sábado, 31 de julho de 2010

Só não acho justo

Atrás de meus olhos dorme
Uma lagoa tão mansa
E o céu que trago na mente
Meu vôo jamais alcança
Há no meu corpo um incêndio
Que queima sem esperança
A própria terra que piso
Vira um abismo e me come
Corre em meu sangue um veneno
Veneno que tem teu nome.

Ferreira Gullar

Optei (mal) por ficar só em Niterói neste fim de semana longo. Sem Laura pra cuidar (eu dela e ela de mim), que faço aqui?
A mesma velha rotina de só ter um único programa praticamente: ir às Casa Sendas comprar biscoitos. Eu sei, Marcos Sacramento está no Rival, mas logo hoje que estou (pra variar!) sozinho (!?), mas logo na hora do jogo do Fluminense(!?).
Resolvi que não dava pra ficar encarquilhado em casa o dia inteiro e fui ao shopping. Há muitos anos, adorava ir ao shopping, especialmente o Barra Shopping. Na época, ainda não existia compra virtual. Agora perdeu a graça, dá pra comprar tudo sem sair de casa.
Almocei uma batata no Beluga e subi até ao cinema. Como já resmunguei aqui muitas vezes, ir ao cinema em Niterói costuma ser furada. Cheguei no Cinemark Plaza e minhas opções eram: filmes infantis, Salt e Encontro Explosivo. Arrisquei Salt. Deveria ter ficado com algum infantil.
Hoje em dia com todos os recursos de TV HD, blu-ray, pra ir ao cinema tem que ser coisa muito boa. E Salt nem é dos piores. É só mais um filme de ação, é só mais um com Angelina Jolie. Dá pra ver. Dava pra ter visto em DVD ou blu-ray daqui uns dias.
Como esse A estrada, que vi ontem. Mais um filme sombrio sobre o pós fim do Mundo. Passa o tempo e a gente nem repara.
Passa o tempo e a gente nem repara. E ainda agradece.....

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Hoje não tem dança, não tem mais menina de trança...

Saudade dos chorinhos e os chorões
Que entre primas e bordões
Embriagavam de harmonia os corações
Toda noite era de festa
E se ouviam as serestas pelas ruas
Sob o clarão da Lua
Saudades do famoso Zé com Fome
Um sambista de renome
Que o meu povo não esquece

Saudades de Paulo da Portela
Esta melodia singela
É meu samba, é minha prece.

Candeia

Fui cair na asneira de sugerir um showzinho de voz e violão para um evento da minha área na empresa e quase levei porrada da comissão organizadora, aflita pela contratação de um DJ bem porreta. Sou mesmo um homem do século passado. Que fazer? - A esperança- lastimei com Renatinha - é que Léo e Luisa subvertam essa sanha funkeira que habita o coração da nossa tribo, e tragam de novo os velhos carnavais do passado.
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Cristina Buarque, meio embriagada de emoção destilada, arrisca um "entre brimas e bordões" na canção do Candeia gravada no maravilhoso Cristina Buarque e Terreiro Grande cantam Candeia. Num certo aspecto, Cristina tem uma importância maior que o irmão para a música brasileira, pois carrega a história da nossa música debaixo do braço. A memória de Candeia, Geraldo Pereira, Wilson Batista e tantos outros nomes da maior importância para nossa música devem muito à Cristina. Além disso, sua voz carregada de uma emoção antiga clama por Nelson, Cartola, Carlos Cachaça, ô saudade! Belo disco, uma roda de samba de fazer inveja aos melhores sambistas cariocas.
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Comprei hoje o Jornal do Brasil a 2. Pra quê nem sei!?! Pálido Jornal do Brasil, nem passa perto do JB dos velhos tempos. Uma crônica esquisita do Tostão (sempre achei o Tostão esquisito, o Mário é que gostava muito dele), a lembrança do aniversário de morte de Lampião, dois dedos sobre a contratação do Washington pelo Fluminense e mais nada. Fiz minha social: deixei na barca prum outro sujeito ler. Que tenha sorte melhor!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Arraial do Cabo

Passei alguns minutos hoje em Arraial. Não é bem a casinha de praia do Sidney Miller, mas é um belo cantinho, onde pode se estender uma rede e sentir-se parte da Prainha. Tenho ótimas lembranças daquela rede.
Cheguei lá com o tempo contado, botei a versão do Michel Petruciani para o Besame Mucho e viajei um pouco no tempo deitado na rede. Ventava um vento frio e o dia estava muito bonito ensolarado.

Quase que me deixo levar pelo tempo e ficar por ali até que o celular me acordou.

Viajei hoje com o celular ligado no viva voz e voltei do mesmo jeito. Não há como me desgarrar das demandas. Tive que voltar a mim em menos de meia hora.

De qualquer jeito, foi bom. O canto está lá. Uma hora eu volto com calma.

domingo, 25 de julho de 2010

Amor e guavira

na sala numa fruteira
a natureza está morta
laranjas, maçãs e pêras
bananas, figos de cera
decoram a noite torta
sob a janela do quarto
a cama dorme vazia
encaro nosso retrato
sorrindo sobre o criado
no meio da noite fria
está pingando o chuveiro
que banho mais apressado
molhado caíste fora
no espelho minh'alma chora
lá fora está tão gelado
sozinha nesta cozinha
em pé eu tomo um café
na pia a louça suja
me lembra da roupa suja
no tanque que a vida é

Itamar Assumpção


Vim de Teresópolis ouvindo Tetê Espíndola. Em 1982, assisti no Teatro Leopoldo Fróes aqui em Niterói, pelo Projeto Pixinguinha, um show com Tetê, Almir Sater e Zé Gomes. Acho que comecei a gostar dela ali. Na época, ela já tinha lançado disco pela Phonogram, inclusive o que tem Vida cigana, mas esse eu descobri depois. Primeiro veio o Pássaros na garganta, da extinta gravadora Som da gente. Esse disco foi um dos que fritou na vitrolinha nos anos 80. Dele, tirei para a minha seleção, Amor e Guavira, Cunhataiporã, Sertaneja, Longos Prazeres de amor e Sertão. Poderia ter selecionado o disco todo. Era muito doce ouvir aquela voz e craviola de Tetê. Nunca saiu em cd. Algumas faixas podem ser encontradas no cd A Arte de Tetê Espíndola.

A música que abre minha seleção saiu alguns anos depois, em 1995, num disco chamado Canção do amor, em que Tetê parecia procurar retomar a sonoridade do Pássaros na garganta. A canção se chama Saudade e tem a tristeza doída das grandes separações. É de chorar um pouco toda vez que se ouve Tetê cantar "em seus braços de novo quero me deitar/ nossa cama suada, outra vez, arrumar...".

Dois duetos com Arrigo Barnabé em Judiaria e Pô, amar é importante (do grande Hermelino Neder) não podiam faltar no disco. E Noite torta, o clássico de Itamar Assumpção, da trilogia com as Orquideas, voltou várias vezes na viagem. Ouvir Tetê me trás de volta um tempo em que viver dava gosto e tudo era mais simples.
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Já não chegam as vergonhas que o Barichello nos fez passar!? Agora até Felipe Massa tem que ceder o lugar!? Assim fica difícil voltar a ver corridas de fórmula 1!Foi assim que acordei esse domigo. Com Massa abrindo a porta para Alonso.

sábado, 24 de julho de 2010

Muitas noites numa noite

"Daí porque na Baixinha
há duas noites metidas uma na outra: a noite
sub-urbana (sem água
encanada) que se dissipa com o Sol.
e a noite sub-humana
da lama
que fica
ao longo do dia
estendida
como graxa
por quilômetros de mangue."

Ferreira Gullar

Reflito quase sempre sobre o que fui e o que sou hoje. Há muitas noites numa noite. você pode medir a quantidade de vidas pela quantidade de noites que há numa noite.
Minha noite mais remota num maio miracemense em 1979 em que, pela primeira vez, virei a noite alumbrado com uma conversa. Era uma moça de longe, nem era bonita, nem era sexo, nem era bebida: era só conversa pura. A moça adorava conversar. E eu também. Quando fomos dar por conta, amanhecia. Foi lindo.
O que foi feito daquelas mulheres? Onde estão as boas mulheres que gostam de varar a noite com boas conversas? Meninos, eu vi!
Hoje as moças conversam muito pouco. São plenas de vazios. Ficaram previsíveis. As noites nem mais são noites completas. Nem entram dentro das noites.
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Essa noite aqui no Alpina em que remoí muitas noites sozinho, já veio outras vezes. Noite de hotel. Reviro de um lado pro outro em pequenas angústias. Para onde foi tudo aquilo que fui?
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Laura,
Cheguei a Niterói e me dei conta da sua ausência. Que falta me faz o seu silêncio!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Ruim para a seleção, bom para Muricy, ótimo para o Fluminense

Sinceramente, não conheço nada do trabalho do técnico Mano Menezes, e não dá pra torcer mais por quem nem se conhece. O exemplo de Dunga como técnico nos ensinou dessa forma.
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Passei a tarde ouvindo o repórter Vitorino Chermon acompanhar ao vivo a virada de mesa da contratação de Muricy. Valeu! Espero que o ímpeto do treinador não se modifique com a frustração.
Muricy ainda terá tempo de sobra para assumir a seleção antes da copa.

Bom para a seleção, ruim para Muricy, péssimo para o Fluminense

E agora, Chicó???
Eu estava no meio de uma reunião exaustiva aqui em Teresópolis, quando um dos participantes que estava com um olho no notebook e outro na reunião, anunciou: Muricy é o novo técnico da seleção brasileira.
Tive ganas de interromper a reunião e gritar um Como assim ?????, ou sair dali furibundo com a notícia, nas o profissionalismo e o sustento dos meus filhos não me deixaram fazê-lo.
Fiquei quieto mastigando a decisão.
E agora, Chicó? Chicó, naturalmente, é o primeiro tricolor que penso quando penso nos tricolores.
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Pois bem, agora mais calmo, vou dar minha modesta opinião que não vai mudar nada, serve apenas para perturbar meus três ou quatro leitores.
Que Muricy sempre foi uma ótima opção para a seleção brasileira, ninguém duvida. Agora, faltando quatro anos para a Copa, é muito difícil que um treinador com suas peculiaridades, se sustente até la´.
Muricy é técnico de trabalhar cada dia como um dia novo. Ele vai montando o time aos poucos até chegar no modelo ideal. Estava sendo assim com o Fluminense.
A Seleção Brasileira necessita do resultado imediato, são muitos cobrando de um só!
O Fluminense pela primeira vez em muitos anos, tirando a meteórica passagem de Parreira ano passado, se ajustava a um treinador de ponta como Muricy. E ia indo muito bem.
No frigir dos ovos, acho que vai ser ruim para os dois. Pior, é claro, para o Fluminense.
Que opções teremos agora, Chicó?
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Não posso crer que a contratação de Muricy tenha relação com a relação azeda que o Presidente Horcades mantém com Ricardo Teixeira. Mas em futebol, nada é impossível. Isso deve servir como mais um alerta para Muricy.
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Acompanhei Fluminense e Cruzeiro vendo Botafogo e Palmeiras, depois de descobrir que o gerente do Hotel Alpina é botafoguense e o hotel só tem direito à transmissão de um jogo. Mesmo assim, vibrei quando a bolinha sinalizou o gol de cabeça de Leandro Eusébio. Pelo que pude depreender dos comentários, foi Muricy e seu esquema tático que venceram o jogo. Assim como o jogo contra o Santos.
E agora, Chicó????

quarta-feira, 21 de julho de 2010

70%

Sou destituído de fé religiosa, mas confio.
Eu não conheço o engenheiro, mas entro neste prédio.
Não conheço o piloto e embarco no avião.
Não sei quem plantou, colheu e preparou, mas bebo o vinho e como o pão.

Abel Silva

Hoje escrevi pruma amiga, correspondente eventual, que na minha faixa etária, beirando 50, 70% já está bom. Um outro velho amigo vive me dizendo que o bom é inimigo do ótimo. É por aí. Setenta por cento quer dizer que boa parte deu certo.

Eu amo as miragens, admiro a paixão ensandecida, recorro sempre ao amor fugidio, mas sei que o amadurecimento deve trazer a calma. Se quiser viver mais uns anos, é preciso ser frio.

Quero estar com meus filhos o tempo todo, tenho espectativas de longas viagens e períodos ininterruptos de convivência, mas sei das dificuldades de cada um. É preciso contentar com uns poucos dias de trabalho (meu) e férias (deles) para nos juntarmos.

Cultivo a idéia de ter uma casa em Miracema, um santuário para meus livros e discos, um lugar pros últimos descansos. Mas sei que ainda vai ter muita água antes da casa e por enquanto tenho que me contentar é com minha bagunça mesmo.

Setenta por cento de divertimento quando é tempo de divertir já está muito bem. A gente se acostuma. E é bom estabelecer um percentual qualquer pra não deixar cair pra menos ainda.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Em família


Na sexta de noite em Miracema pensei: estão os dois daqui de férias e Laura lá ainda em aula. É hora de juntá-los! Depois que Laura veio pra cá, estivemos os quatro num raro almoço em Miracema. Sinto muita falta de tê-los juntos de vez em quando.
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Juntar meus filhos é uma operação delicada. Primeiro, os três estão em idades distintas de percepções, hormônios, espectativas: 8, 14 e 17. Segundo, é como montar uma operação de guerra, tentando encaixar programas que agrade a todos e os convença de sair da toca. Chicó é o único que a meninice facilita. Depois, tive que contar com a disponibilidade de S., pois trabalho normalmente nesses dias.
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Então decidi que primeiro devia falar com Luisa. Era o convencimento mais difícil. Luisa habituou-se à sua turma em Miracema, é difícil tirá-la de lá. Usei meu olhar 38 de cachorro pidão e Luisa cedeu. Depois vieram Chicó, S. e aqui estamos.
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Ontem de noite fomos ver o ótimo Toy Story 3, já é clichê dizer que esse filme é diversão garantida para qualquer idade. E pizza, pipoca, shopping, coisas que não arrisco nunca quando não estamos juntos. Voltamos a tempo de ver o Fluminense derrotar o Santos na Vila Belmiro, eu e Chicó extasiados.
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Nem tudo deu certo. Teve um motorista de táxi que se recusou a levar a família inteira. Todas as sessões de Schrek estavam lotadas. Mas nada que estragasse o fato de, pelo menos por uns dias, estarmos todos juntos e darmos boas gargalhadas de tudo isso.

sábado, 17 de julho de 2010

Saudade de amar

"Saudade daquele romance
Que a gente viveu
Saudade do instante
Em que eu te encontrei
Saudade do imenso desejo
Que a gente perdeu
Eu tenho é muita saudade
Do tempo em que amei
Saudade da força que tinham
Meus olhos nos teus
Eu vivo a mercê das lembranças
Depois desse adeus
A gente não deve
Sofrer por amor tanto assim
Porem todo amor mesmo breve
Eu guardo dentro de mim
Saudade de cada momento
Que eu lembro de có
Só sabe de amores
Saudade quem já ficou só
Saudade eu tenho saudade
Mas não de contigo voltar
Eu vivo sentindo saudade
De amar "

Dori Caymmi/Paulo César Pinheiro

Remexo nas minhas gravações empoeiradas e me deparo com um show de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro na TV Câmara (ainda existe?). Devo ter sido alertado pela Marila desse show pois raramente vejo TV que não sejam seriados e futebol. O fato é que gravei e depois não vi. Hoje remexendo a poeira, concluí que era a hora dele. Lá pelas tantas, Dori arremata a Saudade de amar com o mesmo sentimento que canta no novo disco. E aí é hora de voltar o tempo e tocar com delicadeza nas coisas boas que passaram. E, sim, sentir uma saudade acalentadora.
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Por falar em seriados e saudade, comecei a ver no canal Warner semana passada, Men of certan age, que narra o cotidiano de três amigos em crise de meia idade. Ótimo! Não há nada de clichê ali. São as dúvidas e as angústias que aparecem quando nos reconhecemos destrutíveis. O ruim é ter que ver o canal. São cinco minutos de seriado e outros cinco de propaganda. As propagandas se restringem praticamente aos programas do próprio canal. Um horror! Melhor aguardar o DVD.
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Vi com S. o ótimo Simplesmente complicado. Impressionante como o tempo faz bem a certas atrizes como Meryl Streep. Não sei se era a atriz ou eram seus filmes antigos que eu achava meio chatos, hoje só tenho elogios ao seu trabalho.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Em casa

Matei a sexta no trabalho (o único jeito de compensar férias atrasadas é matando a sexta de vez em quando), peguei a estrada, estou em casa. Diô me aguardava com um purê de abóbora com carne seca, polentas e um feijão mulatinho que não se come em nenhum lugar a não ser aqui.

O jogo de ontem terminou tarde e acabou atrapalhando meu sono. Lembrou muito aquele joguinho da Holanda. O Grêmio Prudente joga um futebol moderno: violento e no esquema 11-0-0. Na única vez que o técnico abriu mão, o time fez um gol, que acabou coroando a atuação apática do Fluminense.

Queria chegar mais cedo aqui por dois motivos: ficar só e dormir um pouco. A solidão aqui no silêncio do meu quarto em Miracema é como se fosse num pequeno santuário. Botei um filme sonífero na TV, mas o sono não veio.

Vim ouvindo Fátima Guedes. Uma seleção que fiz, sem privilegiar a intérprete ou a compositora, queria as duas. E as duas vieram em canções delicadas como Tanto que aprendi de amor ou Desacostumei de carinho e canções de Gudin, Guinga, Hermínio, todas muito bem costuradas pela voz macia de Fátima. A do Hermínio, que não me lembro o nome, voltei umas quatro vezes. É uma espécie de Atrás da Porta moderna. Ao mesmo tempo, remete ao Bom dia da Dalva. Fátima Guedes anda sumida. Já faz um bom tempo que fui vê-la com Letícia no Rival. Precisa reaparecer porque vive fazendo bem ao coração dos que a ouvem.

Toda vez que venho aqui, penso no caminho da volta. É talvez, o único projeto de vida que me alenta. Meu lugar é aqui.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Passageiro

Dos discos que estão no iPod, o que tem se mantido mais regular é o de Rodrigo Maranhão, Passageiro. Canções fáceis de assobiar, bem construídas, sambas, valsas, xotes e um belo quase fado. Rodrigo Maranhão vai se firmando, junto com Rômulo Fróes e Edu Krieger, como um dos bons compositores da nova safra.
Também tenho ouvido Moska, Pouco e Muito. Boas composições próprias, no entanto pouco ousadas, parecem não sair do seu normal. Preferia que ele tivesse gravado o projeto Moska no samba.
E ainda uma compilação com ótimas composições de Jacinto Silva. Xangai irresistível em Pisa maneiro.
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A Copa foi me adoecendo até o Brasil perder. Comecei sem nenhuma vontade de ver e acabei como todos, envolvido por aquele futebol chato da Holanda e da Espanha. O fim da copa nos trás de volta o campeonato brasileiro e o Fluminense. Vem em boa hora.
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Esqueci de comentar que o domingo terminou com sessão de cinema em casa. Eu e Laura assistimos Coração Louco, filme que deu o Oscar de melhor ator à Jeff Bridges. Bom filme, mas achei que faltou um final mais feliz. É filmão pra happy end!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O beco

Que importa a paisagem,
a Glória, a baía,
a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.

Manuel Bandeira.

Todo dia levantar e agradecer: não tenho sido mais do que um sobrevivente nos últimos anos. Às vezes dá vontade de fazer como Drummond e pedir perdão por ser o sobrevivente.

Há sim, é claro, Laura, Luisa e Chicó, que não me deixam desistir assim tão fácil. Laura e nossas solidões compartilhadas. Nossa mútua compreensão. Nossa desorganização caseira.

E há o trabalho. A crença de que se colhe e planta e se renova a cada dia. Mesmo nos dias em que se tem que ir a Nova Iguaçu e ficar três horas em pé palestrando. Há um grupo fechado comigo que não deixa a peteca cair. Não é um costurado político espúrio, mas uma troca de passes em que cada um assume um papel no jogo. Crescemos juntos, quando ganha um, ganham todos.

E há uns poucos amigos que estão sempre me esperando nas horas previstas, sempre dispostos a uma boa conversa. A vida foi passando e eles foram se reduzindo a muito poucos. Mas os poucos são de tamanha importância que é melhor que sejam só eles.

E há livros e discos cada vez mais espalhados pela casa, obstruindo passagens, atropelando espaços outrora vazios e calmos. A função deles é perturbar. Enquanto existirem leitura e canção pra perturbar, haverá uma mínima esperança.

E há finalmente os projetos. Os projetos se multiplicam a medida que o tempo passa e os transforma em grandes frustrações. Há uma chuva fininha caindo na Baía. De que me serve?

terça-feira, 13 de julho de 2010

Pra onde vão as super-sônicas?


De Paulo Moura, falecido ontem, o que me deu mais prazer em ouvir foi o Samba da Latada, que gravou em dueto com Josildo Sá. Paulo Moura desmistifica a santíssima trindade do forró: sanfona, zabumba e triângulo, para introduzir um clarinete macio e gostoso de ouvir e dançar. Também me lembro com saudade da participação de Paulo no disco que Ney Matogrosso gravou com Arthur Moreira Lima. E do disco Paulo Moura e Ocidadocê cantam Dorival Caymmi, que tem a gravação de Sargaço Mar mais bonita que já ouvi. E também da regravação do repertório dos oito batutas em 98. Tenho outras recordações, mas essas são as que mais me encantaram.
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Tarefas ainda no aguardo de dias melhores:
  • Ler com atenção o novo código de ética médica, na área que eu milito é fundamental.
  • Começar a leitura de 2666, Roberto Bolaño, o livro é um calhamaço, eu já tinha determinado que só leria livros de até 400 páginas, mas Bolaño é outra história.
  • Voltar a Buenos Aires, dessa vez só a passeio e percorrer as ruas do centro atrás dos melhores discos de tangos e músicas latinas.
  • Visitar o Seu Amado, meu padrinho de três casamentos, cada vez mais ermitão do Morro da CEAB em Miracema.
  • Examinar minhas milhas no site da TAM com a Renatinha.
  • Viver cada dia como se fosse o penúltimo.
Obs: os dias passam iguais, implacáveis e os projetos vão ficando só projetos e só transformam em ação porque/quando o tempo permite.
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Eu devo ter sido um dos milhares de leitores que ajudaram a afundar o Jornal do Brasil. Leitor assíduo dos anos 80 e 90, ultimamente só comprava às sextas para ler o Tárik e a Revista de Programa. O Globo levou a maior parte dos bons cronistas do JB, mas deixou o Tárik lá. Não há informação mais correta e bem encaminhada em música brasileira do que as super-sônicas do Tárik.

domingo, 11 de julho de 2010

Strekelenburg


Amanheceu uma chuva fina em Niterói, fui levar Laura no colégio. Domingo é o único dia em que posso fazê-lo. O fim de semana tem sido como têm sido os fins de semana em Niterói nos últimos anos: locadora, filmes, séries enlatadas, carboidratos, sedentarismo.
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Voltei a assistir House e Lie to me. Desta vez, Gregory House passa um episódio duplo (e chato) numa clínica psiquiátrica. Longo demais. Parece uma caricata tentativa de refilmagem de Um estranho no ninho. E Hugh Laurie parece pouco a vontade nesse House arrependido.
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E a Espanha ganhou a copa. Vi com uma farta dose de coragem o jogo inteiro. Burocrático, violento, cheio de nomes esquisitos, do tipo Strekelenburg, Iniesta, Vander Vários, não dá pra torcer. No meio do primeiro tempo, um miracemense pergunta se está se instalando uma nova ordem no futebol mundial e Casagrande compra a pilha: Está sim! Como assim? Nova ordem com esse joguinho fechado!?!? O futebol acabou?
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Vi igualmente com farta dose de coragem, o filme Anticristo, Lars Von Trien. Já tinha começado duas vezes e não passava dos primeiros minutos. O que é aquilo? A que veio? É um filme doente, sem pé nem cabeça. Charlotte Gainsbourg consegue salvar o filme do abismo.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Apaga o fogo, Mané


Há cem anos, nascia João Rubinato, o Adoniran Barbosa. Há trinta anos que, toda vez que sou instado a pegar do violão, o único repertório que me garante são as canções de Adoniran e as três posições mágicas de Carlinhos Bessa. Cresci ouvindo Guenta a mão, João, Acende o candieiro, Bom dia, tristeza, Apaga o fogo, Mané, Abrigo de vagabundos, são tantas!

Comecei a gostar do Adoniran no Transversal do Tempo, o disco semi-ao vivo de Elis, que terminava o lado A com uma versão triste da Saudosa maloca. Depois teve um disco comemorativo na EMI com participação de Gonzaguinha, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Elis, todos já mortos, que fritou na agulha de tão ouvido. E daí nunca mais deixei de gostar. Consegui os discos antigos, era fácil decorar e montei meu repertório.
Sábado em Palma repassei ele todo com a turma. Ninguém aguenta mais ouvir, eu canto assim mesmo!

Suas letras simples, seus sambas fáceis, são na verdade, uma profunda reflexão do prazer de viver, da dor de amar e da tristeza de partir.

Noches de boda

"Que el maquillaje no apague tu risa,
que el equipaje no lastre tus alas,
que el calendario no venga con prisas,
que el diccionario detenga las balas,
Que las persianas corrijan la aurora,
que gane el quiero la guerra del puedo,
que los que esperan no cuenten las horas,
que los que matan se mueran de miedo.
Que el fin del mundo te pille bailando,
que el escenario me tiña las canas,
que nunca sepas ni cómo, ni cuándo,
ni ciento volando, ni ayer ni mañana
Que el corazón no se pase de moda,
que los otoños te doren la piel,
que cada noche sea noche de bodas,
que no se ponga la luna de miel.
Que todas las noches sean noches de boda,
que todas las lunas sean lunas de miel.
Que las verdades no tengan complejos,
que las mentiras parezcan mentira,
que no te den la razón los espejos,
que te aproveche mirar lo que miras.
Que no se ocupe de tí el desamparo,
que cada cena sea tu última cena,
que ser valiente no salga tan caro,
que ser cobarde no valga la pena.
Que no te compren por menos de nada,
que no te vendan amor sin espinas,
que no te duerman con cuentos de hadas,
que no te cierren el bar de la esquina.
Que el corazón no se pase de moda,
que los otoños te doren la piel,
que cada noche sea noche de bodas,
que no se ponga la luna de miel.
Que todas las noches sean noches de boda,
que todas las lunas sean lunas de miel."

Joaquin Sabina

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Caim e o futebol

"Há uns três dias, não mais tarde, tinha ele dito à abraão, pai do rapazito que carrega às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrfício a mim, sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo d'água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim."
José Saramago, Caim.

Caim é muito bom de ler. Saramago não poderia ter deixado um último recado tão sarcástico e saboroso quanto esse.
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Depois que eu li (hoje de novo procurando atualizações), no blog da Kellen, um pedaço da letra da canção O futebol, do Chico, ela não me saiu mais da cabeça.
Conheci no disco do Chico. Ignorei. Depois teve um show do Quarteto em Cy, no falecido Teatro João Theotônio, de lançamento do explêndido Chico em Cy, que as meninas estraçalharam na interpretação da música. Parecia nitidamente que uma passava a bola pra outra num arranjo vocal apaixonado e muito bem costurado.
São aquelas interpretações que transformam a canção. As canções do Chico têm muito essa característica. Pálidas com ele (só algumas!), enriquecem de saltar os olhos em outras vozes. Assim também foram A voz do dono e o dono da voz com Cida Moreira, Todo o sentimento, com Ney Matogrosso e João Carlos Assis Brasil, Palavra de mulher com Elba Ramalho e muitas mais.
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Recebo a importante nota na crônica de Arthur Xexéo que a cantora Claúdia Leite passou a se chamar Claudya Leytte e está em turnê com o show Rhytmos. Faz sentido.
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Hoje foi mais um dia daqueles. Pesado desde o início.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

E bate louco

Meu segundo time nessa copa sempre foi a Espanha, mesmo que eu não tivesse manifestado isso aos amigos mais chegados, não soubesse o nome de nenhum dos seus jogadores e não tivesse visto um jogo seu inteiro. Torcia timidamente no meu íntimo sem que eu mesmo soubesse. Por isso, comemorei baixinho e sem olas intermináveis a vitória sobre a Alemanha, que só chegou ao meu conhecimento através dos jornais. Esse deve ser o segredo do futebol feio. Você pode vibrar sem ver. Mas no domingo, é certo que eu veja e estarei torcendo discretamente para a Espanha.
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Desculpe, mas fica difícil hoje em dia gostar do Oswaldo Montenegro. O sujeito lança um disco a cada semana e já não sei qual é o último. Mas ouvi, conforme lhe havia prometido, esse suposto último disco, Canções de amor. Uma xaropada de dar dó! Contaminou meu shuffle, tive que lavar com sal grosso para não melar. Já fui menino, gostava de Léo e Bia, eu em Miracema, você em Brasília, nada mais Léo ou Bia do que nós dois desesperados ao telefone. Os primeiros discos do Oswaldo da Warner, arranjados pelo Liminha, aquela coisa toda, confesso, me encantaram bastante. Cheguei a ir ao velho Teatro Casa Grande assistir a um bom show do Oswaldo. Mas agora eu acho que ele se perdeu. E eu nem fiquei mais exigente, respeito os gostos do menino que fui. Já vi novela, já ouvi muito Roberto, conheci breguices zis, mas Oswaldo, lamento, não dá mais. Se ainda tivesse a Paloma!!!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Do presente que foi prometido pro ano seguinte

Que dia! Voltar à ativa depois de uns míseros dias de folga exige que o fôlego esteja redobrado, a paciência num limiar aceitável, a paz esteja de ronda. Não foi bem assim o meu dia. Confuso às vezes, complicado em outras, sobrevivi. O saldo final é razoável, mas estou esgotado como se tivesse trabalhado uma semana inteira. Como se já fosse sexta. E ainda é segunda! Espero que o resto vá na urina.
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Com o humor comprometido e o cansaço batendo a porta, pouco ouvi do meu shuffle., mas já me deu dois resmungos: um disco comemorando 100 anos de Adoniran e vai Zélia Duncan se meter a cantar Tiro ao álvaro, canção esgotada por Elis Regina, sem permissão para que ninguém ouse interpretá-la novamente. E o novo disco de Antônio Vilerroy (José) tem bons momentos, mas aí ele se mete a regravar Felicidade, do Lupicínio. Como assim? Procure na sua estante a bela versão do Quitandinha Serenades ou mesmo a do Caetano, mas quem vai buscar essa inadequação se quiser ouvir Felicidade?
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Do pouco que ouvi, me pareceram interessantes os discos de duas novas cantoras: Andréia Dias (vol. 2) e Tatiana Parra (Inteira). Tatiana faz uma boa versão de Testamento, de Milton e Nelson Ângelo. O melhor mesmo foi reouvir essa canção tão cara pra mim. Ainda soa fresca no meu ouvido.

domingo, 4 de julho de 2010

Ponta de areia

Imagino que a queda de Dunga tenha gerado um efeito cascata e causado também a de Galvão Bueno. Depois de um cala a boca universal, o locutor não foi ouvido narrando os jogos da Argentina e da Espanha. Melhor para nós todos!
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A cidadezinha de Palma, é por assim dizer, uma espécie de porção mineira de Miracema. Ontem de noite fomos pra lá. Não ia a Palma, a não ser de passagem, há bem uns vinte e poucos anos. Continua simpática. E ganhou um restaurante árabe (Califa) com uma comidinha bem honesta. Ficamos lá cantando e comendo até umas onze. Como sempre, a boa conversa, a camaradagem entre amigos e aquele ambiente mineiro de voltar pra casa renovado.
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Ótimo que o fim de semana prolongado não tenha sido só aquela lamentável derrota brasileira. Teve também o simpático filme de Rebecca Miller, A vida íntima de Pipa Lee, com Robin Wright Penn no melhor papel da sua carreira. Uma historinha boa de se contar e se ver, uma mulher se redescobrindo depois de madura. O cartaz do DVD, além de distorcer o nome do filme, que passa a se chamar Vidas cruzadas, ainda oferece Keanu Reeves e Mônica Belucci, em papéis menores, estampados na capa como astros principais. Fuja do cartaz, mas veja o filme!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Até que novas canções me convençam

Não sei perder. Será que algum brasileiro sabe perder a copa? Lá que alertamos, alertamos! Fazemos duras críticas ao comando, à falta de criatividade generalizada, à posição excessivamente defensiva, nos tornamos técnicos, juízes, gandulas, mas sempre acreditamos. Ninguém duvida que a pior seleção brasileira pode ganhar de duzentas holandas. E aí um gol por acaso e um de escanteio, feitos por uma seleção que em nenhum momento deixou de ser medíocre, nos tiram da copa. Faltou tudo nessa seleção brasileira, mas ainda assim não acreditamos que perdemos. O meu primeiro jogo de copa do mundo com Chicó acabou nesse vexame, que até agora, relutamos em acreditar. Faltaram cinco minutos, faltou começar de novo, faltou vergonha, faltou um resto de esperança. Essa não. Até a falta mal cobrada de Daniel Alves, até o chute para o nada do Kaká, esperamos. Não veio.
O que dizer pro menino? Sofremos juntos, quietos, tentamos disfarçar discutindo pra quem vamos torcer agora. Como assim? Fará sentido ver o resto? Que lógica há em torcer para o Uruguai?
As pessoas bêbadas vão descendo a Rua das Flores com o coração apertado como o nosso. Alguns arriscam um foguete, outros sopram suas cornetas contidamente. A partir de amanhã, a vida continua. Mas hoje todos morremos um pouco.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Rotinas miracemenses

O roteiro matinal de um dia útil em Miracema começa com uma ida ao Celso Barbeiro. Cabelo e barba. Entre um e outro, ouço a rádio Muriaé FM. A rádio Muriaé FM me trás de volta É isso aí, com Ana Carolina e Seu Jorge, a versão horrorosa para aquela música do Damien Rice que tocou no filme Closer. Tenho vontade de abandonar o local num misto de fúria e descontentamento, mas a gilete já desliza sobre meu pescoço e é melhor continuar. Enquanto isso, Ana Carolina berra Eu não sei paraaaaaaaar de choraaaaaar! e penso que talvez o fim do mundo esteja próximo mesmo.
Depois, dou um pulo na farmácia do Tadeu pra assuntar um pouco, pagar a conta, e pegar alguns neosoros pra minha rinite, um velho vício. O Tadeu é sempre uma boa conversa. Daí passo na Caixa pra pagar as contas locais e vou à Casa do Biscoito estocar carboidratos, pois ontem de noite passei fome. Finalmente dou uma passada na lojinha de Tortas (mais estoque), passo no meu pai pra dizer que cheguei bem e volto pra casa.
Diô me espera com suas polentas, um feijãozinho supimpa e bananas cozidas de sobremesa. Quer melhor?