Parece que tudo aqui só existe quando você me habita, quando está dentro de mim.

Em princípio todos foram escritos por mim. Pra você. De vez em quando eu roubo um da caixa de poemas, como esses dois aí em cima e coloco para enfeitar seu dia. Pra diminuir minha sanha, acalmar meus ossos, descansar meu corpo.

Agora que você levou meu equilíbrio (que equilíbrio?), agora que seu cheiro não preeenche o ar do quarto, agora que você se foi, não sei mais o que fazer, aqui jogado fora, ansioso por saber quando haverá um novo dia esperança?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Cinco canções de 2011

"É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando, ponto a ponto, nosso dia-a-dia

E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O ziguezague do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa da paixão

A sua vida, o meu caminho, nosso amor
Você a linha, e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado a casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza"

Gilberto Gil


A moça ligou (de Boston) pra me entrevistar sobre um novo biomarcador para AVC. Foi uma entrevista às cegas: não conhecia o marcador (ainda não lançado), nem os benefícios, nem os custos, nem a moça. Sei que tinha voz de nem tão moça. Fato é que ficamos 56 exatos minutos ao telefone discorrendo sobre os biomarcadores, a incidência do AVC na população e as maravlhas do diagnóstico precoce. Fiquei besta da minha capacidade de discorrer sobre o que nem faço a menor idéia. E a moça ficou encantada com meus argumentos indefectíveis.
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2011, além de tudo, foi um ano muito musical. Escolher cinco canções entre tantas, também será uma tarefa inglória. Ainda bem que entendo melhor de música do que de biomarcadores.

Tristeza do Zé (Zé Miguel Wisnik e Luiz Tatit) - é a primeira que me vem a cabeça no disco do Wisnik. Embalou os primeiros (e mais tristes) meses do ano e enchi o saco do Lilito até que ele tirasse a música no violão. Passei o ano ouvindo e cantando.

Sinhá (Chico Buarque e João Bosco) - esse afro samba remete a tudo de melhor que Vinicius e Baden fizeram. Um clássico.

Alma boa de lugar nenhum (Carlos Careqa) - auto biografia de Carlos Careqa, um curitibano que devia estar num lugar mais nobre da música brasileira. Fez um disco ótimo em 2011. Escolhi essa, que dá nome ao disco. "Vou fazer uma chacrinha, vou comprar um automóvel, vou fazer um teatrinho para ver se te INCOMODA..."

Olhos do tempo (Rafael Altério e Cristina Saraiva) - do ótimo Manoela Cavallaro canta Cristina Saraiva, essa participação de Rafael Altério numa canção tocante, delicada, cheia de esperanças.

Vem ver (Adriana Calcanhoto) - um dos ótimos sambas do bom Micróbio do samba. Adriana chega a uma maturidade criativa digna dos grandes compositores brasileiros.
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Você pode conferir aqui as cinco canções de 2010, 2009 e 2008.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Tá muito alto, Beatriz?


A frase do ano: "quando se fala de um amor, você tem que levar em conta que já não é mais um garoto, já é um senhor, e tem que reconhecer a beleza de um amor maduro, sem esquecer o lado do possível ridículo." É do Chico, mas podia ser minha. Ele só esqueceu de dizer que um grande amor não tem pudores quanto à ser ridículo. Mas só um grande amor.
Pensei nisso quando meu ouvido era invadido pelas milongas de Anibal Sampayo na Baía de Guanabara. Descobri o uruguaio Anibal Sampayo através do Alberto Rui lá da Arlequim do Paço. Já devo ter comentado aqui que compro disco com Alberto Rui desde os 17 anos, quando ele trabalhava na Toc Discos da Uruguaiana e a Rua Sete de Setembro era a Rua do Disco.
Pois bem, Anibal Sampayo é um achado. De uma simples complexidade que remete à música de Elomar Figueira de Melo. é o que mais tem voltado no Itreco atualmente.
Hoje passei o dia trabalhando e escutando música, combinação que até bem pouco tempo, dava uma confusão mental muito grande e tornava o trabalho difícil. Mas nesses tempos de leveza, é até mais produtivo.
Toda hora passo a mão no telefone e me pergunto: ligo?

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Cinco acontecimentos de 2011

"Eu sou uma voz, eu sou uma figura
Sou o meu sonho de o ver realizado
Hoje eu descobri o mais incrível
Sou quase inacessível
Estou tão longe dessa estrela...

E um dia tem muitas horas
Muitas horas, muitas horas...
Viver é esbarrar com elas e senti-las
No quarto, no espelho, no colchão
A minha solidão
Não deixa que elas me toquem

Estrela não tem luz própria
Quase ninguém sabe disso
Eu sinto muita saudade
Do brilho dos meus amigos
Sinto falta de você
Seu eu pudesse querer
Queria você comigo"

Fátima Guedes


Foi um ano especial esse 2011. Parece que os anjos desceram para abençoar meus 50. Cheio de desafios profissionais, quando eu imaginava já ter estagnado, demonstrações explícitas de afetos reciprocos com meus amigos, muita poesia e música o tempo todo e uma surpresa encantadora já no final. Deu tudo certo, destacar cinco também aqui não será fácil.

1) Meus cinquenta em Odete Lima com meus amigos - foi lindo! Os daqui se apressaram em concordar com viagem longa, hotel de segunda, cansaço, e foram todos. Já foi o melhor presente. Mas também os de lá não pouparam nenhum esforço para abençoar minha data. Foi tudo muito perfeito, muito mais do que mereço.

2) Meu primeiro livro - fruto de um trabalho de quatro anos a cinco mãos, me deu um prazer enorme compartilhar os estudos que produzimos. E uma ótima repercussão.

3) Minha aproximação com meus filhos - sinto meus filhos cada vez mais pertos de mim. Um amadurecimento que tem se traduzido em música, literatura e afeto. Principalmente afeto, recíproco, sedimentado, renovador.

4) As meninas de Miracema e seus amigos - o que era para ser uma despretenciosa reunião de amigos, acabou tomando um vulto de proporções deliciosamente gigantescas. Rever aquele pessoal todo foi o acontecimento do ano em Miracema.

5) O amor - acho que vou dar defeito, pois não esperava que ela viesse, e viesse da forma tão avassaladora com que veio. Quinze dias e já parecem milênios. Nem quero ficar entendendo muito! É o amor, eu sei muito bem. Não se explica, se sente!


domingo, 25 de dezembro de 2011

Cinco filmes em 2011


"Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morto de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morto de medo

Por que não me deixaste adormecido
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morto de frio"

Chico Buarque, Soneto

Quase cochilei quando o telefone tocou. É sempre assim quando quase cochilo. Vim pensando em encontrar grandes engarrafamentos, mas a estrada estava vazia. Poucos carros retornaram no dia de natal. Podia ter almoçado com Jadim, aproveitado mais um pouco, mas como sempre faço, peguei a estrada. Nenhum dos meus botequins abertos, nem a Casa do Alemão. Não fosse o panetone da D. Ricarda, ainda estava com fome a essa hora, quase cinco. A essa hora quase cinco, sou eu de novo e o velho apartamento da Nilo Peçanha. Sossegue, Francisco Lima(!), alerto meu coração cansado. Mas ele não quer sossegar, está cheio de planos. Coração é assim, Vive fazendo planos! E antes que esse texto se torne mais uma pieguice chata, Vamos falar de cinema. Vi bons filmes em 2012. Minha escolha não será nada convencional. Nem Almodovar (achei enjoado, A pele que habito) nem Woody Allen (achei muito didático Meia noite em Paris), nem os irmãos Cohen (embora tenha adorado Bravura Indômita, acabou ficando de fora).

Os nomes do amor - pra mim, foi o filme do ano. Histórias de amor pouco convencionais, como essa, entre um burocrata e uma hiponga anarquista (a moça só transava com grandes ditadores, pra tentar convencê-los de que o mundo é melhor), me fascinam. E guarde esses nomes do cinema francês: Michel Leclerc (diretor), Jacques Gamblin e Sara Forestier.

Separation City - esse, neozelandês, também uma história complicada de amor. Bem contada, com uma bela cenografia e um roteiro sem retoques. Anote aí: Paul Middleditch (diretor) e Rhona Mitra (linda, faz a personagem central).

Abutres - árido, denso, com Ricardo Darin esplêndido, fazendo concessões ao controverso personagem, e uma cena de bolero (Nuestro juramento, com Javier Solis) antológica.

Um conto chinês - mais um filme argentino(?), mais um com Darin (?), é isso mesmo! Um conto chinês é uma delicada história de vida.

Malu de bicicleta - entre bons filmes brasileiros que vi em 2011, esse foi o mais simpático. Baseado numa história de Marcelo Rubens Paiva, tem Fernanda de Freitas iluminando o elenco.

Se quiser saber os filmes de 2008, 2009 e 2010 do Desconversa, é só clicar na data.

sábado, 24 de dezembro de 2011

O amor bateu na porta


"Ela é tão bonita,
que, na certa, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então, de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
ainda que mais não seja
porque sou poeta
e ansiava o futuro
Ressuscita-me,
lutando contra a miséria do cotidiano
ressuscita-me por isso.
Ressuscita-me!
Quero acabar de viver o que me cabe minha vida
Para que não mais existam
amores servis. "

Maiakóvski, O amor, misturei a versão de Caetano com uma outra tradução pra você entender melhor


Miracema está um inferno! Disseram que o Sol só viria em fevereiro, quem disse (?), foram os meteorologistas (?). Niterói já estava assim na quinta. O jeito é ficar dentro do carro ou dentro do quarto, com o ar ligado pra não asfixiar. Não gosto desse tempo quente.
Bom, hoje é véspera do natal. De véspera de natal, só me emociona aquela canção do João Donato, que na realidade se chama Depois do Natal. É um canto triste, de fim de caso. Felizmente não se aplica ao meu natal esse ano, mas ainda dói um pouco ouvir a Nana cantar.
No mais, o natal pra mim sempre foi uma data comercial e estúpida como qualquer data comercial. Mas eu costumo embarcar e compro presentes para os mais próximos (livros e discos invariavelmente), desejo feliz natal e anoiteço.
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Se disserem pra você que a vida começa aos 40, dê de ombros. É piada de mau gosto. Aos 40, começa a acelerar a cascata degenerativa e a responsabilidade só aumenta. Mas aos 50, com tudo isso e em particular, a vida tem me pregado peças muito agradáveis. A última foi o amor.
Conhecer de novo, um novo amor, aos 50, é algo de sublime, é coisa de Deus. Viver de novo aquele turbilhão de emoções enfileiradas, aquela vontade de estar junto o tempo todo, aquela coisa de frio, de boca seca, de campeonato anual de beijo demorado, molhado, escancarado, é muito bom.
É desse jeito que desejo aos meus dois ou três leitores, um ótimo natal. Que ele brilhe tão intenso quanto o meu amor.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Para inveja dos tristes

Nuestro juramento

No puedo verte triste porque me mata
tu carita de pena, mi dulce amor
me duele tanto el llanto que tu derramas
que se llena de angustia mi corazón.

Yo sufro lo indecible si tu entristeces,
no quiero que la duda te haga llorar
hemos jurado amarnos hasta la muerte
y si los muertos aman,
después de muertos amarnos más.

Si yo muero primero, es tu promesa,
sobre de mi cadaver dejar caer
todo el llanto que brote de tu tristeza
y que todos se enteren de tu querer.

Si tu mueres primero, yo te prometo,
escribiré la historia de nuestro amor
0con toda el alma llena de sentimiento
la escribiré con sangre,
con tinta sangre del corazón.

Vicente Fernandez

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Cinco discos de 2011


"I wish I was in Carrickfergus, only for nights in Ballygrand
I would swim over the deepest ocean, the deepest ocean for my love to find
But the sea is wide and I cannot swim over and neither have I wings to fly
If I could find me a handsome boatman to ferry me over to my love and die
My childhood days bring back sad reflections of happy times I spent so long ago
My boyhood friends and my own relations have all passed on now like melting snow
But I'll spend my days in endless roaming, soft is the grass, my bed is free
Ah to be back in Carrickfergus on that long road down to the sea
And in Kilkenny it is reported there are marble stones as black as ink
With gold and silver I would support her, but I'll sing no more now till I get a drink
I'm drunk today and I'm seldom sober, a handsome rover from town to town
Ah, but I'm sick now, my days are numbered so come all ye young men and lay me down"
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Chegou a hora das indefectíveis escolhas. Todo ano é assim. Aqui no desconversa adotei o critério de escolher cinco. Pra 2011, ficou muito pouco, mas não fugirei da ingrata.
Os indicadores para escolha dos melhores discos são: tempo de permanência no Itreco, número de canções migradas para as canções de afeto e a sensibilidade do escriba. Nessa lista aí embaixo, bateram na trave os discos de Amélia Rabelo (A delicadeza que vem desses sons), Fabiana Cozza, Adriana Calcanhoto (O micróbio do samba), Água de moringa (Obrigado, Joel) e Tabare Leyton (La factoria del tango). Qualquer um desses poderia figurar entre os cinco. A escolha foi dura. Enfim, aí vão:
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Indivisível, Zé Miguel Wisnik - esse duplo atravessou o ano surpreendendo. Cada dia uma canção virava clássico. quase todas viraram canções de afeto. Refinadíssimas composições com Guinga, Luiz Tatit, Chico Buarque, Arthur Nestróvski e Wisnik cantando bonito.
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Chico, Chico Buarque
- um disco enxuto, cheio de altos. Pra mim não tem essa de Velho Chico, que as belas composições passaram. Procure ouvir com calma.
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Poesia Musicada, Dori Caymmi - as canções praieiras de Dori, letradas por Paulo César Pinheiro. Pra quem já tinha feito Mundo de dentro ano passado, esse só veio ratificar a excelência do trabalho.
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Dois selos e um carimbo, Deolinda - se há algum movimento de renovação do fado, esse deve passar pela música do Deolinda. O grupo faz um fado leve, despojado das dores do fado tradicional. Ignaras vedetas e Um contra o outro são dois achados que não saíram do Itreco em 2011.
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Boardwalk Empire, Trilha Sonora - Cada vez que via um capítulo da série, ficava babando com a música. Canções gravadas nos anos 20 por Billie, Sarah, Ella e outros bambas, ganharam versões irresistíveis. E a regravação de Carrickfergus por Loudon Wainwright Jr. já vale o disco.
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Monte sua discoteca desconversa: seguem os discos de 2008, 2009, 2010.

Dois miados de gato

"- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
Lã vermelha, leito fofo.
Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira
- Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.
Não, não estou para mais - não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com este enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me!
Deixem-me sossegar...
Noite sempre pelo meu quarto.
As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor
- Pelo menos era o sossego completo...
História! Era a melhor das vidas...
Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
- Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...
De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário!
Bom edrédon, bom fogo
- E não penses no resto.
É já bastante, com franqueza...
Desistamos.
A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim co'a breca!
Levem-me para aenfermaria!
- Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.
Justo.
Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível - por causa da legenda...
Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda
- E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...
Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica.
O menino dorme.
Tudo o mais acabou."

Mário de Sá Carneiro, Caranguejola, Paris, Novembro de 2015
Comecei a escrever esse texto do vôo 3904 das 16:30 de ontem que me trouxe de volta ao Rio. Nesses tempos corridos, a mesinha do banco da frente pode ser uma boa alternativa para a palavra escrita. Nesse momento, Martha Wainwright invade meus ouvidos com uma versão desconcertante de All by myself, não aquela baba velha, mas o fox clássico dos anos 20.
Nesse fim de ano, apareceu muita coisa boa no Itreco. A que mais me supreendeu foi Fôlego. de Filipe Catto. Ouvi Gardênia Branca na cantareira e voltei umas dez vezes: é um legítimo tango de zona. Amo os tangos e os bolerões de zona. Filipe canta com uma dor cortante. Já passaram pelo aleatório, com ótimos fluidos auditivos, Adoração (que ouvi no rádio por acaso dia desses) e 2 perdidos do Arnaldo Antunes. Um disco confessional, lupiscínico, lembra o primeiro da Angela Ro Ro, que furou na vitrola em outros tempos.
Devagar, o duplo letrado de André Memahri também vai chegando aos ouvidos. É um duplo difícil, precisa de mais apuro auditivo. Diferente de Filipe, mais fácil de gostar.
Ouço ainda o concerto de Keith Jarret no Rio (sublime!) e um novo de Gianluigi Trovesi e Gianni Cóscia, que achei dando sopa na rede, também muito bom.
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Sinto-me bem escrevendo às 4 da madrugada de um acordar nãoseiporque. Acordei pensando em nós, nas surpresas que a vida manda quando menos se espera. Quando já se acostumou ao fogo lento e a se contentar com pouco. Com você, nada é pouco. Tudo é sublime!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Roteirinho para entender a segunda canção de afeto

"Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas."

Fernando Pessoa

Começa com o "Campo de Flores" recitado pelo Paulo Autran, aquela que fala que Deus ou o diabo me deram um amor no tempo de madureza. Eu já tinha lido , mas com Paulo, tenho que admitir, é mais bonito. Além disso, nunca é demais ficar ouvindo Drummond muitas vezes, só faz bem para a alma.
Segue-se a canção "É o amor outra vez", do disco Mundo de dentro, de Dori Caymmi. É a nossa história musicada. Possivelmente eu devo ter me enfronhado na alma do Paulo Cesar Pinheiro para escrever essa letra pra você.
A terceira tem uma história longa e uma relação direta com duas primeiras grandes paixões: o primeiro grande amor e Nana Caymmi. "Mudança dos ventos", de Ivan e Vitor foi um divisor de águas no amadurecimento do meu gosto pela música. Além disso, embalou meu primeiro grande amor. Leitora desse blog, ela vai se achar aqui. Essa história é recorrente, não precisa contar de novo. É alguém que me ensinou a não economizar "eu te amos" quando se ama. E a canção tem a força dos grandes amores.
E daí para "De todas as maneiras", do Chico, aquela que fala solta as unhas do meu coração, ele está apressado, entendeu? Gravei com Bethânia, mas tem outras igualmente interessantes.
E aí "A tua boca", do Itamar Assumpção, postei a letra aqui em baixo, não é preciso mais nada.
"Vem ver", do disco novo de Adriana Calcanhoto, é um samba revelação: por você, faria tudo.
A sétima é um canto triste: "Chuva", gravado por Mariza. Simboliza todos os desesperos do amor impossível.
A oitava é "Lenha" do Zeca Baleiro. Escolhi a gravação da Rita Ribeiro, porque acho a mais cortante, mas também há outras.
E aí aparece o angolano Bonga com "Mona ki ngi xica". Conheci essa música no filme Amores possíveis de 2001. Ela embala uma das cenas mais fortes, entre Carolina Ferraz e Murilo Benício. É pra viajar entre lençóis.
Nessa linha, gravei também "Féte au village", dos ceguinhos do Mali, Amadou e Mariam. Outra viagem.
Uma outra versão de "A linha e o linho" do Gil pra você não esquecer do nosso projeto de vida.
Por fim, o "Texto para uma separação" de e com Elisa Lucinda. Irracional como todas as paixões.



domingo, 18 de dezembro de 2011

Muitas noites numa noite

Eu era moleque da Rua das Flores. Ao lado da minha casa, ficavam na sequência: a casa da minha bisavó (Marieta), a quitanda do Seu Said, a casa da Dona Odete e o Clube Operário. No Clube Operário, reinava o Botequim do Amado, sua pastelaria de vento, sua sinuca de bico, seu jeito de amigo. Não foi difícil ficar amigo. Mais tarde, amigo e frequentador. Mais tarde, sede do Bloco Carnavalesco Reminiscentes do Chapéu Coco, que reinou no carnaval miracemense no final dos anos 70. Mais tarde, padrinho dos meus três casamentos: um na igreja e dois de fé. Acabo de saber que me deixou de vez. Tento acreditar que vai ser a mesma coisa sem ele, mas é difícil. O mundo, o meu em particular, acaba de perder um amigo universal.
Desrespeitosamente, não fui ao velório, mesmo estando em Miracema. Preferi lembrar dele como da última vez que o vi no seu último botequim, próximo ao Campo de Aviação há cerca de dois anos. Depois as coisas foram atropelando o dia e acabei não indo mesmo: Chicó e Luisa até as 4, a casa do Jadim às 4 e 30, overdose de pasteis da Dona Ricarda às 5.
De noite fomos à Pádua pra ver os meninos tocar. Entre um choro e outro, um desespero e outro, fiquei ali dividindo a noite com meus amigos, mas dividido do que dividindo.
Em casa não foi diferente, com Chicó cubando o tempo todo no meu cangote.
A noite passava estranha como sentir dor num pé amputado.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Mofando na Serra dos Órgãos


A tua boca me dá água na boca
Ai que vontade de grudar uma na outra
E sugar bem devagar gota por gota
Veia-flor beijando a flor ou borboleta


A tua boca me dá água na boca
Ai que vontade de rasgar a nossa roupa
Vamos pra qualquer lugar praquela gruta
Pra qualquer quarto de hotel praquela moita

A tua boca me dá água na boca
Ai que vontade de gritar é uma bomba
Acho que vai rebentar desgraça pouca
Azar eu vou me matar na sua boca

Itamar Assumpção, Tua boca


A morte de Jimmy Darmody no último episódio da segunda temporada de Boardwalk Empire fez um estrago na série que será difícil recuperar. A relação antagônica entre Jimmy e Nuck era para mim, o ponto alto da história. E Michael Pitt construiu um Jimmy fascinante: controverso, amargo, vítima de mãe incestuosa e manipuladora. Boardwalk vai ficar órfão do seu melhor personagem.
Não é, por exemplo, como a morte de Rita (Julie Benz) em Dexter na quarta temporada. É possível que tenha ficado um amargo sentimento pela morte de Rita, mas é algo esperado na história de um serial killer.
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Ontem levei praticamente o dia inteiro e parte da noite pra chegar em Miracema. Um caminhão tombado na chegada de Teresópolis, muita chuva em todo o trecho e meu record negativo: oito horas e meia de viagem. Perdi a conversa no Bunda de Fora e o samba na Capivara, mas cheguei vivo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Adorei sua mensagem

Me trouxe o menino de volta
A Praça da Rua das Flores.
Os velhos carnavais miracemenses.
Os encontros furtivos na casa da minha avó.

Me trouxe uma paz e uma possibilidade.
Uma sensação de indefinido.
Alguma coisa que brilhou de novo.
Uma estranha perspectiva.

domingo, 11 de dezembro de 2011

O melhor encontro casual



"Despreparada para a honra de viver
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus insumos são amadorismos.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstãncias atenuantes me parecem cruéis."

Wislawa Szymborska, A vida na hora

Semana corrida essa que passou, talvez a última semana do ano de grandes embates. Daqui pra frente é o morno do natal que se avista. Ontem mesmo resolvi ir ao Plaza Shopping no final da tarde para renovar o estoque de chocolate. Já está difícil entrar e sair. Milhares de pessoas e uma fila complexa nas Lojas Americanas. De repente, avistei Laura. Não tinha marcado, não era o objetivo, mas lá estava ela. Não foi o meu primeiro encontro casual com Laura. Moramos juntos, dividimos silêncio e conversa, e algumas vezes, nos encontramos por acaso. Num ônibus, numa esquina, na praça de alimentação do shopping, em meio a muitos possíveis encontros, era Laura quem estava ali. Laura tem sido meu melhor encontro casual nesses anos todos.


Em São Paulo quarta e quinta, além dos atrasos da TAM, das reuniões conturbadas e da noite mal dormida no Hotel Transamérica, descobri o Restaurante Capim Santo e seu camarão ensopado no coco. Fotografei pra guardar o sabor.
Ontem apaguei o dia. Depois de três dias atropelados, o jeito foi hibernar. Entre um sono e outro assisti ao brasileiro Estamos juntos. Descontando o desempenho alto nível de Leandra Leal e a oportunidade de ver Luisa Maita cantando em cena, o filme não diz a que veio. É um ensaio sobre a solidão e a proximidade da morte que a mim, emocionou pouco.
Botei pra tocar no Itreco, o disco do fadista Pedro Moutinho, Um copo de Sol. É uma grata surpresa. Fado sem cerimônia, tradicional, sem improviso, vadio. Bom de ouvir.
E leio e releio sem parar o livro de poemas de Wislawa Szymborska, editado pela primeira vez no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Regina Prybycien.
Taí uma boa dica: dê livro de poesia de presente no natal. Quem sabe o Mundo não acorda?

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Dois haicais

Das vantagens do corredor

Pousado o avião
quem está no corredor
pula mais cedo.

Chuva

No caos de Congonhas
A conversa de amigos
É o que mantém pernas e calma.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Boss

A melhor surpresa da temporada de séries desse semestre foi Boss. Começando por Gus Van Sant, que dirigiu o primeiro episódio e é um dos produtores. A história acompanha a trajetória do prefeito de Chicago, interpretado por Kelsey Grammer (excelente), que sofre de uma doença degenerativa incapacitante. Controverso, o sujeito é apaixonado pela cidade, tem asco pela humanidade e está morrendo. A série, baseada livremente no Rei Lear, ainda conta com Hannah Ware (pitéu é pouco pra moça, é um triplo AAA!) como a filha desgarrada do prefeito.
Vinha na Barca Martim Afonso hoje na Baía e uma moreninha ao meu lado flanava no tempo. De repente, Regina Spektor invadiu meu ouvido com a versão da centenária My Man, da irrepreensível trilha sonora de Boardwalk Empire e me deu uma vontade danada de compartilhar a canção com a moça. Mas que tempo é esse que não se pode dividir uma canção dos anos 20, sem ser desagradável?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Novos filmes descartáveis

Trabalho e cinema, foi o que deu pra fazer nesse fim de semana niteroiense esquisito. Saudade da sexta feira gorda do BDF e do samba da Capivara. Enfim, resolvi ficar em Niterói depois de ter bebido algumas na festa da empresa na sexta. Pago um ingresso caro pela vodca, como já disse. Durmo mal ou não durmo.
Ah, e teve também aquele joguinho insosso de Fluminense e Botafogo. Quem diria que o Botafogo, depois de oito apagões seguidos, iria jogar tanto contra o Fluminense, ainda que desse em nada. Inês já estava morta. Enfim, o Fluminense não jogou nada também.
Fiquei satisfeito com a vitória do Corinthians, apenas como uma homenagem prestada à Sócrates Brasileiro.
E vi por inteiro, o denso Cisne Negro. Digo por inteiro porque da primeira vez, tinha achado triiiiiste demais pra terminar. Dessa vez vi todo. Certamente, não é o tipo de filme que faz você levantar da cadeira e sair dançando.
Vi dois outros filmes assim assim: Amor a toda prova e Amizade colorida. No primeiro, marido enganado procura playboy para aprender sobre a vida e no final descobre que o playboy quer casar com a filha. No segundo, um casal simpatiquinho decide ser só amigo e fazer sexo semi-animal, o que acaba inevitavelmente em casamento. Clichê do clichê, literalmente, Mas passam bem pra um fim de semana esquisito.
Passei o domingo escutando Paolo Conte. Via con me.
Hoje já voltou tudo ao normal. Ônibus, cantareira, trabalho, trabalho, cantareira, ônibus. Estou em casa. Mais salvo, menos são.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Para ler 600 vezes (e depois reler outras tantas)


Alguns gostam de poesia

Alguns -
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade,
gosta-se de afagar um cão.

De poesia -
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como uma tábua de salvação.

Wislawa Szymborska

Nesses tempos ruins, em que se impõe uma música barulhenta e sem graça nas festas, nas rádios FM (afora as que tocam baladões mela cueca dos anos 80), em que não há mais recitais de poesia decentes, em que não há esperança de dias melhores para a palavra, a leitura dos poemas da polonesa Wislawa Szymborska (pronuncia-se Vissuáva Chembórska) na ponte aérea, me causou a mesma comoção de quando li O metro nenhum de Francisco Alvim.
Deveria ser obrigatório nas rádios (sugiro um batidão alternado com uma poesia), nas televisões, nas escolas, onde fosse possível mostrar que a poesia vive, urge, e pode salvar almas vazias.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Poemínimos II

Duracell

Beatriz tem uma bateria interna.
De vez em quando ela liga.
E não para de rodopiar o resto do dia.

Telefone

Cheguei em casa.
O coração cheio de vodca.
O pé cheio de dor.
Esqueci seu telefone.

Não se atravessa a Hadock Lobo pela direita

Definitivamente A Força do Querer não foi uma unanimidade. Ainda mais concorrendo com o terceiro episódio da décima temporada de Segura a O...