terça-feira, 28 de abril de 2015

Estrela da manhã

Só de juntar a voz perturbada de Arnaldo Antunes com a voz limpa de Ná Ozzetti em "Noturno do Mangue" já valeu pelo disco, mas Ná e Zé tem muito mais do que isso.
Na verdade, esperava um disco mais solene, menos experimental. Depois de ouvir umas tantas vezes em várias ordens, não consigo mais tirá-lo da agulha. Faz companhia a Kátia Guerreiro e Zambujo, outros dois que ouço convulsivamente.
E o disco póstumo de Mercedes Sosa (Angel) que comprei em Buenos Aires. Parecia mais uma oportunidade caça níqueis de dar vida à voz de Mercedes, mas é muito mais do que isso.
Feliz com meus discos. São eles que me salvam no trabalho, no avião, na bicicleta.
Enquanto isso a vida passa. Olho para os lados, era preciso que o tempo estacionasse, mas não há jeito. 
Acabo de ser notificado da morte de Antonio Abujamra. Foi se uma referência. Sua leitura da Estrela da Manhã dormiu comigo muito tempo. Aprendi a gostar dos poetas ouvindo Autran, Rangel e Abujamra.
Provavelmente nenhum dos Manuéis, nem Pessoa, nem Drummond, teriam um impacto tão significativo na minha vida se não fosse Abu.

De volta ao 1009


Acordo.

Hoje eu gostaria de um motivo menor para não ir a São Paulo.  Um atraso de voo, uma chuva torrente, um descuido na aeronave.
As filas no Santos Dumont denunciam o feriado de amanhã. Meu pensamento e minha vontade já estão na estrada e não no aeroporto.Não encontro a morena no guichê. Essa que me atende me propõe o 1007 num assento ruim. Recuso e me arrependo, mas recuso novamente. A recusa não é tanto pelo conforto, o que pesa mais é a esperança de permanecer no Rio.
Aguardo. O vazio me preenche. Meu instinto apressado faz com que eu me desloque para a fila do 1007. É tarde. Triste nem sei porque.
Embarco. Um sujeito com o assento na 11 marcado acaba de descobrir que não tem assento 11 nesse avião. Sorte dele.
Ouço Zambujo e Katia Guerreiro. Alguma coisa se perdeu nesse meio tempo, mas quando Zambujo faz o último desejo, trato logo de melhorar. Daqui a dois dias, Zambujo dará entrevista de lançamento do disco no Globo falando exatamente nesta proximidade do fado e do choro que agora penso. Sempre associei o bandolim de Jacob à guitarra portuguesa.
O melhor lugar para se pingar um colírio é o assento de um avião. O pescoço fica perfeitamente equilibrado e a gota não se perde. Descobri por cálculos matemáticos de alta precisão que cada gota do meu colírio custa trinta centavos. No avião não perco dinheiro.
Abro meu kindle. Fui muito otimista semana passada quando previ uma leitura rápida de Roth. Hoje leio exclusivamente no avião e tenho que dividir o kindle com o segundo caderno e a veja, além do jornal do dia. Sobram menos de 20 minutos para Roth. E o Complexo de Portnoy agora está numa parte meio chata.
O avião não pousa por conta do mau tempo em São Paulo. Há esperança.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Tomo y obligo






"Era assim, com essa ferocidade autodestrutiva com que tantos homens judeus de sua geração se matavam por suas famílias,  que meu pai se matava por minha mãe, por minha irmã Hanna e acima de tudo, por mim. Se ele vivia prisioneiro, eu haveria de voar: esse era seu sonho. O meu era o corolário do dele: ao me libertar, eu o libertaria - da ignorância, da exploração, do anonimato."


Phillip Roth, O complexo de Portnoy



Acordo.
Ouço tangos no voo 1703 que me leva pela segunda vez nesta mesma semana a São Paulo, dessa vez a Guarulhos. Enquanto leio Philip Roth no kindle, o excepcional uruguaio Tabare Leyton me manda o Tomo y obligo mais doído que já ouvi.  E Lídia Borda e Veronica Silva. E essa Orquesta Misteriosa que me persegue desde que cheguei de Buenos Aires.
Resisti o quanto pude ao kindle, mas o peso dos anos e dos papéis acabaram me levando a ele. Escolhi um Roth que não tinha lido ainda para ver se fidelizava mais rápido. Ninguém escapa a uma escolha como Roth: o kindle já está incorporado. Para fidelizar mais ainda, tento conter a ansiedade de só comprar o segundo quando acabar de ler o primeiro. Não vai demorar muito.
Meu sobrinho me manda uma foto do meu pai ao lado do velho Ford 29 que pertenceu à família.
O livro, a foto e o tango trazem meu pai de volta. Queria tê lo aqui comigo nesse voo que ele tanto gostava. Provavelmente meu pai se adaptaria rápido a esse ir e vir à São Paulo toda semana e nem reclamaria. 
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Mas não é desse pai que gostava da estrada que sinto falta.
Também não sinto falta  do homem honesto e trabalhador que varava madrugadas em caminhão e trator para construir o que não pode aproveitar.
Tão pouco sinto falta do pai que me ensinou com seus silêncios a gostar de boa música e poesia, ouvida preferencialmente alta nos domingos após a missa.
Muito menos do pai que me levava muito moleque ao cine XV para assistir às sessões de segunda-feira, quando se reprisava o filme do domingo.
O que costuma me fazer muita falta é de conversar um pouco com ele, de igual e desarmado. Isso que eu não vou ter nunca mais. O resto, a história conta.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Atenção senhores passageiros

Acordo.
O motorista do taxi manda um bom dia. Quase respondo: dependo da Gol, do Santos Dumont e de Congonhas para que seja bom o meu dia. Também dependo do trânsito em São Paulo. Dependo da minha memória frágil, de controlar minha fome, do colírio que esqueci em casa.
No Santos Dumont consigo antecipar duas vezes: no guichê e no embarque. Tudo certo. Lembre-me de mandar uma agenda no final do ano pra essa moça que sempre me atende tão bem no aeroporto.
Ja estou no espaço aéreo escrevendo esse texto.
Quem pode se interessar por essas bobagens? Tenho sido mestre em iniciar longos textos que nunca acabo. E daí?
No espaço aéreo, é Carminho que me salva enquanto escrevo. Depois do ótimo último disco, resolvi colocar a discografia toda para rodar. São três discos especiais que se pode ouvir inúmeras vezes sem
enjoar. É fado muito bem cantado e sofrido.
Não ouço fado nas rádios, não escuto comentários de alcova, mas está em mim como se fosse vivo. Está em mim como se fosse parte. E é mesmo muito bom que seja.
Sinto falta de Luisa. Sinto falta de todos, mas ultimamente a falta de Luisa tem doído mais. Deve ser
porque ela está tão longe de mim. Longe e perto de mim.
Em Congonhas também consigo a proeza da antecipação dupla. Volto no vôo de 17:10.
De novo no espaço aéreo. Leio a Veja e velhos segundos cadernos. Não consigo mais ouvir nada alem do barulho da espaçonave e do ruído das conversas.

domingo, 5 de abril de 2015

Mordido

Acordo. 
Custo a acreditar mas o relógio da cozinha me confirma: madrugada duas e cinco. Sei que devo estar no Santos Dumont às seis, mas dessa vez o relógio de dentro exagerou.
Tenho medo de acordas às duas. Medo do que pode me acontecer entre duas e sete. Medo de que chegue o dia seguinte, ainda mais quando o dia seguinte vai ser trabalhado em São Paulo.
Passo a coberta no Lucas, faço a barba silente, deito no sofá zumbizo, ainda são três.
Penso em ligar o notebook mas já sei por experiência própria que trabalhar de madrugada destrói o dia seguinte. Torna o dia ausente, a memória frágil, o olho mais cansado ainda.
Espero.
Muitas madrugadas numa madrugada.
Ontem de noite, num breve espaço entre uma brincadeira com o menino e o jantar, consegui recarregar meu Ipod touch mais antigo, o que costuma andar comigo nas viagens.É ele que me salva na ponte aérea da Gol.
Trabalho árduo o dia inteiro.
Volto no mesmo vôo que fui.
Tento dormir uma noite inteira pra encarar tudo de novo no dia seguinte.

Receita infalível pro meu coração

Enquanto o amor viajava, Luisa veio ficar comigo. Um outro amor para substituir o amor ausente. Uma semana no tempo e fora do tempo. 2015 parecia não ter começado ainda. Uma semana de conversa, poesia e música.. Para cuidar dela e ela de mim.
Eu estava me adequando a um sal novo para insônia, por isso mesmo não estava tão bem. Mas Luisa reverte qualquer efeito colateral apenas com um gesto. É só chegar que flui.
E fluiu com Laura Braga maravilhosa no João Caetano, Livia Nestrovski idem na Sala Cecilia Meireles, e uma rotina normal de trabalho que incluiu São Paulo. Queria mostrar os faróis da Paulista pra ela, mas São Paulo foi o único dia em que ela não estava tão bem. Mesmo assim mostrei.
Adoramos a Sala reformada e sua acústica perfeita. Valeu ter saído da empresa no meio do almoço e ter dado um pique até a  sala para comprar os ingressos.
E valeu que Laura tivesse ido almoçar com a gente na terça e nos estimulado a ver o Chacrinha. Valeu pela própria Laura.
Valeu por tudo. Principalmente por saber que Luisa dormia no quarto vizinho, tão perto do coração.  
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Para não esquecer os nomes:
Capote - eu sei, é de 2005, mas não tinha visto ainda, e era Philipp Seymour Hoffman.
Garota exemplar, história de uma mulher perturbada.
O abutre, Jake Gyllenhaal, história de um homem perturbado.
Leviatã, belo filme russo.
Chacrinha, o musical, com Laura Braga e Stepan Necerssian, ambos maravilhosos.
Livia Nestrovski, Luiz Tatit e Arrigo Barnabé