sábado, 24 de novembro de 2012

Saudade


"Todo mundo que lida com vidas humanas, sabe que os seres humanos não são simples, são pelo menos duas ou três coisas."
Salman Rushdie

Saudade do violão do Lilito desfilando o repertório do disco da Amélia Rabelo. A delicadeza que vem daqueles sons. Da polenta quentinha da Diô saindo na hora da fome. E a bananinha cozida, o feijão manteiga, o arroz fresquinho. Longe dessa comida plástica dos centros do Rio e São Paulo.
A saudade resolveu ficar no Rio, decidiu não romper a estrada longa que separa o velho do menino, estrada de muitas estradas, de muitas noites e de algumas saudades doídas.
Saudade muito doída de Luisa, da nossa conversa besta, dessa coisa transcendental de pai e filha.
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Na última crônica que li do Veríssimo ele falava das armadilhas do campeonato de pontos corridos, que já determinou o campeão e o rebaixado algumas rodadas antes. Também defendeu uma espécie de liga dos intocáveis, times que não podem ser rebaixados nunca. Acho justo.
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De José Castello no Prosa de hoje: "não é fácil falar de sentimentos sem transformá-los em pesadas placas de prensa e reduzi-los à máscara lamentável dos clichês." Faz sentido.
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Fui ver o Elefante Branco de Pablo Trapero. Gosto de Trapero, de Darin e principalmente de Martina Gusman. É uma atriz visceral. O filme é bom, mas não o melhor do diretor. Ainda gosto mais de Abutres. 

sábado, 6 de outubro de 2012

Aquela casa fechada

"Aquela casa fechada
não tem vasos na entrada
nem se vê luz duma vela
dizem que a casa está morta
já ninguém lhe bate a porta
nem se assoma na janela."



Em Cuiabá, ando preocupado com os efeitos deletérios da Lei José Riva, que proíbe o uso do cigarro e outros produtos fumígenos em vários ambientes. Até para um não fumante como eu, é ameaçador. Já fiz o roteiro das melhores peixarias e agora retorno acompanhado, no Vôo Azul 4124, da Banda João Carreiro e Capataz. Desconfio que o Capataz viaja na poltrona à frente da minha. 
Ouço Zambujo, possivelmente desconhecido da banda. O disco é, de fato, irresistível. Dói, regenera e claudica como todo o fado. Na biblioteca há algumas de Camané, muito mais sofrido que Zambujo e ainda mais distante da dupla sertaneja. Arrisco ouvir, mesmo sabendo que vai doer ainda mais. 
Queria um chuvisco na Chapada dos Guimarães, um peixe de beira rio, um sono mais prolongado, mas vai ficar pra depois. Voltar ao Rio parece-me mais atraente para o momento que qualquer souvenir turístico cuiabano.
Ontem também adormeci ouvindo fado .O dia extenuado doía-me até o cabelo. Fiquei feliz com um telefonema que recebi, mas até a felicidade doía. A dor do fado costuma aliviar a dor física.
Não há vôo direto de Cuiabá para o Rio. Espero pacientemente no Aeroporto Vira Copos em Campinas pela minha conexão. Cada vez acredito mais nesse conceito do Aldir de que a vida é um sinal que não sai do amarelo 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Nada mudou, em essência

Pra Marila.

"Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida?
Antônio Maria

1 - De tanto escrever coisas inúteis, afeiçoei-me a elas. Hoje não tenho mais tempo de escrever coisas inúteis. Sei que essa próxima meia hora em que escrevo, roubo de preparar um treino para Cuiabá, responder 53 e-mails, atender A ou B.
2- Não há amigo mais presente em minha vida atual do que o Macedo. Leva-me aos aeroportos do Rio e trás me de volta pra casa, pelo menos duas vezes por semana. É um homem feliz, apesar de ter ficado doente nos últimos anos. Tem um casamento de muitos anos, diferente "do meu fruto sem cuidado que ainda verde, apodreceu". Exorta as pequenas coisas boas da vida. Mora perto da minha casa, mas prefere elogiar o pão da padaria do outro quarteirão (Pão e etc) do que lamentar o fechamento da Panificação Palácio. Já eu...
3 - Absolutamente encantado com o disco novo de Antônio Zambujo, o Quinto, que já recomendo para as listas de melhores do ano. É o que mais aproxima o cantor do fado, dos que ouvi.
4 - Sei que Zambujo se apresentou recentemente no Rio, que Rosa Passos estará no Miranda, mas de que adianta? Meu tempo é quando?
5 - E mesmo que não fosse, assisti ao show do Gudin com uma indisfarçável melancolia, de sair no meio, de pressa e com medo de doer mais.
6 - Também é de Zambujo, a interpretação da música mais bonita que ouvi esse ano: o Fado Saramago, de Ivan Lins e José Saramago, do último disco do Ivan. 
7 - Na foto acima, a visão panorâmica do meu guarda-roupa. Se olharem minha mesa, minha pasta, meu carro, o quadro é o mesmo: vão pensar que o abandono mora aqui.
8 - Quando prescindo do Macedo e assumo eu mesmo o volante, como ontem numa ida a Cabo Frio e Araruama, sou um desastre. A cegueira noturna tem se acentuado e o Rio vira um sinal amarelo nos horários pesados.
9 - Como sempre a música tem salvado esses momentos duros. Não sai da vitrola de ouvido, o disco novo de Isaías e seus Chorões e Quintal Brasileiro. Um Lábios que beijei de chorar todas. 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Dó das estrelas

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo…
Tenho dó delas.

Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas
Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir…

Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

Pessoa/Wisnik, ouça com Jussara Silveira e morra um pouco cada vez

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Asa partida


"Quando eu não tinha o olhar lacrimoso,
que hoje eu trago e tenho.
Quando adoçava meu pranto e meu sono,
no bagaço de cana do engenho.
Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus,
fazendo eu mesmo o meu caminho,
por entre as fileiras do milho verde
que ondeiam, com saudade do verde marinho:

Eu era alegre como um rio,
um bicho, um bando de pardais;
Como um galo, quando havia...
quando havia galos, noites e quintais.
Mas veio o tempo negro e a força, fez comigo
o mal que a força sempre faz.
Não sou feliz, mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais."

Belchior
Já passa do meio do ano e eu ainda não escrevi sobre discos. Quando criei esse blog, um dos objetivos era aborrecer meus três leitores com as canções que ouço todo dia. Assim, tinha pronto em minha cabeça um texto sobre o disco de Siba, um sobre o de Moisés Marques, mas acabou não vingando. Fica no entanto, a recomendação. 
Mas há um disco que já passou para o estado de longa permanência no Ipod. Como já sabemos, ouço música no trajeto entre a Praça Araribóia e a  XV, atravessando a Baía. Meu shuffle só tem 1 gb, de forma que só entram os discos mais novos. Os que permanecem mais tempo concorrem aos cinco melhores do ano. Ano passado por exemplo, fiquei com a trilha de Boardwalk Empire por 8 meses no ouvido. Gostei tanto que pedi ao Lugarinho que me trouxesse o disco físico, que nunca saiu nessas plagas. Ele foi muito gentil. Como sempre. 
O disco a que me refiro chama-se Janelas do Brasil. A cantora é Amelinha. Os que habitaram os anos 80 vão se lembrar de Amelinha e seu Frevo mulher, a canção de Zé Ramalho que estourou no final dos 70, início dos 80. Tudo que eu gosto de música hoje deve um pouco àqueles tempos. E ouvir Amelinha cantar Asa partida ou Galos, noites e quintais, do jeito carinhoso que ela trata dessas canções, não dá pra escapar uma contra-lágrima no olho esquerdo. Ainda mais depois desses tempos negros que vieram.  

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Esperando Gudin


Eduardo Gudin vem ao Rio em 6 de setembro. Soube ontem acessando o site do Rival pra saber do show do Marcos Sacramento semana que vem. 
Pode parecer exagero, mas para mim é o acontecimento musical do ano. Há muito espero pela vinda do compositor. Porque Gudin nunca vem ao Rio. Lembro-me que há poucos anos, ele veio numa única noite, lançar o disco (antológico) que gravou com Leila Pinheiro. Perdi, já estava comprometido com viagem, trabalho, o escambau. Mas não dessa vez. Fiz questão de ir ao Rival pessoalmente adquirir o ingresso, que escaneei para perpetuar. 
Aprendi a gostar de Eduardo Gudin tardiamente, quando ele lançou o primeiro cd com o Notícias dum Brasil em 1995. Na época, reinava a Eclipse Discos em Miracema, loja super alternativa que eu e Jadim teimávamos em manter aberta, apesar dos constantes prejuízos. Os prejuízos eram só financeiros, porque a loja serviu para que dividíssemos as melhores canções e infinitas conversas de boa palavra. 
Esse cd, comprado numa queima de estoque sem muita espectativa, se transformou na nossa maior referência musical naquele ano. Foi também meu primeiro contato com a voz de Mônica Salmaso e Renato Braz. Mas acima de tudo, pairavam as composições.
Uma vez eu fui numa noite de autógrafos do lançamento de uma antologia do Sérgio Natureza e indaguei a ele pela falta de Luzes da mesma luz naquela antologia. 
Há tanta coisa pra recordar daquele disco e da obra do compositor, especialmente dos três cds da série Notícas dum Brasil, que um texto só é muito pouco. Os melhores intérpretes da nova geração passaram pelas formações do grupo. Só para citar, além dos já citados, Fabiana Cozza, Ilana Volkov, Luciane Alves.
Só para citar mais uma, que acabou virando amiga, Maria Martha. Como ainda dói, ouvir Maria Martha cantando Águas passadas!
Se você nunca ouviu, ainda é tempo. Se você mora no Rio, é uma oportunidade única.
Comprei um par de ingressos. Quem sabe Luisa não se habilita... 

domingo, 22 de julho de 2012

Perto do coração

Passei o dia do amigo ausente dos amigos e viajando com Laura pra Niterói. Viemos conversando como velhos amigos conversam no dia do amigo ou em qualquer outro dia. Mas conversar com Laura é sempre muito especial. Da vida pessoal de cada um, da carreira, de canções e poesias, de Luisa e Chicó,  não importa o assunto, são pai e filha conversando como velhos amigos. Uma amizade conquistada com muitos silêncios, gestos de  consideração, uma cumplicidade de afetos e algum tempo difícil.
Mais cedo em casa, eu remexi em velhas seleções musicais, assim meio sem propósito, mal podia imaginar que seria a trilha de uma viagem dessas que a gente pede pra durar mais um pouco. Canções de Bach, Debussy, Nelson Ayres, Piazzolla contos de Clarice e Guimarães, poesia de Gullar, tudo fluindo como se fosse a próxima a ser ouvida, embalando nossa palavra fácil.
Lembrou das minhas viagens de menino pro Nordeste, do pouco dinheiro, do carro com quebra vento, do toca fitas auto reverse, e de uma pauta interminável de assuntos inúteis e importantes.

Perto do coração

 Para ler ouvindo a valsa "Perto do coração", de Nelson Ayres Amigo, ano passado nessa mesma data, estávamos passeando pelas ruas ...