terça-feira, 30 de novembro de 2010

É Iracema da América

Eu sei que eu já disse, mas não custa lembrar. Determinadas canções de Chico Buarque não soam tão bonitas quanto deveriam, quando é o próprio Chico que canta. Assim, é recomendável ouvir os songbooks para gostar mais de Suburbano coração (Cyda Moreira), Tanto amar (Ney Matogrosso), Você vai me seguir (Elba Ramalho), Mar e Lua (Simone) e até Oswaldo Montenegro, que me ensinou a gostar mais de Ilmo Sr Cyro Monteiro ou Receita para virar casaca de neném. Hoje na Barca, vim ouvindo repetidas vezes a versão de Clara Sandroni e Paulo Lepetit para Iracema voou para a América. Com Clara, o lirismo da música se torna mais perceptível, a emoção da história simples comove com mais intensidade.
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Estou vendo a quarta temporada de Big Love (HBO) em concomitância com a primeira de As cariocas (Globo). Big Love abandonou a ousadia de mostrar a nudez de um casamento triplicado para se afundar em discussões moralistas e sem sal nenhum. As cariocas também carece imensamente de falta de sal, as cenas mais quentes abusam do global politicamente correto. Fernando Porto, de onde estiver vendo, não deve estar achando nada bom. Daniel Filho conseguiu resultado melhor com Nelson Rodrigues em A vida como ela é. A melhor participação em As Cariocas até agora foi a de Cíntia Rosa em A Internauta da Mangueira. A morena é um pitéu e mandou ver bonito na interpretação.


domingo, 21 de novembro de 2010

Você está ótimo!

Antônio Zambujo e Tereza Salgueiro dão pequenas entrevistas ao Globo de hoje e falam de suas vindas ao Brasil. O jornal apresenta os novos intérpretes da canção portuguesa, fala da música da Madredeus e de Dulce Pontes, toca na internacionalização do fado, mas esquece de mencionar os grandes fadistas da atualidade. Pelo menos Ana Moura é indesculpavelmente, esquecida. Eu, que sou do fado há muitos anos, gostaria de ouvir (e ver) mais sobre Ana Moura, Camamé, Mariza e outros que respeitaram integralmente a linha melódica do fado e nem por isso deixam de ser modernos.
Zambujo começou fazendo discos clássicos de fado (O mesmo fado). Depois, por influência de outras músicas, inclusive da brasileira, lançou Outro sentido e Guia. O primeiro é muito interessante, especialmente quando Zambujo troca a guitarra portuguesa pelo baixo acústico (como em Fado louco, a canção mais bonita do disco). Já Guia me pareceu confuso e chato. Apelo, o clássico de Vinicius e Baden, deixou de ser um samba canção para ser diferente de tudo, inclusive de fado.
Já Tereza depois que saiu da Madredeus, fez um disco de bossa nova absolutamente dispensável.
São dois belos cantores, mas nem sempre o repertório encaixa. Não importa, vou continuar comprando e ouvindo.
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Ontem, em meio a uma crise aguda de dor de dente e noite não dormida, vi o excepcional Almas a venda, com Paul Giammatti se superando mais uma vez, dessa vez fazendo ele mesmo. Uma delícia de filme, que meu estado geral nem permitiu aproveitar de todo.
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Também vi nessa semana, Juventude, o novo de Domingos de Oliveira. Lá pelas tantas, o personagem de Paulo José solta a seguinte pérola: Só existem três idades: a Juventude, a Maturidade e a Você está ótimo! É terrível chegar nessa terceira ainda com dor de dente!

sábado, 20 de novembro de 2010

Alô??????

Em Angra para o mesmo evento de muitos anos.

Senti sua falta na hora que precisei de nimesulida. Dessa vez foi dor de dente, mas a nimesulida faltou do mesmo jeito.

Senti sua falta quando olhei o mar de noite e lembrei de nós há poucos anos. Da nossa fuga para o mar.

Senti sua falta e busquei os retratos que guardo a sete chaves. Porque hoje só há os retratos. Não sei mais nada de nós, mas aqueles retratos nunca se apagaram.

Senti sua falta quando precisei de alguém pra descascar o mamão na hora do café. Naquele clube ainda servem mamão com casca e eu ainda vivo me babando.

Ah!, e senti sua falta porque não vejo nenhuma graça em ficar dançando a noite toda e depois ir pra cama dormir. E mesmo assim, dancei. Que lástima!

Senti sua falta e um vazio danado fez com que eu ficasse te procurando na grama, na areia, no laguinho, no meu querer abafado pela sua ausência e pelo barulho do mar.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Hair

Hair estreou nos cinemas em 1979, quando eu fiz 18. 31 anos depois, Laura fez 18 e fomos assistir à peça juntos.
Durante esses 31 anos, eu fui uma espécie de rato dos cinemas que passavam Hair. Foi assim que eu conheci a Tijuca. Assisti Hair num cinema da Praça Saenz Pena, não me lembro qual (Bruni?), e provavelmente não existe mais.
Tive Hair em video cassete, video laser, CD e DVD (primeiro uma cópia francesa depois uma nossa). Lá em casa, era festa chamar os amigos pra assistir Hair. Bêbado, fazia traduções simultâneas impagáveis. Um dia um amigo, fã de Hair, assistiu o filme dublado na TV Bandeirantes, e quase apanhei no dia seguinte porque não tinha nada a haver com a minha tradução.
Até hoje prefiro a minha tradução. Por isso mesmo estranhei muito as versões da peça. Acostumei-me tanto a invencionices espirituais e depois às próprias legendas, que foi difícil ouvir as canções dubladas.
Afora esse pequeno detalhe, a peça é perfeita. Um grupo de dançarinos escolhidos a dedo por Charles Moeler e Cláudio Botelho, bons intérpretes, ótimos cantores, dão forma a um texto que não perdeu magia e luz nesses anos todos. Impossível não esboçar uma lágrima no Let the sunshine in ou (oops!), Deixa o Sol entrar.
E como ficou bonito o Teatro Casa Grande!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O que o Ipod tem mandado


Esperava mais desse Papo de Passarim, o disco que reuniu duas das nossas vozes mais bonitas do nosso canto popular: Renato Braz e Zé Renato. Achei pouco ousado e, embora seja bom ouvir de novo Desenredo, Ânima e A saudade mata a gente, preferia que explorassem outros clássicos. Como Rio Amazonas, de Dori e PC Pinheiro, que ficou singelo na voz dos dois.
Marcelo D2 presta um tributo muito honesto a Bezerra da Silva. Não reinventa nada, apenas repete a linha melódica de Bezerra. Bela surpresa!
Também não saem do player os novos de Elvis Costello, Camamé e Brian Ferry. E o disco que Elton John gravou com Leon Russel.
Detonei, com pouco tempo de uso, Marco Zero de Elba Ramalho. muito mais do mesmo.

Capitu


"E ali em frente a mim você me disse,
que a falta que eu nunca te fiz então se fez.
E desabando como um edifício
abria um abismo a nossos pés.
Você nos viu tão bem,
no fundo de ninguém,
e o que se revelava a sós:
que elo nos valeu
que elo, ela e eu
E a lua absurda sobre nós..."

José Miguel Wisnick - DNA


Conheci minha Capitu há alguns anos. Foi uma espécie de amor a primeira vista. Um conformado amor a primeira vista, poi se tratava de moça casada. Era loira e tinha uma pele branca nas maçãs do rosto, que coravam quando sorria. E um sorriso doce de desarmar qualquer marmanjo.
Trabalhamos juntos na mesma sala. Logo nos primeiros dias, viemos ao Rio a serviço, só eu e ela. O marido não gostou. O marido não era bem um Casmurro, tratava dos cabelos das moças da cidade. E não gostou nada quando deixei a moça só perto de casa (e não em casa) quando voltamos da viagem. Veio tomar satisfação comigo e tentei explicar que nós do interior somos mesmo mal educados e preferimos manobrar o carro onde é mais fácil do que deixar as moças em frente de casa. A viagem não rolou nada, mas foi uma viagem confessional, de abrir o coração e não as pernas. As pernas só se abriram duas vezes nos partos da minha Capitu.
Bem que eu tentei, desajeitado, dar asas ao magnetismo que existia entre nós, mas logo percebi que era só amizade mesmo. Que fazer? Ao longo desses anos, exercitamos essa amizade das mais variadas maneiras e até fomos sócios numa loja de discos. Muita conversa, bons fluidos, boa sintonia, alguns porres homéricos, envelhecemos juntos e hoje só de olhar um para o outro, já nos compreendemos um ao outro.
Ainda hoje, olho pra ela e vejo a mesma menina. Sei que o tempo endurece a alma, mas prefiro pensar nela como nos velhos tempos em que fomos felizes. Aqueles tempos só voltam porque sei que, a poucos metros da minha sala, minha Capitu ainda brilha , como se a vida não machucasse tanto.
Para mim, ainda há um grande mistério naqueles olhos tristes. Queria decifrá-los por inteiro, mas as Capitus são sempre indecifráveis, mesmo quando se doam das formas mais generosas e doces.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Velharias na sala nova

A TV Toshiba 33 polegadas, o receiver Pioneer, o cd player carrossel JVC, a pick up Garrard e as caixas Aiko, deram as caras sábado de noite na nova sala. E não desapontaram. O repertório era só de canções brasileiras, de Simone Guimarães a Maria Bethânia, de Uakti a Nelson Aires, para dar sorte no primeiro dia. Na copa, os melhores amigos conversavam animadamente sobre coisas inúteis. Nenhuma conversa levava a nada e todas eram da maior importância. A primeira cerveja foi uma Antártica sub zero muito bem gelada no velho consul. Miracema chovia e abençoava nossos acordes. De vez em quando, um pique de luz incomodava, mas já estávamos acostumados. Já vinha de uma tarde alentadora, a noite só complementou o belo sábado. Imaginei ser feliz ali naquela hora, e naquela hora, eu era mesmo, um homem feliz.

Gullar

" A arte existe porque a vida só não basta."
Ferreira Gullar.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Cinema no Finados


Só o talento irrefutável de Marco Nanini e a beleza estonteante de Tammy di Calafiori, não necessariamente nessa ordem, salvam A Suprema Felicidade, novo filme de Arnaldo Jabor. Eu era menino quando vi Eu te amo no Cine XV em Miracema. Nunca me esquecerei daquela cena do Pereio andando bêbado pela Praia de Ipanema, cantando Onde andarás. Talvez eu a tenha repetido ao longo da minha vida besta, mas isso já faz muito tempo.
No mais, A Suprema Felicidade é muito ruim. O andamento é confuso, a trilha sonora é descuidada, tudo parece meio desconexo.
Saí de casa no Dia dos Mortos disposto à encarar o Cinemark Plaza, com sua pipoca murcha e seu som quadrifônico. Dessa vez, não valeu. Mas não foi só dessa...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Um bom lugar pra morrer

Mudei. Acho que foi a 520ª mudança na minha vida, mas agora vai de vez. É ali que pretendo passar o resto dos meus dias. Uma casa de tamanho médio com quintal pequeno e quarto aconchegante no Centro de Miracema. Eu queria a casa do meu avô, mas essa já venderam. Corta meu coração falar sobre a casa do meu avô, mas essa já venderam. Dá pena de mim não tê-la comprada, mas que fazer? Foi vendida e pronto!
Já pedi ao meu arquiteto que espalhasse prateleiras por toda a casa pra ver se abrigo minha biblioteca. Tem espaço para muitas estantes.
O primeiro final de semana na nova casa foi de altos e baixos. Sexta de noite foi indiscutivelmente o melhor de muitos dias dos últimos dias. Começou no Bunda de Fora e terminou na cama. Uma noite irrepreensível!
Depois, alguns aborrecimentos ameaçaram o sábado, que terminou em casamento e aniversário. Há muitos anos que não ia a um casamento, mas era de uma velha amiga, daqueles que não dá pra não ir. Fui. Aguentei pastor, o pai nosso em rítmo soul, duas horas de blá blá blá, mas só de ver os olhos felizes da noiva, valeu pela ida.
No domingo, a coisa meio que se agravou, achei que era hora de voltar pro Rio, tive um rompante número 2 e só me dei conta quando já estava no apartamento em Niterói.
Tomei um bom banho, deitei e vi o "água com açucar" Casa comigo. Eu estava mesmo precisando de água com açúcar.
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Hoje trabalhei normalmente. Foi um dia sossegado pra trabalhar. Almocei com Cláudia Reis no Tarantino. Os extremos interiores foram acertadamente trocados pelo equilíbrio litorâneo.