sábado, 28 de fevereiro de 2009

Lua sobre sangue

Fizemos o retorno em dois tempos. Ontem dormimos em Linhares, hoje voltamos pra Miracema, amanhã vou pra Niterói.
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Sinto-me bem ainda assim. Nem tão cansado estou. Feliz de que tudo tenha dado mais do que certo.
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Soube hoje da vitória do Salgueiro. Sou um salgueirense fajuto, que já se pegou morrendo de amores pela Mangueira ou pela Portela. Mas depois que Aldir Blanc compôs Lua sobre sangue, eu não tive mais dúvidas de que era salgueirense. Acho que posso comemorar.
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Pra não perder o costume, levei um Bolaño comigo pra praia: Noturno do Chile. Estou lendo ainda, mas já deu pra ter as melhores impressões. Só não terminei porque estava com uma preguiça mental aguda por leituras.
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Na verdade queria ter levado livros para ler com as meninas. A gente vive se encontrando nesses caminhos.

Amigos


Com o tempo, vão ficando cada vez mais raros os amigos. Acho mesmo que vai se refinando o conceito da palavra. Camila já escreveu sobre o assunto em seu blog. Guimarães Rosa dizia que "amigo não é o ajuste de um dar serviço ao outro e sairem pelo Mundo barganhando ajuda. Amigo é aquele que você gosta de conversar, de igual pra igual, desarmado...".
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Tenho bons amigos no trabalho e procuro levar a ferro e fogo os conceitos de Guimarães: com todos eles, eu gosto de conversar e nunca admiti barganhas. São parceiros do dia a dia e estamos sempre procurando dividir as angústias e as dificuldades da nossa relação profissional. E usamos a hora do almoço para trabalhar, seja conversando sobre assuntos do trabalho ou do último filme que vimos. O almoço é a hora de falar de qualquer coisa e parece ser ali que crescemos para o Mundo.
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Tive a sorte grande de reencontrar uma amiga depois de muitos anos e poder trabalhar com ela hoje. Ao reencontrá-la, reencontrei a amiga de 30 anos atrás. Mais que isso, reencontrei a idéia que fazia dela, pois nem tão amigos éramos assim. Naquela época, eu ainda era um sujeitinho perdido na cidade grande e Renata tinha olhos de consideração e afeto que me fascinavam. Parecia que se apiedavam de mim e me acolhiam. Como nada tenha mudado no seu olhar ao longo desses anos, o resto foi só aprimoramento.
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Esse grupo que foi comigo a Ajuda nada tem a haver com trabalho. Só Alexandre me acompanha desde o jardim de infância. Desses 47 anos de vida, é bem possível que ele tenha participado ativamente de 40. Devo a ele parte do que eu sou hoje. Crescemos juntos, passamos tempos dificeis juntos, e tempos de celebrar juntos, nossas filhas nasceram praticamente juntas. Alexandre está muito próximo do conceito de irmão.
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E por uma semana, esse grupo todo esteve muito próximo do conceito de família. O cuidado, a dedicação e o comprometimento que cada um teve com o outro ao longo desses dias, a preocupação em dividir as alegrias e poupar as recordações difíceis superou as minhas melhores espectativas. E ver essas meninas dando lições diárias de fraternidade e companheirismo é de dar inveja aos mais primitivos conceitos da palavra amizade.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Muito que andar por aí


Que pode mais querer um sujeito que tem duas filhas como as que eu tenho? Quem pode se queixar, quem pode se aborrecer com essas duas? O que mais pode se adequar ao conceito de felicidade se não estar com elas, viver por elas?
Laura vive me dando lições de humildade, de perseverança, nunca pede mais do que o mínimo que eu possa lhe dar. Nossos valores sempre foram guiados pela confiabilidade e pelo respeito que temos um pelo outro.
Luisa nada pede. É feliz assim como é, raramente reclama. De vez em quando, faz birra com qualquer coisa, mas é mansa, tudo passa tão rápido como começou.
Elas são meu patuá, minha crença de que tudo pode dar certo, a canção que eu ouço no carro, meu trabalho, minha vontade de continuar vivo.
E de sair por aí e nem me importar se são 500 ou 900 kilômetros, se a cama é curta, se o ar não gela direito. E de dormir muito bem em qualquer pouso. E de passar o dia na areia da praia tomando Sol, coisas que são a antítese do eu sozinho.
Laura e Luisa vivem se excedendo no mais íntimo dos meus orgulhos.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O vinho, a poesia e a virtude



Minha satisfação com a cerveja não vingou. Preferi passar o resto do tempo abstêmio. Gosto muito da embriaguez do vinho, mas não tem dado certo mesmo. Acho que o vinho compete no mesmo sítio do anti depressivo e instaura o reino da confusão mental. Não sei quando haverá um novo dia esperança, mas por hora, resolvi parar.
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Já outra coisa que vem me deixando com vontade de abandonar pra ver se melhora é o Fluminense. Ontem mesmo podia ter ficado conversando mais tempo com as meninas. A rigor só tive duas grandes emoções com o Fluminense nos últimos anos: na eliminação do São Paulo e na do Boca na libertadores do ano passado. Nem vou comentar o jogo. Renatinha sabe que foi um jogo de cabeças de bagre, e ganhou o que estava melhor organizado.
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Ontem fomos a Trancoso e repetiu-se o ritual das brincadeiras e do riso solto desses ótimos dias com ou sem vinho.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Vai ficar na saudade


O carnaval de Ajuda não chega nem perto de ser considerado um carnaval baiano. Não é muito diferente do que os janeiros que passamos aqui. Há um bloco aqui, um trio ali, mas nenhuma muvuca. E há, quem já passou conhece, um tal Sr Madruga (na foto com as meninas), que conduz um tantan pelas ruas com a maestria de um grande ritmista.
Ontem paramos para ouvir e sambar ao som do Madruga. Já faz parte do folclore de Ajuda. Lá pelas tantas, Alexandre pra lá de bêbado, pediu que ele executasse Vai ficar na saudade, clássico do samba joia de Benito di Paula. Seu Madruga nem pensou e arrematou: Você cortou o barato do nosso amoor...........!
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Das padecenças de ser pai:
1) Aguardar a escolha do brinco na feirinha- não é só um brinco, não é só uma barraca, não é só uma feirinha. E o problema não é nem comprar, é experimentar, avaliar, perguntar pras amigas.
2) Ir ao parque ecológico de Arraial da Ajuda, onde tudo é artificial, até as ondas. Alexandrino carrega essas meninas para as quedas mais abismais e enquanto uma não torcer um tornozelo, não se dará por satisfeito.
3) Ter compreensão com as perdas: perda da lente de contato, perda do colírio, perda disso e daquilo outro, tudo se perde.
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Das delícias de ser pai:
1) Ver que o amadurecimento das duas vem trazendo uma raiz forte de entendimento e cumplicidade, raro de se ver por aí.
2) Estarmos aqui comendo um crepe, tomando um sorvete e ligando o foda-se.
3) Saber que a rotina de cada um está amarrada pelos cuidados do outro, dar asas ao entendimento, discutir uma canção mais bem elaborada, ouvir a gargalhada ressonante de Luisa.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Arraial da Ajuda, carnaval de 2009


São exatos 935 kilômetros da minha casa em Miracema até a Pousada Aquarius em Arraial da Ajuda. Saímos às cinco da manhã no sábado de carnaval, com a premissa de chegar em Ajuda antes do cair da noite. Fomos em três familias e três carros, eu, Laura e Luisa na S10.
Paramos em Serra (336 km), Linhares (468 km) e Pedro Canário (606 km)
Sempre viajo bem com as meninas. Estão sempre animadas, não dão trabalho. E principalmente, não são nem um pouco enjoadas. Respeitam os bons silêncios e as boas conversas.
Chegamos a tempo de pegar a janta no velho Paulinho Pescador, que está aqui desde que isso era uma roça. Ontem fomos ao Sítio Mucugê e hoje à Praia do Taípe.
Uma das coisas que diferenciam as praias daqui é a temperatura da água. Dá pra se divertir numa água morninha, que parece aquecida.
Exerço a cada dia meu reaprendizado alcoólico. Nos tempos idos, gostava de beber, nada que me tornasse um viciado, mas gostava. Depois tive um episódio depressivo tisunâmico e desaprendi a beber. Agora venho tentando devagar. Nem sempre dá certo.
Esses dias aqui estão de uma preguiça. Nem vontade de ler, nem vontade de escrever, só aproveitar a sombra e as meninas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Chuva de verão

There may be trouble ahead
But while there's moonlight and music
And love and romance
Let's face the music and dance

Before the fiddlers have fled
Before they ask us to pay the bill
And while we still
Have the chance
Let's face the music and dance

Soon
We'll be without the moon
Humming a diff'rent tune
And then

There may be teardrops to shed
So while there's moonlight and music
And love and romance
Let's face the music and dance
Dance
Let's face the music and dance

Irving Berlim

Hoje vim pra Miracema. Dez minutos antes de chegar em Pirapetinga, uma cidadezinha mineira próxima daqui, sumiu aquele céu de brigadeiro e desceu água. Parecia querer lavar o Mundo e o parabrisa da S10. No player, Consiglia Latorre, Regina Braga e Rodrigo Rodrigues. Na hora que a água despencou do céu, Rodrigo mandava Let's face the music and dance. Deu vontade de sair dançando.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Duas stelas e a conta

Renatinha consegue ser agradável mesmo nos meus dias mais azedos. Como ontem em São Paulo. Alguns fantasmas foram a São Paulo só pra atormentar minha alma quieta.
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Eu sou um sujeito que prefere as linhas retas. Detesto curvas e paralelas. Vivem me incomodando. Ontem eu estava assim. Incomodado. Sem um motivo palpável, mas incomodado.
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Amar é terminar a noite no ShopingIbirapuera jantando num kilo e nem se importar que não seja o melhor dos Fasanos.
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Custei pra dormir no Quality Hotel em Moema. Primeiro vi a novela indiana da Globo. Insuportável, inclusive uma cena sexy entre a Juliana Paes e o Márcio Garcia, de brochar o mais animado dos super-machos. Depois, o filme O casamento do meu melhor amigo. Depois a janela do décimo terceiro andar, de onde só não me atirei de raiva da programação televisiva porque ainda há filho pra criar.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Enquanto espero acontecer

Victor Jara foi assassinado no Estádio Chile pela Ditadura Pinochet. Antes teve cortados seus braços como castigo pelo que escreveu. No iníco dos anos 80, conheci Victor através de Ivan Lins no antológico disco A noite, em que Ivan gravou Te recuerdo, Amanda e com Mercedes Sosa, que gravou La carta, entre outras . Nas minhas peregrinações de menino pela Rua Sete de Setembro, ainda nos anos 80, achei um LP de Victor que foi fundamental para mim. Uma gravação refinada do Lamento Borincano, muito melhor do que todos que tentaram gravá-lo depois, inclusive Caetano. Recentemente descobri que Amanda, na verdade, era mãe de Victor. No coração do menino que peregrinava pelos sebos de discos da Rua Sete, Te recuerdo amanda sempre será uma canção de amantes.
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A morte de Blossom Dearie e sua vozinha naraleônica semana passada, é mais um tom negativo para o ano de 2009. Fez uma Manhatan belíssima, quase desisti da gravação de Dinah Washington. Paulo Roberto Pires (link ao lado) fez um texto interessante sobre ela.
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Espero em casa, um taxi para o Aeroporto Santos Dumont. Mais dois dias em São Paulo. Nos últimos tempos, São Paulo tem sido sombria e vaga. Ou será que fui eu?

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Vai um café?

Quando vim pra Niterói, morei um tempo com minhas tias. Uma delas ensinou-me a fazer café. A receita era infalível: uma garrafa térmica cheia d'água (era uma garrafa de meio litro, que conservei até bem pouco tempo), cinco colheres de açúcar e duas de pó. Depois que passamos a morar sozinhos (eu, meus irmãos e alguns colegas de faculdade que passaram por aqui), eu fiquei responsável por coar o café toda manhã. Acordava mais cedo mesmo, ia pra cozinha fazer café. Resisti a comprar uma cafeteira elétrica por muitos anos e não tenho uma até hoje.
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Hoje as coisas mudaram. Não tenho mais garrafa térmica de meio litro, de forma que o café quase sempre fica meio fraco ou muito forte. O açúcar ganhou uma química que o tornou mais melado, cinco colheres é muito. Já o pó de café parece ter minguado e tenho sempre que usar três colheres quando faço café. E eu virei um preguiçoso mor para afazeres culinários, de forma que estou surpreso por ontem e hoje ter levantado para fazer um cafezinho: o infalível café da Tia Cicida.
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Ontem, ao fuçar a grande rede, decobri que Mad Men foi criada pelo mesmo produtor e escritor que fez Família Soprano. E mais: foi escrita antes dos Sopranos, embora tenha ido ao ar tempos depois. Tudo isso faz sentido. Don Draper tem características muito parecidas com Antony Soprano. Os diálogos certeiros, algumas cenas antológicas, como a que Cooper vai justificar a Draper porque não pode demitir um de seus funcionários que já havia sido demitido por Draper, a fogueira de vaidades tinindo, em quase tudo uma remete a outra, embora sejam situações absolutamente diversas.
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Das revisões de filmes não vistos em 2008, ontem vi Mentiras Sinceras. Boa trama, desfecho entalado na alma de cada personagem.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Lembranças dos velhos tempos em tempos de esquecimento

"Me defino como un hombre razonable
no como professor iluminado
ni como vate que lo sabe tudo."

Nicanor Parra

"Não sei muitas coisas.

Às perguntas que minhas filhas fazem,
Respondo com dificuldade."

Afonso Romano de Santana

Se lhe perguntarem o que sou, pode responder sem vacilar:"é um gestor em saúde. A única coisa que sabe fazer é gestão em saúde. E assim quer ser lembrado" Tenho passado pelo privilégio de poder trabalhar com pessoas estrategicamente escolhidas para que possamos estabelecer parcerias que favoreçam o bem estar do nosso cliente e otimizem o resultado da empresa. O envolvimento com a evidência científica, a opinião balizada, parceiros profissionais de alto gabarito, tudo isso me contamina. Faço com a grande sorte de ser pago por fazer o que gosto.
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Mas hoje um fato inusitado deixou-me fragilizado. Teve uma reunião para decidir o futuro político da empresa. Nada que diga respeito a mim, nem direta nem indiretamente. De fato, as coisas parecem ter transcorrido da forma mais traquila e amadurecida possível. Há alguns anos sou absolutamente apolítico. Fujo delicadamente de qualquer discussão que possua esse fim. Mas a reunião não sei porque cargas d'água, lembrou meus tempos de militância. Das costuras, dos arranjos políticos, do jogo de vaidades que circunda o poder. E sofri por ter passado tudo que passei. O que eu sou hoje, em nada remete àqueles tempos. Nada levei dali. Só a perda dos anos. Irrecuperáveis anos!
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Estou vendo a primeira temporada de Mad Men. É alguma coisa perto do sublime das séries de TV. O mesmo impacto que tive com Familia Soprano e Deadwood. Triplo A!
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Ao citar os aniversariantes de fevereiro, cometi pelo menos 3 imperdoáveis esquecimentos: Adriana, Emilsom e Ieda. São todos da familia de cá, parceiros queridos de trabalho.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Crônica de todo dia

Costumo acordar normalmente entre 6:30 e 7h, sem grandes atropelos, sem despertador, lentamente, o que me permite chegar todo dia na empresa entre 8 e 8:30.
Depois das sete, a Cantareira se lota de trabalhadores, executivos e estudantes niteroienses que trabalham ou estudam no centro do Rio. Pode se sentir o perfume clautrofóbico misturado das senhoras bem arrumadas, que se misturam à boiada de gente que vai para a labuta. Espero pelo menos uma barca nesse tenso amontoado de gente. Quase sempre vou em pé, folheando um jornal ou um livro. Aí eu pego a Primeiro de março, entro pela Rosário, passo no Cláudio pra ver se tem alguma coisa nova e conversar com Raimundinho e Márcia (quase sempre tomo um café curto), e chego à Rio Branco, caminhando até a empresa.
Mas de vez em quando, meu relógio biológico acorda mais cedo e, como nada tenho para fazer em casa e muito pra fazer aqui, vou cedo pro trabalho. Como hoje.
O cenário é outro. Ainda é noite, pode se ver as luzes acesas do Rio de Janeiro, a Barca está com sua lotação normal e vou sentado. A Lua está começando a minguar (quase plena) e a Baía parece uma água mansa de rio. Minhas companhias são meu Ipod, que aleatoriamente vai tocando Radiohead, Omara, Duo Assad, Piazzolla, etc e o livro de Kurt Vonnegut, Matadouro 5. Viajo com Billy Pilgrim, personagem central do livro. Quem já leu, sabe que é a história de um homem médio, que vivenciou o bombardeio de Dresden na Alemanha da segunda guerra e que testemunhou a morte de mais de 135 mil pessoas.
Enquanto a Cantareira segue seu rumo, vou enchendo minha vida vazia de trabalho, música, leitura, caminho. Minhas melhores espectativas estão longe daqui, acordando para ir ao Colégio, começando sua vida, os corações leves e as mochilas pesadas. Queria ser uma folha do caderno de cada um deles, para observar e aprender tudo que perdi de leveza, tudo que desaprendi de humanidade, tudo que deixei num final de tarde qualquer em Miracema.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Seresta sertaneza

A obra curta de Elomar Figueira de Melo, de quem Henfil se inspirou para criar o bode Francisco Orelana e Vinicius de Moraes alcunhou de Príncipe da Caatinga e que mistura traços do romance medieval e da música nordestina, está saindo em partitura: o cancioneiro Elomar.
Gosto de tudo na música de Elomar. O sofrimento, a dor, a consagração, o escárnio, o prazer, as incelenças. Tenho todos os seus discos, recentemente recuperados pela já extinta gravadora kuarup e masterizados de forma perfeita.
Só tenho a lamentar que a Unversal não seguiu mesmo caminho e algumas de suas preciosidades, como o primeiro disco, o disco gravado ao vivo com o Quarteto Bessler-Reis e o disco com Turíbio Santos foram lançados de forma desleixada, abafados, mal dão para escutar.
Nos anos 90, meus amigos Mário e Marila foram à Casa dos Carneiros (residência de Elomar) no recôncavo baiano e compraram do próprio, alguns cds. Ainda os tenho até hoje muito bem guardados. São preciosidades do meu acervo.
Elomar é o melhor intérprete de si mesmo, mas consegue ter em Eugênio Avelino, o Xangai, um seguidor e intérprete à sua altura. Xangai dedicou um disco inteiro a Elomar e parece querer gravar outro, pelo menos foi o que me disse.
Seu filho João Omar é também um exímio violonista e tem um disco muito bom, que ninguém acha pra comprar.
Elomar tem seu público restrito e seleto, mas nunca chegou ao grande público.
Num país vasto como o nosso, com uma música rica como a nossa, é muito triste perceber que essas pessoas geniais não têm o espaço que merecem!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Alô Fevereiro

A familia costuma aniversariar no segundo semestre, à exceção de alguns desgarrados que resolveram vir ao Mundo nesse mês de carnaval e poucos dias: Gisele (9), Alexandre (12), Diô (12) e Jadim (14). Cada um a sua maneira, merece muitas palavras de afeto e consideração desse blog. Minha vida seria mais vazia sem o quarteto.
Alexandre conheço desde o jardim da infância até o último fim de semana no Sebastião Bunda de Fora. Desde as projeções do Cine XV até o último plantão no CTI da Casa de Saúde. Gosta de doces e costuma fazer aniversário no meio da semana pra não ter que pagar a janta aos amigos.
Quase teve um orgasmo quando começou a namorar a Gisele e descobriu que seu aniversário é dois dias depois do ele. É a mulher ideal! Dois aniversários igual a uma comemoração! Estão juntos há mais de 20 anos. Gisele aguenta o tranco. É da raça das mulheres de fibra. Além de amiga, nas horas vagas trata dos meus pobres dentes.
E o que falar da Diô? Está comigo há 47 anos, desde que nasci. E ainda faz a melhor polenta do Brasil! Diô cuida com muito cuidado e atenção de dois decrépitos: eu e a Dona Isaura, mãe dela.
Do Jadim, já falei muito da nossa irmandade, dos nossos gostos comuns e da consideração que temos um pelo outro.
É isso!
Parabéns e obrigado aos quatro!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Trivial variado

Acaba de ser lançada uma coletânea de entrevistas do Pasquim, organizada por Tárik de Souza, chamada O Som do Pasquim. Aproveite para rir bastante. Pérolas "finíssimas" de Agnaldo Timóteo ( "A natureza já fez a mulher mais burra do que o homem!") e Waldick Soriano ("Nenhuma esposa deve pensar que o marido fora de casa vai ser fiel a ela, entende?).
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Vim rindo na Cantareira disso tudo. Só rindo mesmo com os atrasos cada vez mais constantes da cantareira e a super lotação. É melhor levar no riso. Hoje deu até tumulto. Um sujeito queria entrar pela janela! Foi ovacionado pela platéia.
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Achei uma edição nova das obras completas de Baudelaire por 160 beringelas. Ótimo investimento!
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Esqueci minha calcanheira de silicone em Miracema. Não sei se compro outra ou expio meus pecados, sentindo dor no pé.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Alone again

Depois de três semanas quase o tempo todo com meus filhos, retorno à solidão do pardieiro no Ingá e aos indefectíveis biscoito wafer de limão. Já ia me acostumando a determinadas regalias, como as ótimas conversas a dois ou em conjunto, revisão de filmes clássicos da minha vida, jantar de vez em quando. Pequenas coisas que mudam a sua rotina, mas que devem ter um peso importante, pois deixam essa saudade doída enquanto escrevo. Uma saudade que se instaura logo depois da partida e toma conta do todo. Lembrar dos detalhes dos nossos entendimentos, do gosto que as meninas têm tomado pelas canções do mesmo jeito que me encantam desde sempre, da polenta da Diô, e por aí vai.
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Não telefonei pra nenhum deles no meu retorno. Acho telefone uma merda! Não tenho outro termo para definir essa conversa que só serve se for necessária.
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O calor de Niterói está de morte. Não há ar condicionado que dê jeito nessas paredes. Perco tempo vendo mais um empate do Fluminense. Estou à cata dos maestros do café na rede. Achei alguns. Poucas músicas têm me deixado tão embasbacado quanto o tango.
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No intervalo das conversas, vi Um crime Americano, Elen "Juno" Page em todas. Dez como reconstituição, Zero como entretenimento.
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Alone again está aí no play. Aproveite para ouvir a versão enxuta do Tok Tok Tok.

A fila dos que têm plano

É vexatória a situação das emergências na cidade do Rio de Janeiro. O sujeito pode levar 3 horas para ser atendido numa emergência. E não, não estamos falando de saúde pública. Estamos falando de atendimentos muito bem pagos pelas operadoras. Pelo menos, pela minha operadora, que sofre ainda da discriminação de não ter hospital próprio, tendo que utilizar da rede cada vez mais apertada e verticalizada. Sofremos essa angústia no nosso dia a dia da empresa. Mas hoje, o jornal O Globo estampou na capa a manchete do dia: "Planos de saúde lotam as emergências do Rio". Na página 14, uma manchete não menos tenebrosa que a da capa: "A fila dos que têm plano". A matéria dá conta das filas e filas de espera, principalmente nas emergências da zona sul, onde a situação é ainda mais crítica, mas não aponta soluções. Enquanto isso, o bem maior das operadoras e dos prestadores de serviços, que são os clientes, continuam na fila de espera.
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Por falar em vexatória, o Globo também dedica duas páginas à decadênciado ensino médico nesse país. Dá medo só de ler.
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O terceiro vexame do Globo de hoje é a situação do Fluminense no Campeonato Carioca. Em sexto lugar, atrás do Vasco e dos modestíssimos Americano, Madureira e Tigres, o time vai afundando no campeonato.
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Ontem fomos (eu, Laura e Luisa) à Fazenda Santa Rita assistir o regional do Moreira. É o povo que toca comigo em Odete Lima, comandado pelo bandolim do Moreira. Estão muito amadurecidos e dedicaram-nos um belo Chorando Baixinho. Há muito tempo que não volto pra casa à uma da manhã, satisfeito da vida!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Jornal de hoje

Três coisas chamaram-me a atenção no segundo caderno do Globo desse sábado e divido com minhas amáveis leitoras:
1) A morte do crítico de cinema Moniz Vianna resenhada por outro crítico, Ely Azeredo, é prá ser lida e relida. E aprendida. Moniz morreu aos 84 no sábado passado, mas já havia deixado a crítica cinematográfica há 35 anos. Era estudante de medicina e tinha 21 anos quando começou seu trabalho no jornal Correio, um dos mais importantes da década de 40. Revolucionou cinema e crítica, deu vez às produções independentes no pós guerra que não tinham espaço no cinema, foi um dos responsáveis pela criação da Embrafilme. Recusou-se a reconhecer o cinema novo, mas hoje tem seu papel reconhecido e exaltado por Jabor e Diegues. Linda crônica, fiquei com saudade do cara sem nunca tê-lo conhecido.
2) Paradoxalmente, Patrícia Kogut, colunista de fofocas do segundo caderno, exerce sua função crítica dando nota zero para True Blood. Sinceramente, Patrícia, você deveria se restringir ao seu ritual fofoqueiro, que em nada contribui, mas também não atrapalha. True blood tem bom roteiro, ótima história e Ana Paquin está deliciosa, além de fazer um ótimo trabalho.
3) Finalmente, há de se ressaltar o espaço que Joaquim Ferreira dos Santos dá a Henrique Cazes, dedicando-lhe quase uma página de seu Gente Boa ao disco de Jota Canalha, personagem criado por Henrique para homenagear o malandro de botequm e já comentado aqui. Não é toda hora que um cavaquinho tem tanto espaço num jornal!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Trio Surdina
























O obscuro e inacreditável Trio Surdina, dos anos 50, você só consegue ouvir se fizer o dowload do sítio do Zeca Louro, mas vale cada minuto de espera. Imagine um trio de acordeon, violão e violino. Agora imagine que os três são Chiquinho do Acordeon, Garoto e Fafá Lemos. É de ouvir ajoelhado. Pena que a obra do trio durou poucos discos de 78 e 45 rotações.
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Fala-se muito pouco do Trio. A indústria fonográfica está mais preocupada em relançar cantoras esquecidas da bossa nova e da jovem guarda, quando tem bons discos ainda não lançados em cd.
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Posso citar alguns, inclusive mais recentes. Um disco conceitual de Alceu Valença (Cinco sentidos), um ótimo do MPB4 (Vira virou), o segundo da Clara Sandroni (o que tem Unicórnio) e tantos outros. Nunca sairam em cd. As gravadoras preferem optar pelas coletâneas caça-níqueis e deixam pérolas finíssimas para trás.
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Enquanto isso, discute-se a volta do vinil. Tenho um grande arrependimento na vida: ter vendido mais de 2.000 discos de vinil nos anos 80. Ainda conservo minha pick-up garrard. Nem por isso saio por aí comprando vinis a preços estravagantes.
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Finalmente o inferno chegou ao centro do Rio. Um calor insuportável por dentro da roupa. Acho que vou comprar um colchonete e dormir aqui na minha salinha.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Chicó

Chicó nasceu em 2001, na mesma época em que lançaram o dvd do Auto da Compadecida. Por isso mesmo, gosto de chamá-lo assim. Ontem, quase oito anos depois, pudemos assistir ao dvd. Ele ficou espantado com as cenas do demônio, mas gostou do homônimo. Principalmente quando ele ressuscita ao toque da gaitinha de João Grilo. Aí o menino abriu um sorriso lindo de criança.
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O menino está comigo essa semana. Gosto de conversar com ele. Ele comigo. Pergunta-me sobre tudo que vê, anima-se com qualquer coisa, é uma criança muito dócil.
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Hoje fomos ao zoológico. Desnecessário dizer que minhas pernas claudicam depois de tanto subir e descer atrás de peixe, onça, urso, ou qualquer animal que habite aquele lugar.
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Quando você consegue harmonizar as coisas mais importantes na sua vida, o resto parece perder espaço e passa a ser somente o resto.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Santa Morena

O disco da AcariOcamerata, preciosa orquestra de jovens comandados pelo brilhante Caio Cézar, que foi apontado pelo Globo como um dos 10 melhores discos de 2008, tem um clímax estrondoso: a Santa Morena de Jacob do Bandolim. Como é que alguém compõe aquilo? E que maldade! Penso que Jacob tenha imaginado uma morena triplo A, dessas de lamber os beiços de qualquer andarilho que se preze. E ao mesmo tempo, santa! Só Jacob para juntar os caminhos tortuosos do choro e do flamenco e atingir a perfeição.
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A melhor interpretação de Santa Morena que ouvi, vai ficar na memória, pois foi ao vivo. Era o encontro de dois acordeonistas da peste: o niteroiense Marcos Nimrichter e o espanhol Cuco Perez. Um duelo de arrebentar as paredes da Fluminense!
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Ontem aconteceu um fenômeno esquisito: a Cantareira de dois lados virou! Sinal de que algumas mudanças deverão acontecer no Mundo. De noite, vi um fantasma da minha história pregressa. Meu olho de boi está brilhando!
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Do indefectível Mário Marques, no JB de hoje: Fausto Silva tem pouso certo em Nova York, já foi três vezes ao Canadá e está no topo da lista dos que rejeitam a cultura como salvação. Ao chamar "Alêni Morrizeti" ao palco de seu inacreditável programa, citou a vida da moça, que teria sofrido abuso sexual. Uma referência indesejável da biografia da cantora para as familias das tardes de domingo. Minha esperança é que a tradutora tenha passado por cima dessa.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Uso da drotecogina alfa na sepse grave


A sepse grave anda matando muita gente. Meu tio foi uma de suas vítimas. Ela se instala lenta e silenciosamente até que explode. Os médicos têm dificuldade em identificá-la. O tempo que se leva para tratar a sepse grave é fator primordial no resultado: quanto mais precoce, maior o sucesso da terapia.
Sepse é uma síndrome caracterizada por febre, aumento das frequências cardíacas e respiratória e alteração da contagem de leucócitos no sangue. Sepse grave é quando há disfunção orgânica aguda, hipoperfusão tecidual e hipotensão.
No Brasil, a incidência de sepse e sepse grave é de 61,4 e 35,6 por 1.000 pacientes-dia, com índice de mortalidade de 34,7% e 47,3% respectivamente.
Morre-se muito de sepse grave.
Podemos evitar a sepse grave ou mesmo diminuir sua mortalidade com uma medida corajosa e até certo ponto, simples: investir na qualificação das nossas UTIs. Qualquer medida de controle é bem vinda, até o pagamento por performance, ou seja, quanto melhor a performance, maior a remuneração.
Há outras formas simples de intervenção que atuam na redução da mortalidade, tais como elevar a cabeceira da cama (custo zero), infusão precoce e agressiva de líquidos e antibióticos e controle rigoroso dos níveis de glicemia.
Recentemente, surgiu uma droga nova: a drotecogina alfa, que atua nos mecanismos de coagulação possivelmente envolvidos na gênese da sepse grave.
A drotecogina alfa tem um NNT de 15. Quer dizer que precisamos tratar 15 indivíduos com sepse grave para obter uma sobrevida com a drotecogina. E ainda há um aumento significativo de eventos hemorrágicos com o uso da droga.
Há pelo menos quatro estudos de muito boa qualidade metodológica que avaliam a função da drotecogina.
O primeiro chamado ADRESS testou a drotecogina em pacientes com sepse grave com baixo risco de morte. A conclusão é de que não há redução do risco de morte com o uso da drotecogina alfa em doentes com sepse grave e baixo risco de morte.
O segundo chamado PROWESS testou a drotecogina em indivíduos com sepse grave e alto riso de morte. O Prowess foi quem determinou o NNT de 15 para a drotecogina.
Um subgrupo analisado pelo PROWESS avaliou o uso da drotecogina alfa em pacientes cirúrgicos e evidenciou que, também para esses, a drotecogina não oferece bons resultados.
Finalmente, um grupo de autores liderados por Nadel S., estudou o uso da drotecogina alfa em crianças, sem também obter qualquer resultado satisfatório.
A sepse grave ainda é um fantasma devastador. Mas é possível termos uma política pública e suplementar de saúde capaz de fazê-la atenuar. Depende de todos nós.

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