Custou 600 dólares. É difícil atribuir valor a um quase membro da família, uma espécie de cão sonoro. Está comigo desde a minha primeira incursão a um free shop ainda no século passado. Já morou em Altamiro, Niterói, na Rua das Flores em Miracema e em Odete Lima, onde o seu som alto corroía o silêncio de patos e gansos. Acompanhou a construção de todas as canções de afeto, tocadas à exaustão nos seus falantes. Fez festa quando eu fiz cinquenta anos, e uma seleção de forrós e boleros chulos inundou o coreto da casa. Conheceu mulheres, amigos, era o estepe quando o pessoal do choro cansava de tocar. Nos intervalos das grandes vitórias do Fluminense, tocava a plenos pulmões. Foi minha primeira audição de Ludovico Einaudi, Ildo Lobo, Françoise Hardy, Kléber Albuquerque. Ficou um tempo esquecido porque outros tentaram ocupar seu lugar, mas sempre voltava. Era um apaixonado por música alta. Agora sibila cansado no canto da casa. Parece irremediavelmente velho como seu dono.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Cinco discos que bateram na trave dos mais ouvidos em 2014
Itinerário, Rodrigo Maranhão - certamente o disco mais brasileiro do ano. Arranjos sofisticados e simples, trazendo de volta os velhos salões. Destaque para fuzuê, flor do cajueiro e madrugada.
Fado com outro acento, Maria do Ceo - adoro a galega. Esse disco de 2012 só entrou em outubro desse ano graças ao Itunes. Desde lá, não saiu mais.
De nada mais a algo além, Arrigo Barnabé, Luiz Tatit e Livia Nestrovski - vai se gostando aos poucos e logo toma conta. O verde louro papagaio é mais uma descoberta obra prima de Luiz Tatit.
Água lusa, Jussara Silveira - fiz alguma restrição aos últimos discos e Jussara por causa de um ou outro repertório. Não esse. As canções portuguesas soam deliciosas na sua voz.
Canto sagrado, Fabiana Cozza - excepcional tributo à Clara Nunes, merecia atenção maior, pois tem forte apelo popular.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Apaixonado por Alice Caymmi
Será que Dori ouviu? Uma coisa cheia de letras vulgares, orgasmos múltiplos e pirotecnias eletrônicas!??!
Pois bem, eu gostei muito do disco. Que fazer com Francisco Lima, que chega aos 53 e ainda consegue se apaixonar por bobagens. O Almeida certamente condenará. A Gonçalves, então, deixará de ler o blog para sempre.
O que me encantou? De cara, um Meu Mundo caiu de fazer Maysa rolar no túmulo de satisfeita. Foi meu primeiro alumbramento do disco. Está destacada na Canção de Afeto 33.
Um acerto as três canções obscuras do repertório de Caetano, inclusive os supracitados orgasmos, que eu também invejo. Para o próximo, sugiro Odeio e Não me arrependo de você, menos obscuras, mas que cairiam como luvas na voz lambida de Alice.
Meu recado, de Sullivan e Alice, serve pra qualquer antologia de brega chique que se preze.
Gostei de Princesa e do arranjo Morricone de Antes de tudo.
Bom, são só nove músicas e por mais apaixonado que seja, nunca vou conseguir entender a inclusão de Sou rebelde, mas ela tem crédito.
E assim somam-se os dias,
Passeio pela Paulista de mãos dadas com o amor e de noite. Lembro dos faróis de Gudin e Vania Bastos.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Eu vi um sim onde os outros viram não
"No fundo, tenho medo de um grande caso, de gostar como já gostei umas três vezes em minha vida, de corpo e alma."
Cartas de Rubem Braga
Para o musicólico anônimo, Amsterdam tem pelo menos duas armadilhas: a primeira e definitiva é a loja Concerto da Rua Ultrechtsestraat, próxima à praça do Rembrandt. Quem sente saudade da Modern Sound, é uma daquelas, ampliada, com lojas separadas de clássicos, jazz, rock e uma sessão só de fados. Morri ali algumas vezes. E outras tantas na Fame, que ocupa todo o quarto andar do Shopping Magna Plaza, Voltei com as bolsas lotadas de discos. Os ingleses revistaram cada um.
Facilitou muito ter me hospedado no Radisson Blu. Impecável nos quesitos conforto e atenção, ainda tem o benefício de estar a cem metros de tudo. A cem metros da DAM square, onde tirei uma foto com a morte. Cem metros da Red Light Street, cem metros de qualquer café.
Come-se muito bem em Amsterdam. Há ótimos cafés e restaurantes italianos, tailandeses, e até argentinos. Apaixonei-me pelos queijos, pela batata frita e pelos stroopwafels . E, naturalmente, pelo chocolate belga da Leonidas.
Mas o melhor em Amsterdam foi ter encontrado um bom amigo. Fomos no mesmo vôo, para o mesmo simpósio e ficamos ambos no Radisson Blu. Com meia hora de conversa parecíamos velhos conhecidos. Graças a ele, tive saco para fazer o terrível city tour, e depois conhecer os Museus Van Gogh e Rijksmuseum e a casa de Anne Frank. Eu não tenho sensibilidade para quadros. Acho que Deus caprichou no ouvido, mas o olho é meio cego para contemplação. Queria muito ter olhado a Ronda Noturna com outros olhos.
Como já era previsto, detestei viajar 12 horas seguidas. Para o insone, não há nada pior do que se manter 12 horas acordado num avião. Gostei mais da KLM do que da British. Embora tenha ensaiado algumas compras nos free shops que passei, mal parei neles. Essa coisa do presente me torturou a viagem inteira, Comprei pouca coisa e acho que tudo errado. Exceto nos chocolates. Tive vontade de comer todos os stroopwafels que trouxe.
Além de tudo, Amsterdam é ótima para caminhar, faz sempre muito bem aos olhos e me deu uma sensação boa, diferente de tudo que já experimentei.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Cinco coisas que aprendi sozinho
Que a profundidade da canção Iansã, de Gil e Caetano, só percebi quando ouvi com Alice Caymmi. Alice é a verdadeira rainha dos raios, como outrora foi sua tia.
Que se tivesse seguido atento aos ensinamentos de minha mãe, teria sido campeão em tudo. Um dia esqueci deles e fiquei gordo. Mas isso está mudando.
Que tem dor na escrita promíscua de Sérgio Santana, na tira dissimulada de Flávio Almeida, na última canção de afeto.
Que quando colocado a contragosto num espaço dançante, ao som de uma pseudo Banda Vitória Régia e de um pseudo Tim Maia, eu travo.
Que a falta que sinto da minha cidade é visual, olfativa, de paz, amigos e filhos.
Que se tivesse seguido atento aos ensinamentos de minha mãe, teria sido campeão em tudo. Um dia esqueci deles e fiquei gordo. Mas isso está mudando.
Que tem dor na escrita promíscua de Sérgio Santana, na tira dissimulada de Flávio Almeida, na última canção de afeto.
Que quando colocado a contragosto num espaço dançante, ao som de uma pseudo Banda Vitória Régia e de um pseudo Tim Maia, eu travo.
Que a falta que sinto da minha cidade é visual, olfativa, de paz, amigos e filhos.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Destino Bocaiuva
Saí pra votar com a patroa em Vila Valqueire cheio de dúvidas. Lembrei daquela cena de Agosto (Rubem Fonseca) em que o Matos é arguido se Lacerda ou Getúlio e responde : mas tem que ser uma dessas merdas? E eram Getúlio e Lacerda!
Bem, eu estava completamente confuso. Já tinha passado por algumas fases: simpatizado com Eduardo Campos um dia antes dele morrer, adotado a bandeira do "basta de continuismo", e até mais simpatizado com Dilma no debate. Tudo isso são reflexões de pura incompetência. Não acompanho a política, não leio essa parte no jornal., entendo pouco das mazelas. Fiquei mais aliviado por ir à Vila Valqueire apenas justificar, pois voto mesmo em Miracema.
A viagem a Valqueire me obrigou a passar pelos subúrbios do Rio e o aleatório das canções insistia em mandar as canções suburbanas.
Na ida, Engomadinho, de Pedro Caetano e Claudionor Cruz com Aracy de Almeida. Não adianta tentar remedar, só Aracy canta bem o Engomadinho. Talvez já tenha escrito isso, mas vai de novo: eu era menino e Aracy era jurada do Programa Silvio Santos, obrigatório lá em casa aos domingos. Foi dessa forma desajeitada que conheci Aracy. Depois tive que trilhar um caminho espinhoso para reconhecer a grande cantora que foi. Ainda tenho uma certa dificuldade, mas não quando ouço o Engomadinho ou Triste cuíca. Olivia e Sacramento que me desculpem, mas Aracy esgotou essas duas. Qualquer coisa vai ser nada mais do que uma interpretação pálida do que ela deixou.
Em Quintino, me ocorreu o Destino Bocaiúva, da obra menos conhecida de Guinga e Aldir, já decantada por Fátima Guedes. Fátima também daria outro belo parágrafo, mas fica para uma outra.
De volta, só deu Noel. Começou com Dama do Cabaré. A versão que ouvi é da trilha do filme Noel poeta da Vila, não sei o nome do cantor, mas é muito boa.Ouvi também Estátua da Paciência com o Coisas Nossas do antológico Noel inédito e desconhecido, e Amor de parceria com Tatiana Parra.
Quase chegando em casa, Martinho da Vila e Martinália trouxeram Minha viola.
Bela viagem a Valqueire. No segundo turno eu volto.
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Em Quintino, me ocorreu o Destino Bocaiúva, da obra menos conhecida de Guinga e Aldir, já decantada por Fátima Guedes. Fátima também daria outro belo parágrafo, mas fica para uma outra.
De volta, só deu Noel. Começou com Dama do Cabaré. A versão que ouvi é da trilha do filme Noel poeta da Vila, não sei o nome do cantor, mas é muito boa.Ouvi também Estátua da Paciência com o Coisas Nossas do antológico Noel inédito e desconhecido, e Amor de parceria com Tatiana Parra.
Quase chegando em casa, Martinho da Vila e Martinália trouxeram Minha viola.
Bela viagem a Valqueire. No segundo turno eu volto.
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Em São Paulo, posso me dar ao luxo passar na Cultura depois do trabalho.. Hoje foi um achado: na sessão de clássicos, Rodolfo Medeiros e Marcelo Ghelfi, Sons do Brasil e Argentina, Selo Sesc São Paulo, por R$16,90. Um luxo! Corra antes que acabe.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Um outro dia propício para o fado
Era uma quarta-feira muito imprópria para encarar a noite como toda quarta-feira para quem trabalha quinta cedo. O show era tarde. Voltava de São Paulo e trabalho e tempo corrido. Precisava superar os muitos quilos em excesso, a insônia, a dor de cabeça.
Precisava voltar ao menino que andava de galho em galho pelo centro do Rio nos anos 80 à procura de música e poesia. Gonzaguinha, Nana, Língua de Trapo, MPB4, Clara Sandroni, Boca Livre, só pra citar os que vi mais de uma vez. A Sala Funarte, que era na Araújo Porto Alegre, o João Caetano, o Leopoldo Fróes, o Rival, a Barca das sete, o CCBB. As lojas de disco da Rua Sete de Setembro, uma vida inteira pelas esquinas do centro do Rio, precisava voltar lá.
Já tinha perdido Camané e Raquel Tavares esse ano. Gisela João não podia perder.
Vinte horas peguei um táxi para o Miranda. Eu sempre chego mais cedo, esperando que o artista vai compreender a minha insônia e começar na hora. Fiquei ouvindo/vendo Fluminense e Grêmio pelo celular.
Adorei o Miranda. Confortável, intimo, boa acústica, e a Lagoa Rodrigo de Freitas de fundos.
E Gisela impecável repassou todo o disco com seu corretíssimo trio de baixo, violão e guitarra portuguesa.Voltei par casa como se tivesse voltando da missa de domingo. Livre de todos os pecados.
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