sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Pequenas ambições

Faço uma espécie de previdência literária. Guardo livros e discos no lugar de dinheiro. E aí eles vão se amontoando pela casa, invadindo guarda-roupas, camas, mesas, além do espaço próprio deles.
Os amigos já disseram "- Vai ficar pobre e caduco". Eu desdigo.
Já fui salvo por Manoel de Barros, Nana Caymmi, Borges, e tantos outros nas horas mais difíceis. Hoje vejo meu pai se desligando completamente do Mundo para ver seus filmes antigos e me imagino exatamente assim nas minhas mais sinceras ambições.
É tocante mesmo ser salvo pela palavra dos outros. Estar assim tão só que fica parecendo que estão todos ali. Há drummonds, cecílias espalhados, fazendo companhia, brigando, contestando minhas parcas convicções.
Tenho medo de perder cada página dessa. Sempre pareceram minhas.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

O Sol da noite no Kiskina Chopp

Um litro de pinga com sukita e uma porção de moela. Um violão em mi maior, lá menor e ré menor, as três posições básicas de Carlinhos Béssa. Todas as músicas se encaixavam ali. Inês saiu dizendo que ia comprar um pavio pro lampião. Pode me esperar, Mané, que eu já volto já.
E as menininhas. As menininhas adoravam samba. E ficavam ali conosco até de manhã. Eu tinha um fusquete azul que tinha uma enorme folga na direção, tinha que começar a virar um quilômetro antes da curva. E 17 anos de uma irresponsabilidade só. E gasolina contada. Um litro pra ir à roça e outro pra voltar. Era tudo que tínhamos. Pouquíssimo dinheiro no bolso, mas como éramos felizes por estar ali.
Nada de febre amarela, nem big brother, só nós e as menininhas. Nada de seios siliconados, bundas abjetas. Bebíamos fartamente e a conversa rolava solta. Discos da Elis furavam na vitrolinha philips. E MPB4 e Milton e Paulinho.
Passávamos férias inteiras assim. Bêbados de poesia e pinga. Os meninos da Rua do Alfredo. Nada de ressacas homéricas, não existia depressão nem risco de câncer.
As noites de sábado poderiam terminar na Cabana ou no Bola Preta. Subvertemos os progressivos da Cabana e impusemos música brasileira. Só os idiotas da objetividade não gostavam. Era frevo solto.
Miracema dormia e o Sol queimava o Kiskina Chopp.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Ano Piazzolla

2007 definitivamente foi o ano Piazzolla. O bandoneon do argentino nunca esteve tão vivo na minha cabeça. Como se um argentino estivesse sendo apresentado a Tom Jobim. Dezenas de versões das quatro estações, do libertango, de soledad, em duos, quartetos, sextetos, octetos, orquestras inteiras. As poucas canções letradas, Borges fazendo coro, tudo muito intenso como em 2006, o ano Jacob.
Conheci Piazzolla ainda em vinil, uma versão maravilhosa do Adios Nonino, começando com um piano triste e depois aquele bandoneon farfalhando, agredindo. Onde anda aquele long-play? Um dos meus maiores arrependimentos foi ter vendido meus vinis. Aqueles discos merecem uma história a parte, depois eu conto.
Depois, um cd chamado Piazzollando com sotaque brasileiro, uma pequena maravilha que me apresentou años de soledad.
Uma ida à Buenos Aires a trabalho acabou fomentando ainda mais a paixão. Quero voltar lá.
Das coisas que ouvi em 2007, nada foi mais pulsante, mais intenso e mais vedadeiro do que um tango. Velho ou novo.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Festa de Natal a um


"Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho , amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta."
Bandeira

Começo minha retrospectiva 2007 pelo fim. Resolvi dispensar os convites (poucos) e os aborrecimentos (muitos) e passar o Natal só. Nem tão só. Antony Soprano, E.B. Farnum, Gregory House estiveram presentes em longas temporadas indefectíveis. Engatei a última temporada de Deadwood e quase chorei quando percebi que não tinha mais.
Engana-se quem acha que para um deprimido, a solidão é o retrato do desespero natalino. Até que não foi tão mal assim. Tirante a falta de rabanada no sorvete de creme, foi um dia solitário como outro qualquer. Ouvi música, li, dormi cedo.
Fico pensando em quanto me afastei das festas de natal nos últimos anos. Sou um homem comum, tive natais bons e ruins, mas nesses últimos anos tenho tido um certo ranço pela festa cristã. Muito marketing corporativo, muito maniqueismo, muita promessa e conversa fiada de políticos inescrupulosos que se aproveitam da época.
Uma coisa em especial me agradou muito. A árvore de natal decorada com carinho pela Luisa na casa da mãe. Aquele pequeno alumbramento que tive, tão singelo e delicado como Luisa foi quem fez a minha festa. Eu já sei que Luisa tem um talento especial, uma criatividade elegante para determinadas artes, mas sei de instinto, de percepção. E quando ela me surpreende transformando a percepção num resultado tão delicado e bonito, aí eu fico muito feliz. Foi assim que toda vez que eu pensava no meu natal solitário, procurava ver a árvore da Luisa. Na minha cabeça, aquela árvore era a felicidade do menino que eu fui.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Oração de São Francisco Lima

Rezemos ao Senhor


· Por nossos clínicos, para livrá-los da prática da medicina mecânica, por adivinhação e por experiência integrada variável, rezemos ao Sr..
· Para fazer com que os clínicos não sejam mais encurralados por representantes da indústria farmacêutica, ou por seus pacientes, falando de terapias que eles não têm condição de avaliar, rezemos ao Sr..
· Para acabar com sua dependência de autoridades defasadas, rezemos ao Sr..
· Para habilitar o médico a trabalhar com o paciente e utilizar a literatura como uma ferramenta para resolver seus problemas, rezemos ao Sr..
· Para que o clínico tenha acesso ao que é relevante e habilidade de avaliar a validade e se pode ser aplicado ou não a determinado paciente, rezemos ao Sr..
· Para que o clínico possa ter domínio do recurso mais poderoso da medicina, rezemos ao Sr..

Tumulto na Cantareira

Logo hoje que eu tinha que recarregar meus passes, teve fila quilométrica na Cantareira. Sempre me vangloriei de morar no Ingá. O Ingá, como bem definiu o velho Mel, é uma roça. Um bairrinho de pouca movimentação, entre os bairros mais movimentados de Niterói, próximo do Centro do Rio e do trabalho.
De forma que é um crime lesa pátria que um matuto como eu saia de caminhão , atravesse a ponte e estacione num daqueles buracos da Rua Visconde de Inhaúma. Prefiro a calma das Cantareiras. Ainda mais depois que inauguraram essas mais portentosas, que viajam em 12 minutos.
Ando de Cantareira há muitos anos. Escola médica, namorada do outro lado da Baia, trabalho. Sou do tempo em que se podia viajar sentado na proa e se jogava porrinha pra matar o tempo.
Nesses últimos tempos, tem sido também a minha caminhada possível, andar da Praça 15 até o trabalho, passar no sebo do Cláudio e tomar um café fresco. A fila da Cantareira roubou meu tempo de conversa. Mesmo assim passei por lá. Nada de novo. Espero que seja só um sintoma de segundo dia do ano.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

O terror dos trocadores

O terror dos trocadores de ônibus é uma nota de 50. Experimente aparecer com uma na roleta e você vai ouvir muitos impropérios, se não for convidado a se retirar de pronto. Semana passada, estava com uma no bolso e nem um trocadinho pro ônibus.
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Na Rua Nilo Peçanha, onde moro, existem duas bancas de jornal. A do Seu Hermes fica mais distante do meu prédio, mas é exatamente onde passo todo dia pra pegar o ônibus. Resolvi então, comprar o JB sem necessidade, apenas para ter o troco do ônibus. Até então, meu contato com Seu Hermes nunca passou da minha passagem pela Rua, pois nem jornal eu comprava lá.
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Ao ver a nota de cinquenta, Seu Hermes não titubeou: - Leva o jornal, depois o Sr me paga.
Retruquei que estava comprando apenas pelo troco, que nem queria o jornal. Seu Hermes puxou da carteira uma nota de cinco e me entregou. - Depois o Sr me paga.
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É assim que eu quero esse próximo ano: que seja puro como esse gesto do Velho Hermes.