sexta-feira, 23 de maio de 2008

A propósito de 1968

No incensado ano de 1968, eu tinha 6 anos, idade do Chicó hoje. Absurdamente alienado, meus heróis eram o Príncipe Namor, o Nacional Kid e o Capitão América. Brincava de mocinho e bandido, meu sonho era ser da polícia.

Estudava no Jardim da Infânia Clarinda Damasceno, onde minha mãe era professora. Ia à missa todos os domingos e acreditava cegamente em Deus.

Meu avô materno, meu grande herói da infância, era vivo e gostava generosamente dos meus primeiros versos, já desprovidos de qualquer talento.

Em 1968, quebrava os discos de 78 rotações do meu pai e ficava de castigo dentro de um balaio de roupas, mas continuava ouvindo tudo de novo no dia seguinte. Inventei eu mesmo uma vitrolinha de caixa de papelão para ouvir minhas canções imaginárias. Já era doido.

O Álbum Branco dos Beatles, lançado em 68, não tocava lá em casa, portanto só fui gostar dele muitos anos depois, mas o meu disco preferido dos Beatles ainda é o Abbey Road. Adorava ouvir Oh! Darling e muitos anos depois, ouvi uma versão cortante do Coral A Garganta Profunda e me apaixonei pela vocalista gordinha do Garganta (Onde andará?)

Tropicália ou Panis et Circenses também não entrou na minha vida em 1968. Comecei a gostar do disco(que até hoje ainda acho um pouco enjoado) lá por volta de 74 e a melhor versão da canção pra mim está num disco antológico do MPB4 chamado Bons Tempos, Hein!.
O ídolo lá de casa era Roberto Carlos, que em 68 lançou o cd O Inimitável. Meu hit era o clássico Ninguém Vai Tirar Você de Mim.

Em 68, não tomei um porre para chorar a morte de Manoel Bandeira. Fiz isso muitos anos depois na morte de Drummond, recitando A Mesa e O Caso do Vestido pra uma platéia pouco afeita à poesia.

Morava numa cidade pacatíssima, não tive conhecimento dos movimentos estudantis, da ditadura militar, de Ferreira Gullar , de Zuenir, dos Festivais da Record, de Geraldo Vandré, de nada.
Em 1968, eu habitava um país chamado Miracema, e era feliz num canto qualquer da Rua das Flores.

O ano em que eu fui ao inferno foi 2002. O ano que nunca terminou pra mim foi 2002. Mas um dia termina.....

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