quarta-feira, 30 de abril de 2014

Refúgio


"Ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no friends, ain't got no schooling
Ain't got no work, ain't got no job
Ain't got no money, no place to stay"



Na minha cidade, longe de todos os ruídos possíveis, tento recuperar o equilíbrio. Acabo de ver O lobo de Wall Street. Ensinou-me muito a vida de Jordan Belford. Ou reensinou-me. Coisas do tipo " a gente tem que saber a hora de parar." Dessa lição, por mais que aprenda, nunca soube a medida certa. Sempre passo muito da hora. Não que tenha me abismado tanto quanto Jordan, mas no fundo, é a mesma roda viva.
Vim ontem no ônibus executivo da 1001. Seis horas deitado ouvindo música boa.Não posso descrever o quanto é bom e ruim viajar de ônibus. Ao mesmo tempo que dá uma sensação de imobilizado, por vezes asfixiado, oferece também uma cardápio interminável de boas canções para os ouvidos. 
De todo jeito, só me senti inteiramente bem quando cheguei aqui. Fui andando da rodoviária até a minha casa, passei no banco, na farmácia, na padaria, falei com um e com outro, estou vivo.
E esse clima frio de final de abril, início de maio. Frio e toda a solidão do Mundo nas esquinas da minha cidade. Já foi muito ruim, hoje é um alento. Uma sensação de ter deixado tudo pra trás e de que, por um tempo mínimo, vai ser só solidão e frio.
Hoje fiquei aqui vasculhando a biblioteca, paguei contas, comprei coisas, almocei bife e polenta, deitei e vi o filme. Fiz coisas ainda mais inúteis do que esse texto.
Preciso muito delas. Das coisas inúteis.
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É possível que Violeta Parra tenha ouvido A serra do Rola Moça antes de compor seu Casamiento de negros. Uma parece ser sequência da outra e dariam um fantástico pout-porri, se Emilio Santiago ainda fosse vivo.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O nosso amor, o nosso bem, nosso terém, nosso perdão




Hoje eu queria beber tudo que mereço. Coisa que a insônia e os remédios não permitem. Queria ser o menino de novo. Que escondia um litro de pinga debaixo do balção da Kiskina.
Aqui nesse alto de serra, nesse indefectível feriado de quase uma semana, passo o tempo conversando com Lucas e tentando diminuir a diferença de pouco mais de meio século entre nós. Ele também parece estar com saudade dos irmãos. Que falta fazem os irmãos! E que erro crasso estar longe deles nesse vasto tempo de nadas,
Longe das canções de afeto, que ficaram no carro, tento me contentar com os shows oferecidos pela casa: num dia bossa nova, para a qual pareço não ter mais a menor paciência, noutro, velhos sucessos dos anos 80, noutro mpb, isso mesmo de sempre.
Esse Hotel Bucsky é bem razoável. Comida honesta, quarto limpinho, cama adequada.Ainda não está tão frio, talvez falte um ar condicionado no quarto.

De volta, comecei ouvindo Roberto Carlos. Devo a Roberto alguns dos momentos mais delicados com minha família. Todo domingo meu pai chegava da missa e ligava a eletrola bem alto, quase sempre num disco novo do Roberto. Lembro especialmente daquele que começa com A montanha. Pode ser de uma hipocrisia tamanha, mas A montanha sempre me comove exasperadamente. Apaixonei-me pelos discos do final dos anos 70, início dos anos 80. Minha seleção tem Amigos, amigos, Quando as crianças saírem de férias, Rotina, Resumo, canções talvez menos conhecidas, mas que tocavam muito lá em casa na velha telefunken do meu pai.
Depois sintonizei em Caetano. Começando por Terra, com aquela cítara de Sérgio Dias percorrendo a longa canção, e que também já produziu alguma lágrima. E Help, Mãe, Peter Gast, José, tudo de bom que Cetano escreveu e cantou.
No terço final, ouvimos Milton, começando pela versão de San Vicente com o piano perturbado de Herbie Hancock, seguida de Oração com o Belmondo, Bom dia, de Gil e Nana com Gil e Milton, e por aí foi. Quem sabe isso quer dizer amor?
Pois foram essas as canções que botei pra você, enquanto Manu dormia e voltávamos de Friburgo. mas você pouco reparou na delicadeza de cada uma.